Texto: Wilians Santana (FETAG-RO)
Revisão e Edição: CPT Regional Rondônia / Comunicação CPT Nacional
Fotos: FETAG-RO e CPT-RO
Na manhã da última sexta-feira (09), um ato público em memória das vítimas do massacre na fazenda Santa Elina, no município de Corumbiara/RO, marcou os 29 anos daquele dia cinzento, triste e sangrento, conhecido como “Massacre de Corumbiara”, o qual interrompeu o sonho de várias famílias que buscavam o seu pedacinho de chão.
O memorial construído está localizado na LH 02 do Assentamento Alzira Augusto Monteiro, antiga Fazenda Santa Elina, tendo sido inaugurado no ano passado, como homenagem do Conselho Regional de Psicologia da 24a. Região (CRP-24), a pedido das famílias do local (confira aqui a divulgação da inauguração).
O evento em memória das vítimas foi organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Corumbiara, em parceria com os demais sindicatos do Regional Cone Sul, bem como com as igrejas Católica e Adventista, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e outras organizações civis, e contou com a participação de vários agricultores e agricultores familiares e lideranças locais para fazer memória de todas as vítimas que tombaram por terra naquela localidade. Participaram do ato: representantes dos STTRs de Corumbiara, Vilhena/Chupinguaia e Cerejeiras/Pimenteiras; membros da coordenação regional e agentes da CPT; o Bispo Diocesano de Guajará-Mirim, Dom Benedito Araújo; Padre Anilson Ferreira, da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e Teófilo Santana, diretor de meio ambiente da FETAGRO.
Relato do Massacre | Texto: João Ribeiro de Amorim, assistente administrativo e irmão do ex-vereador Nelinho
O cruel e sangrento Massacre de Santa Elina, também chamado de Massacre de Corumbiara, completa 29 anos neste 09 de agosto. O município era recém-emancipado, tinha apenas 03 anos de criação. Deixou cicatrizes profundas e tristes lembranças em toda a região do Cone Sul de Rondônia. Esse triste episódio é mais um subproduto da desigualdade social no Brasil, e que tem raízes históricas que remontam desde o colonialismo europeu, que consistia em invadir territórios alheios, escravizar pessoas e distribuir imensas áreas de terras aos chamados senhores de engenho. No Brasil, implantou-se as Capitanias Hereditárias, que eram grandes extensões de terras tomadas dos indígenas originários e distribuídas aos nobres de confiança do rei de Portugal.
De lá pra cá, ao longo dos séculos, pouca coisa mudou com a ocupação. A desigualdade na distribuição de terras continuou repetindo a mesma gênese de tantos outros massacres acontecidos contra os índios, camponeses e posseiros.
A distribuição desigual de terras e a grilagem na região de Corumbiara remonta ao período da ditadura militar nas décadas de 60/70/80, quando Rondônia ainda era Território Federal, através de Contrato de Alienação de Terras Públicas (CATPs), primeiro com a tomada de terra dos povos originários, dizimando suas aldeias, roubando suas madeiras e suas riquezas, como foram registrados os casos dos índios Omerê, Akuntsu e o Índio do Buraco, em Corumbiara, onde seus povos foram exterminados. As melhores terras foram entregues ao grande latifúndio. Aos pobres restou somente a ocupação que avançou palmo a palmo resultando nos assentamentos Verde Seringal, Vitória da União, Roncauto e Adriana, onde a maioria das vezes resultando em conflitos violentos.
