Por Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional)
Foto: Júlia Barbosa
“Presença, Resistência e Profecia
Na certeza de um novo dia
Romper cercas, tecer teias
Vai, CPT, com o povo em Romaria…”
(Banda Filhos da Mãe Terra)
Entre os dias 19 e 22 de junho, a Comissão Pastoral da Terra realizou a sua tradicional Semana Nacional de Formação, reunindo mais de uma centena de agentes no Centro Pastoral Dom Fernando, em Goiânia (GO), local em que a CPT foi criada, há exatos 49 anos. O momento foi de imersão nas pautas da pastoral, olhares sobre os desafios da realidade e um aquecimento dos corações e das forças para o início da comemoração dos 50 anos da CPT e a realização do V Congresso Nacional, a ser celebrado em julho de 2025, em São Luís (MA), sob o tema/lema “Presença, Resistência e Profecia – Romper Cercas, Tecer Teias: A Terra a Deus pertence.”
Presença junto aos povos: Os Rios da Vida da CPT
“Moço, Vamos subir o Rio, vamos subir o Rio, vamos subir o Rio…”
A programação começou com a mística da “Construção dos Rios da Vida da CPT”, organizada pelas muitas mãos de agentes de cada grande região, que trouxeram diversos símbolos da memória da caminhada e os mártires da terra. Confira detalhes dos Rios da Vida na Carta do Encontro Nacional de Formação.
Diversas experiências de presença, resistência e profecia vividas nestes 49 anos foram compartilhadas e celebradas, como a Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais (Grande Região Norte), a resistência das comunidades ribeirinhas (Noroeste), a luta e concretização da Reforma Agrária (Centro-Oeste), o enfrentamento aos grandes projetos de desenvolvimento e transição energética (Nordeste), a luta quilombola no Sudeste e a resistência da agroecologia no Sul.
“O encontro todo está sendo um momento de muita força e energia para a gente. Também fico muito feliz por encontrar gente jovem, que está continuando na luta e caminhando junto com o povo do campo,” afirmou Neide Martins, agente da CPT Ceará.
A agente Neide Martins (no centro), representando a CPT Regional Ceará. Foto: Heloísa Sousa
“Onde a CPT está? No lugar em que os pobres do campo sentem sede, junto das pessoas sem rosto, escravizadas e consideradas indigentes ‘pelo poder do latifúndio e ambição do capital’, a CPT bebe na fonte do Evangelho de Jesus de Nazaré. Essa é a espiritualidade da CPT – a espiritualidade da cruz, do martírio, do Jesus que teve sede, junto com as pessoas crucificadas na história. A CPT está lá, não para ficar na cruz, mas para testemunhar, junto com os povos e comunidades que ‘as forças da morte não vencem as forças da vida’”, destacou Muria Carrijo, documentalista do Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno (Cedoc-CPT).
Foto: Júlia Barbosa
A Resistência na luta de classes
“Traga a bandeira de luta, deixa a bandeira passar
Essa é a nossa conduta, vamos unir pra mudar…”
O segundo dia da formação foi dedicado à análise da conjuntura em que se encontra a CPT, um olhar político de reflexão, estudo e debate. Facilitaram o momento o prof. Bruno Lima Rocha, cientista político e pesquisador na Universidade Federal Fluminense (UFF), e Michela Calaça, do Movimento de Mulheres Camponesas e atualmente no Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
A reflexão foi principalmente para um contexto de Brasil entre dois blocos de poder (EUA e China), mas que, mesmo com a mudança para um governo de orientação popular, continua investindo muito mais na produção do agronegócio direcionada para as commodities, com exportação de grãos para a produção de ração para animais, beneficiando o mercado financeiro, enquanto o país está no mapa da fome.
Foto: Carlos Henrique Silva
“Internamente, os desafios são da consolidação de uma direita militante diante de um governo em tensão constante, que mesmo cedendo e beneficiando o agronegócio, precisa sempre negociar com as bancadas do agronegócio, das armas e religiosa conservadora – as bancadas do boi, da bala e dos fariseus”, afirmou o prof. Bruno.
Tânia Maria, agente pastoral da CPT em João Pessoa (PB), também participou de um momento de análise junto com Isidoro Revers (Galego), ex-coordenador nacional da CPT. “O que a gente pode fazer para que a igreja se comprometa, uma vez que ela está cada vez mais apática à situação do campo? Há expressões de padres, até, que dizem que ‘não devemos lutar pela terra, devemos lutar pelo céu’, uma linguagem que está se dando dentro das comunidades. A essência da Pastoral da Terra é levar a esperança evangélica para o povo camponês, a mulher e o homem camponeses”, afirmou Tânia.
Foto: Everton Antunes
A Profecia: denúncia e anúncio a partir do olhar teológico
“No Egito, antigamente, no meio da escravidão,
Deus libertou o seu povo, hoje ele passa de novo
Gritando a libertação!”
O último dia de formação contou com uma análise teológica e profética da caminhada da CPT, iniciando com apresentação da análise feita pelo educador popular Ranulfo Peloso, na Semana de Formação anterior. O texto traz a história da CPT nesses 49 anos, seu serviço prestado aos povos, seus desafios para “nascer de novo” como entidade relevante na luta junto ao povo de Deus e no cumprimento de sua missão. O momento também contou com a facilitação do assessor Jadir Morais e da pastora e assessora Nancy Cardoso.
Foto: Heloísa Sousa
Em sua análise, Nancy destacou a forte presença das mulheres e juventudes no espaço de formação, e as mudanças nesses 49 anos de CPT. “Pedro Casaldáliga, citando santo Agostinho, diz: ‘Nós somos o tempo.’ Sejamos o jubileu com toda a nossa vida, um solene ciclo de festividades, celebrando esse ano que temos em comum. Os tempos mudaram, muita coisa mudou, mas nós, irmãos e irmãs, não perdemos o paradigma. Nos atualizamos, mas não perdemos o prumo do que é a CPT. Vamos nos fortalecer junto com os sindicatos, partidos, movimentos, escolas.”
De acordo com Jadir Morais, o desafio para os/as agentes é ouvir e estar com o povo, dialogar com as comunidades, em um trabalho consolidado. “Os próximos 50 anos, como vai ser daqui pra a frente? Nós temos que estar permanentemente reforçando aquilo que é nossa base, aquilo que nos constituiu. Pra a gente saber qual o lado certo, vamos precisar de muita lucidez, clareza, estudo e leitura. Eu não consigo pensar em um(a) agente da CPT que não lê, não estuda, e vou ainda mais longe: precisa ser um pesquisador e pesquisadora”.
Foto: Everton Antunes
A tarde terminou com a apresentação das rodas de conversas formadas por grandes regiões, que refletiram sobre os desafios e rumos aos próximos 50 anos, apontando caminhos que sejam protagonizados e também construídos pelas vozes das mulheres, juventudes e pessoas LGBT+ presentes no campo, mostrando que, fora da luta e da organização popular, não há saída para essa conjuntura.
“Precisamos debater de forma ampla, unindo este contexto com as questões de gênero e raça, valorizando, estimulando e potencializando ainda mais a sabedoria e o fazer dos povos e das comunidades”, afirmou Larissa Rodrigues, agente que integra a coordenação eleita recentemente na CPT Rondônia.
Consagração dos Tambores e envio aos regionais
Foto: Heloísa Sousa
“Eu tava no alto da floresta
Foi quando o tambor me chamou
Ê não bota fumaça, vovó, ê não bota fumaça, vovó
Eu acordei no batuque do tambor…”
Símbolo da cultura e religiosidade maranhense, o tambor também foi escolhido como instrumento para guiar a preparação do V Congresso Nacional e dos 50 anos da CPT. Para celebrar esse início, um ritual no final da tarde marcou a consagração e entrega de 21 pequenos tambores às equipes regionais e à Coordenação Nacional.
Fotos: Heloísa Sousa
Os instrumentos foram produzidos pelo grupo coletivo Coró de Pau, de Goiânia (GO), que desenvolve há mais de 20 anos trabalhos com percussão musical, blocos de percussão de rua, bandas, produções de instrumentos de percussão, entre outras atividades.