O Massacre de Corumbiara foi um dia de tristeza e de agonia, que parecia uma eternidade para quem vivenciou aquele triste momento. A tragédia ficou gravada negativamente na história de Rondônia, e a notícia correu o mundo. O conflito envolvendo policiais militares, jagunços e centenas de famílias de sem-terra, resultou na morte e tortura de inúmeras pessoas. Notou-se o despreparo das forças de segurança no trato com a situação, pois, a função seria proteger e salvar vidas. Nos relatos consta que, por volta de 3h30 da madrugada, policiais militares e jagunços avançaram e cercaram o acampamento, grande parte deles usando máscaras ou com rostos pintados. O ataque iniciou na escuridão da madrugada com holofotes ligados, arremesso de bombas de gás lacrimogênio e rajadas de tiros que avançou até ao alvorecer do dia, e seguiu pela manhã. Depois de dominados, vários detidos passaram por sessões de espancamento e tortura. Na fuga pela mata, a pequenina e inocente Vanessa dos Santos, de apenas seis anos, quando fugia desesperadamente junto com sua família, teve o corpo trespassado nas costas por uma bala, jorrou seu sangue inocente pelo chão da Santa Elina.
Consta também nos relatos que as mulheres e crianças que não conseguiram fugir, sendo usadas como escudo humano pelos policiais e jagunços, e na sequência, várias execuções, e muitos posseiros fuzilados a queima roupa. Tombaram por terra os mártires: Nelci Ferreira, Enio Rocha Borges, José Marcondes da Silva, Ercílio Oliveira Campos, Odilon Feliciano, Ari Pinheiro Santos, Alcino Correia da Silva e Sérgio Rodrigues Gomes, que foi tirado vivo do local, executado depois, e seu corpo jogado no rio Tanaru, a 70 km do local. Além disso, vários desaparecidos jamais foram encontrados. É o caso do jovem Darli Martins, morador da linha 05, filho de pioneiros de Corumbiara, e seu corpo nunca mais localizado para um enterro digno.
Em janeiro de 2020, a Justiça de Rondônia finalmente declarou a morte presumida do mesmo. No confronto também morreram 02 policiais: Tenente Rubens Fidélis Miranda e Soldado Ronaldo de Souza. Em tratamento desumano, típico de campo de concentração, foram confinados no campinho de futebol do assentamento Adriana, depois de muitos espancamentos e hematomas pelo corpo, como animais, foram jogados em caminhões de carroceria. Cerca de 355 pessoas foram aprisionadas e levadas para o ginásio poliesportivo e delegacia de polícia de Colorado do Oeste, onde, sem se alimentar, sofreram as piores humilhações, fisicamente, moralmente e psicologicamente, tiveram que tirar as roupas e ficaram só de cueca.
Em função do conflito, alguns dias após, a região de Corumbiara voltou ao palco dos noticiários. Em dezembro daquele ano, foi assassinado covardemente o vereador Manoel Ribeiro, o Nelinho, que era muito querido por todos na região, e que apoiou moralmente os camponeses de Santa Elina. O massacre de Corumbiara levou Rondônia e o Brasil a responderem na Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA) por violação do direito à vida e dos direitos humanos.
Em 21 de agosto de 1998, proposto pelo então vereador Valdemar, popular Sapo (in memoriam) foi criada a Lei Municipal nº 137, que estabeleceu o dia 9 de agosto como feriado municipal em Corumbiara, onde o município para celebrar em memória às vítimas do Massacre de Corumbiara.
A luta e o sangue derramado não foi em vão. À custa de muito sangue derramado desses mártires, resultou em vários assentamentos, sendo em Corumbiara criado o Assentamento Guarajús, também denominado de Nova Vanessa, em memória a pequena Vanessa, e no município de Theobroma sendo criado os assentamentos Santa Catarina, Rio Branco e Lagoa Nova, e a consequente criação da Vila Palmares do Oeste.
Quinze anos após o massacre, houve novas ocupações, e com a tensão eminente, foi desapropriada parte da Fazenda Santa Elina, que compreende Água Viva e Maranatá, que foram subdivididas em denominações de vários assentamentos que levam o nome de Zé Bentão, Renato Natan, Alzira, etc, onde mais de 700 famílias de assentados produzem e alimentam seus filhos.
“Meu Senhor, pelos Santos Inocentes, quero Vos rogar hoje por todos aqueles que são injustiçados, sofrem ameaças, são marginalizados e incompreendidos. Olhai pelos pequeninos, abandonados e assassinados pela estrutura de morte de nossa sociedade. Que convosco eles alcancem dignidade e paz. Amém.”