“No Maranhão, a gente costuma dizer que o tambor é feito a machado, afinado a fogo e tocado a coice. É algo muito forte e intenso, que remete à ancestralidade e à resistência do povo”, afirmou Raniere Roseira, agente da CPT Maranhão.
Foto: Heloísa Sousa
A Semana de Formação encerrou com energia para uma caminhada rumo aos 50 anos de comprometimento com as causas populares, representada pelo compartilhamento de anéis de tucum e a inspiração da voz de Dom Pedro Casaldáliga.
“Ai dos que dizem que o mal é bem e o bem é mal, dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas, dos que mudam o amargo em doce e o doce em amargo! Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos e inteligentes diante de si mesmos!” (Isaías 5, 20-21).
Recentemente, no dia 9 de junho, Dom João Justino de Medeiros Silva, primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e arcebispo de Goiânia, presidiu uma missa no Santuário Nacional de São José de Anchieta, a convite do reitor do Santuário, em comemoração aos dez anos da canonização do jesuíta.
Conforme notícia no site da CNBB: “Um dos momentos mais marcantes da festa de encerramento foi a apresentação do Grupo de Xondaro, da aldeia indígena Guarani Nova Esperança, de Aracruz”. Neste contexto, em uma entrevista, Dom João Justino associou os desafios que acometiam os povos originários assistidos pelo missionário no século XVI aos enfrentamentos feitos por seus descendentes nos dias de hoje. O arcebispo citou a importância da reforma agrária e, em especial, a urgência da demarcação dos territórios indígenas, posicionando-se contra o projeto de lei do Marco Temporal, aprovado pelo Congresso.
Suas palavras, Dom João, refletem o pensamento da Igreja Católica em relação à questão agrária brasileira, evidenciada em vários documentos, a exemplo de “A Igreja e a questão agrária brasileira no início do século XXI”, “Nordeste: a missão da Igreja no Brasil” e “A Igreja e problemas da terra”. Consta deste último: “A situação dos que sofrem por questões de terra em nosso país é extremamente grave. Ouve-se por toda parte o clamor desse povo sofrido, ameaçado de perder sua terra ou impossibilitado de alcançá-la” (CNBB, 1980, p. 1).
Esse pronunciamento alegra e encoraja os povos e suas lutas em defesa da terra e do território. As mesmas palavras, no entanto, incomodaram ao deputado Evair Vieira de Melo, integrante da bancada do agronegócio e vice-líder da oposição, que resolveu protocolar uma moção de repúdio na Comissão de Agricultura da Câmara, alegando que “Dom João Justino, ao expressar visões políticas sobre o marco temporal para a demarcação de terras indígenas durante uma celebração dedicada a São José de Anchieta, não só foi inoportuno, mas transgrediu a sacralidade do evento e desrespeitou a expectativa de devoção dos participantes” (Fonte: O Estado de São Paulo).
Questionamos o deputado Evair sobre o que ele buscava naquela festa religiosa: escutar superficialmente os feitos do santo no passado, ignorando o sofrimento e as lutas contemporâneas? Não é assim que os ministros da Igreja dialogam com as comunidades – desvinculados do contexto em que vivem.
Seu posicionamento, Dom João, contrário ao Marco Temporal, está em sintonia com a mensagem do Papa Francisco, em “Querida Amazônia” (2020), na qual adverte: “Os interesses colonizadores que, legal e ilegalmente, fizeram – e fazem – aumentar o corte de madeira e a indústria minerária e que foram expulsando e encurralando os povos indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes, provocam um clamor que brada ao céu”.
A denúncia do Papa Francisco anuncia a realidade em que a população brasileira vive, estarrecida, nos últimos anos, com desastres naturais em várias regiões do país. Enchentes e deslizamentos de terra em estados litorâneos, secas severas seguidas de enchentes em estados amazônicos, o Pantanal novamente incendiado. Ser contra o Marco Temporal representa, portanto, a contrariedade a todo este contexto devastador que sacrifica vidas humanas e a natureza.
Sua voz, Dom João, reverbera a angústia de cerca de 90% da população brasileira que, segundo pesquisa conduzida pela PwC e pelo Instituto Locomotiva, reconhece os impactos destes eventos como resultados do desequilíbrio climático mundial. Na contramão da crise anunciada, um levantamento do MapBiomas mostrou que as terras indígenas perderam menos de 1% de sua área de vegetação nativa nos últimos 38 anos, enquanto nas áreas privadas a devastação foi de 17%.
Isso se deve ao entendimento dos povos originários como pertencentes à integralidade do meio natural em que vivem. Por isso, cuidam da natureza como sua mãe e entendem seu território como um espaço de vida em comunhão. Os povos indígenas são exemplos ancestrais e presentes do cuidado com a Casa Comum.
Por sua voz e vida colocadas a serviço da luta por uma terra sem males, agradecemos o seu compromisso, Dom João, ao anunciar o Reino de Deus, fiel ao evangelho, levando alegrias e esperanças aos empobrecidos da terra.
Goiânia, 21 de junho de 2024
Comissão Pastoral da Terra
*A carta foi lida e entregue à Dom João Justino durante a Celebração Eucarística de abertura do Ano Jubilar da CPT, em 22 de junho, em Goiânia/GO.
Foto: Júlia Barbosa
CPT rumo aos 50 anos: presença, resistência e profecia
“A terra a Deus pertence” (cf. Levítico 25)
Para dar início à celebração dos seus 50 anos, a Comissão Pastoral da Terra – CPT reuniu 102 de seus/suas agentes, de todos os cantos do país, com parceiros e assessores e assessoras, no Encontro Nacional de Formação, de 19 a 22 de junho de 2024, no Centro de Pastoral Dom Fernando, em Goiânia, onde ela foi criada há exatos 49 anos. O tema e o lema do encontro, acima enunciados, foram os mesmos do seu V Congresso Nacional, a se realizar em São Luís – MA, de 21 a 25 de julho de 2025, quando serão concluídos os 50 anos.
O percurso histórico-geográfico da CPT foi recordado e revivido com a dinâmica dos “rios da vida”, na qual agentes das suas seis Grandes Regiões – Norte, Noroeste, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul –, trouxeram símbolos, imagens, fotos, artesanatos, nomes, falas e cânticos que plasticamente contaram dos vários serviços prestados aos diversos campesinatos brasileiros nestes decênios. Nestes rios correram e correm as águas de inúmeras e incansáveis lutas, das várias organizações e movimentos sociais criados e incentivados, rearticulados em “teias”, de tanta vida generosa doada, dos sangues derramados nos martírios e lágrimas vertidas nas derrotas, das alegrias das conquistas celebradas nas festas, das rezas em todos os momentos, pedindo e agradecendo ao Deus de Jesus, a Nossa Senhora, aos Santos e Santas, aos Encantados e Orixás. As bases bíblico-teológicas, as espiritualidades, as religiosidades e as eclesialidades subjacentes a tanto feito foram o segredo e a marca. O olhar para trás nos encantou, emocionou e fortaleceu, mas é o agora e o amanhã que nos desafiam.
A CPT foi criada em 1975, sob a Ditadura Empresarial-Militar, no enfrentamento ao latifúndio que massacrava posseiros e peões “aprisionados por promessas”, na fronteira agrícola da Amazônia. Logo estava espalhada por todo o país, onde se manifestava a questão agrária brasileira com suas várias e recorrentes violências contra os povos da terra e seus territórios, essencial à manutenção do poder dominador do Capital, a despeito da formal democracia. E este processo não para.
As cercas de sempre hoje estão multifacetadas, com a mesma usura avassaladora, agora fazendo-se também “economia verde”. Quer seja sob a socialdemocracia ou o ultra-neoliberalismo, sob governos de Direita ou ditos de Esquerda, as corporações capitalistas-financistas do agro, que não é pop nem é gente, se tornam hidro-minero-econegócios, ampliam a invasão de territórios, campos, florestas e bacias hidrográficas, incorporam o sequestro de carbono e a exploração dos ventos e da luz solar, numa ilusória transição energética e insuficiente enfrentamento das emergências climáticas. Mais difícil do que ontem está em identificar os inimigos e traçar as estratégias corretas da luta de sempre, pela vida, a justiça e a dignidade na “terra de Deus, terra de irmãos”.
Diante de passado tão frutuoso e do presente tão inquietante, impõe-se para nós reinventar-se e redizer-se com a mesma e renovada presença no meio das comunidades camponesas e povos tradicionais, no serviço educativo e transformador junto a eles, reafirmando a memória subversiva do Evangelho da vida e da esperança, germinal da CPT. Fortalecer, na expectativa da ressurreição, a espiritualidade da cruz, em diálogo com todas as legítimas expressões religiosas.
Reconhecemos a necessidade de retomar e aprimorar nosso modo de atuar, a metodologia do trabalho de base, a prática precípua do respeito e reconhecimento do protagonismo dos povos e comunidades, das mulheres e das juventudes. Colaborar na recriação das estratégias para democratizar o acesso e a permanência na terra, o trabalho digno e a produção agroecológica e agroflorestal. Aperfeiçoar as táticas de formação de agentes e de lideranças e de comunicação que enfrentem o assédio, tão brutal quanto sedicioso, da concorrência desinformativa e deformativa que grassa no mundo atual. Reaproximar-nos das nossas Igrejas e de novo comprometê-las na solidariedade com os povos e comunidades destinatários da nossa missão evangelizadora comum, restituindo nosso ecumenismo cristão enfraquecido.
Nesta caminhada jubilar, a CPT precisa reassumir, revigorada, as causas da vida nos campos, águas e florestas, contra as ameaças e mortes engendradas pelos velhos e novos projetos do Capital. Insistir na denúncia de tudo o que fere e mata os povos e comunidades e a Mãe Terra. Empenhar-se pela recriação e revitalização dos movimentos sociais do campo e por novas articulações entre eles, como as Teias dos Povos. Reforçar as incidências para a construção de políticas públicas de enfrentamento e combate à violência no campo e de erradicação do trabalho escravo. Abraçar para valer a “conversão ecológica” e a “economia da vida”, proposta pelo Papa Francisco.
No sábado, dia 22, aniversário da CPT, externamos publicamente o início da nossa celebração jubilar, com uma caminhada, sob o toque dos tambores-símbolos deste jubileu, da Praça Universitária à Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Auxiliadora, no centro da cidade, onde uma celebração eucarística deu graças a Deus por esta trajetória sofrida, virtuosa e vitoriosa dos 50 anos da CPT.
“Lutar e crer, vencer a dor, louvar ao Criador! Justiça e paz hão de reinar e viva o amor!” (Zé Vicente)
Goiânia, 22 de junho de 2024.
Com informações de Luis Miguel Modino (Comunicação CNBB Norte 1) e REPAM-Brasil
Edição: Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional)
Crédito das imagens: CNBB Norte 1
De 17 a 23 de junho de 2024, a Comissão Episcopal Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano (CEPEETH) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), está realizando uma missão no Estado de Roraima, na fronteira com a Guiana e a Venezuela. Uma comissão que segundo seu presidente, dom Adilson Pedro Busin, bispo da diocese de Tubarão (SC), tem entre seus objetivos “a conscientização, a incidência política e eclesial”. Representantes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) também se fazem presentes na missão.
Tráfico de pessoas, uma realidade escondida
A missão ajuda a “trazer a temática do tráfico humano, que ele é escondido, inclusive as vítimas são escondidas”, ressalta o bispo. Estamos diante de um problema social mundial, que o Papa Francisco tanto insiste. A incidência deve ser dupla, segundo dom Busin, “ad intra da própria Igreja, para nós tomarmos consciência desse problema grave, dessa chaga da humanidade, como diz o Papa Francisco, e da sociedade”.
Diante da realidade de Roraima, com uma ebulição migratória e tantas “fronteiras porosas”, a visita da comissão quer com que “essa temática do tráfico humano seja exibido, visibilizado, seja sentido, que chegue ao coração, à mente das pessoas, no mundo da política e na sociedade, com políticas públicas que venham a enfrentar o tráfico de pessoas”, destaca o presidente da comissão.
Fronteira Brasil-Guiana-Venezuela: vulnerabilidades comuns
A migração é uma situação que marca a vida do Estado de Roraima nos últimos anos, até o ponto que atualmente 30% da população de Roraima é formada por migrantes venezuelanos. Anualmente entram mais ou menos 200 mil venezuelanos por ano pela fronteira de Pacaraima.
Na fronteira entre o Brasil e a Guiana, o fluxo de venezuelanos, cubanos e haitianos é constante. Os migrantes chegam muitas vezes em situação de extrema pobreza, sendo muito grande a demora para conseguir documentação, que é tramitada em Boa Vista, com uma lista de espera de mais de cem migrantes em Bonfim, que pelo fato de não ter documentação são vítimas fáceis das redes de exploração.
O tráfico de pessoas é algo sobre o que se está começando a falar entre os povos indígenas, segundo Davi Kopenawa, que afirma ser algo antigo entre os brancos. Nessa perspectiva, o líder yanomami destaca que “é bom que vocês acordarem para falar conosco”. Ele denuncia a exploração das mulheres yanomami pelos garimpeiros, insistindo em que cada vez são mais as indígenas grávidas de garimpeiros.
Os migrantes em Roraima são vítimas do tráfico humano, que se concretiza de diversos modos, no trabalho escravo, a servidão doméstica, o aluguel de crianças para mendicância, para as pessoas serem atendidas em primeiro lugar nas filas, a exploração sexual de crianças e adolescentes, inclusive o roubo de crianças do colo das mães. Pode ser falado abertamente de falta de respeito aos direitos das pessoas, muitas vezes com a conivência do poder público e da própria sociedade.
Uma realidade que também se dá nos abrigos de acolhida, superlotados, com poucas pessoas para realizar o atendimento e cuidado, que em muitos casos têm se tornado territórios sem lei, tendo acontecido assassinatos dentro desses abrigos. De fato, muitos migrantes não querem entrar nos abrigos, preferem dormir na rua, até o ponto de que Boa Vista é a cidade com maior porcentual de população de rua do Brasil.
Em parceria com outras instituições que acolhem os migrantes, a cada dia a Igreja distribui pelo menos 1.500 cafés da manhã e 1.500 almoços, fora o serviço de documentação e acolhimento, com o projeto Sumauma, sediado na paróquia da Consolata de Boa Vista, a mais próxima à rodoviária da cidade, onde grupos de migrantes mais chegam à procura de ajuda.
“Todos os que chegaram aqui trouxeram a sua cultura, o seu jeito de ser, a sua história, e cada um trouxe um pouquinho mais de enriquecimento a nossa sociedade, a visão do mundo, a culinária. A migração não é um problema, a migração é uma riqueza, que torna a sociedade mais plural, mais acolhedora, uma sociedade de fato aberta a todas as pessoas que possam aqui chegar”, ressaltou o bispo de Roraima e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil), dom Evaristo Spengler.
No enfrentamento ao tráfico de pessoas, uma realidade muito ligada à migração, se faz necessário juntar forças para que as autoridades possam efetivar essa política, algo que não está acontecendo no Estado de Roraima, para descobrir luz para fortalecer nossa caminhada, segundo Socorro Santos, diretora do Programa de Direitos Humanos e Cidadania, da Assembleia Legislativa de Roraima. Ela reflete sobre a realidade do tráfico humano, que é dinâmico, multifacetário, ele muda de acordo com a realidade local e o momento histórico.
O tráfico humano também é campo de pesquisa na Universidade, constatando o grande crescimento do contrabando de migrantes, sua perda de cidadania, que vai além do fato de ter documentos, abordando a questão do migrante como assistido e não como protagonista de direitos. Essas pesquisas levam a enxergar o problema da interiorização, visto muitas vezes como projeto de se livrar dos migrantes, igualmente o feminicídio.
Essa realidade leva a olhar as pessoas como objetos, como “a carne mais barata do mercado”, o que coloca em vulnerabilidade as mulheres, os povos indígenas, os negros, no Brasil. Um fato que deve levar a se questionar onde estamos errando como sociedade, a tomar consciência de combater os crimes que são cometidos diante da vulnerabilidade das pessoas.
Atividades incluem caminhada, ato público no centro da capital e celebração eucarística na Catedral Metropolitana
Agentes da CPT de todo o Brasil já estão reunidos e reunidas em formação e preparação das atividades do dia 22. (Foto: Júlia Barbosa | CPT Nacional)
A Comissão Pastoral da Terra (CPT), pastoral social vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), abre, neste sábado, 22, as comemorações de seu ano jubilar. Com caminhada, ato público e celebração eucarística, a organização dá início às atividades de memória e festejo de 50 anos de atuação em defesa dos direitos das populações do campo, das águas e das florestas em todo o Brasil e de presença profética junto a estes povos.
As atividades terão início às 8h30 da manhã, na Praça Universitária, com um momento de memória da caminhada pastoral e homenagem aos mártires que tombaram em defesa da terra e de seus povos, personagens históricas que infelizmente foram vitimados na luta pelos direitos do mais empobrecidos, a exemplo da Irmã Dorothy Stang, Padre Josimo e tantos/as outros/as religiosos/as e lideranças populares.
Ao som do batuque do Grupo Coró de Pau, o grupo sairá em caminhada até a Catedral Metropolitana de Goiânia, onde Dom João Justino, arcebispo de Goiânia, e Dom Ionilton Lisboa, presidente da CPT e bispo da Prelazia de Marajó (PA), conduzirão a celebração eucarística de lançamento do Ano Jubilar da pastoral.
SERVIÇO
Lançamento do ano jubilar da CPT
Início: Ato público às 8h30 da manhã
Local: Praça Universitária
Seguido de Caminhada até a Catedral Metropolitana
Celebração da Eucaristia: às 10h, na Catedral Metropolitana
Com Dom João Justino (Arcebispo de Goiânia) e Dom Ionilton Lisboa (Presidente da CPT e bispo da Prelazia de Marajó/PA)
Atendimento à imprensa:
Júlia Barbosa - CPT Nacional - Telefone/Whatsapp - (62) 99309-6781
Marilia da Silva - CPT Goiás - Telefone/Whatsapp - (62) 99940-4656
Por Heloisa Sousa
Com informações da CPT RS
Foto: Cáritas Brasileira
Na última segunda-feira, 17, o grupo da missão Sementes de Solidariedade deu início à semana de formação para a preparação das equipes que vão a campo visitar os agricultores e agricultoras atingidos pelas enchentes. O encontro ocorreu no Convento Franciscano São Boaventura, localizado no povoado Dantron Filho, município de Imigrante (RS). Após a formação, o grupo elaborou um roteiro de visitas às famílias afetadas. Na terça-feira, a turma visitou comunidades do município de Arroio do Meio, na quarta-feira a visita ficou agendada para Cruzeiro do Sul e, quinta-feira, Venâncio Aires.
“A CPT RS está junto desde o início da missão, essa ação é uma prioridade para nós desde que começou a situação das enchentes, em setembro no ano passado”, conta Maurício Queiroz, coordenador da CPT Diocese de Santa Cruz do Sul. “Nosso objetivo é visitar cada família, dar um abraço solidário e ser presença profética junto às camponesas e camponeses atingidos pelas enchentes. Trazer também o apoio emocional, da mística e da espiritualidade”, completa.
Foto: CPT RS
Segundo Maurício, após a fase das visitas, onde serão realizadas escutas para o levantamento da realidade de cada comunidade, o grupo organizará apoio técnico e doações de sementes e mudas para as pessoas afetadas. A ação é importante para dar suporte às famílias na reconstrução de suas roças e também na garantia de direitos. “Muitas famílias estão desabrigadas ou precisarão ser realocadas e precisamos garantir que isso aconteça”, explica.
A missão Sementes de Solidariedade reúne diversas entidades e movimentos sociais que, em 2023, se organizaram em socorro às populações camponesas atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Você pode fazer parte dessa corrente de solidariedade, basta fazer uma doação através do PIX: 33654419/0010-07(CNPJ) ou através da conta no Banco do Brasil número 55450-2, agência 1258-3, em nome da Cáritas Brasileira.
Foto: CPT RS
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Massacres no campo
#TelesPiresResiste | O capital francês está diretamente ligado ao desrespeito ao meio ambiente e à vida dos povos na Amazônia. A Bacia do Rio Teles Pires agoniza por conta da construção e do funcionamento de uma série de Hidrelétricas que passam por cima de leis ambientais brasileiras e dos direitos e da dignidade das comunidades locais.