Por: Setor de comunicação da CPT NE2
Imagem: Equipe CPT Mossoró-RN
Nos dias 9, 10 e 11 de agosto, o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi foi o local do Encontro da Juventude Camponesa do Rio Grande do Norte. Organizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), o encontro reuniu jovens de diversas comunidades apoiadas pela Pastoral no estado potiguar e contou também com a participação de meninos e meninas de comunidades camponesas da Paraíba.
Com o tema "Refletindo sobre a Identidade da Juventude do Campo", a atividade teve como objetivo promover a troca de experiências, aprofundar reflexões sobre o assunto e fortalecer a articulação entre os jovens que vivem e lutam no campo. Entre místicas, músicas e rodas de conversa, os(as) jovens dos dois estados compartilharam suas experiências e debateram o papel fundamental da juventude na valorização do campo como espaço de vida e resistência. A animação do encontro ficou por conta da banda Manégrafia, formada por lideranças comunitárias e agentes pastorais da CPT na Paraíba.
"Foi um encontro revigorante", destacou a jovem Poliana Mirtes, do Assentamento Terra de Esperança, situado em Governador Dix-Sept Rosado. "O exemplo da juventude da Paraíba mostrou que a articulação entre os(as) jovens não é apenas possível, mas também eficaz e capaz de gerar resultados. O estigma de que a juventude não se interessa por questões relevantes não condiz com a nossa realidade. Estamos engajados(as) e desejamos fazer a diferença."
Poliana ressaltou que o encontro serviu como motivação para a formação de grupos de jovens nas comunidades do Rio Grande do Norte e para ampliar as discussões sobre a luta e a valorização da identidade camponesa. "Ser jovem no campo é ser resistência e ter compromisso com a continuidade da soberania alimentar, da agroecologia e dos saberes da agricultura camponesa. A juventude representa o presente e o futuro. Precisamos ser valorizados(as) e apoiados(as), precisamos de incentivo para engajar outros(as) jovens na construção do sonho de uma sociedade justa e igualitária, que respeite e valorize os saberes dos povos do campo", completou.
A troca de experiências entre os(as) jovens do Rio Grande do Norte e da Paraíba não apenas fortaleceu os laços entre eles(as), mas também reafirmou a importância de uma juventude comprometida com as lutas travadas por suas famílias e comunidades. O encontro foi um passo importante na construção dessa articulação, e a expectativa é que as discussões e ações sejam expandidas, assim como a conexão e o apoio mútuo entre os(as) jovens de diferentes comunidades. A semente foi plantada, e a colheita pode ser um presente e futuro marcados pela justiça social e pelo respeito aos povos do campo.
Participaram do evento jovens de diversas comunidades, como: assentamento Professor Maurício de Oliveira, em Assu; assentamento Tabuleiro Grande, em Apodi; assentamentos Terra de Esperança e Chico Rego, em Governador Dix-Sept Rosado; assentamento Monte Alegre, em Upanema; além de comunidades situadas no município de Caraúbas e de municípios paraibanos, como Cajazeiras.
Setor de Comunicação da CPT Nacional
Fernando Araújo dos Santos foi assassinado na noite de 26 de janeiro de 2021, com um tiro na nuca e sem chance de defesa, no momento em que arrumava seus pertences para se mudar daquele local.
Ele residia na mesma área onde havia presenciado a execução covarde e cruel de 10 trabalhadores rurais (nove homens e uma mulher), por policiais civis e militares do Estado do Pará. Este violento episódio ficou nacionalmente conhecido como Massacre de Pau D’arco, ocorrido em 24 de maio de 2017.
Fernando era a principal testemunha desta chacina. Ele narrava com riqueza de detalhes a execução de seus companheiros e de seu namorado pelos policiais. Para sobreviver naquele terrível dia, Fernando ficou embaixo de um dos corpos de seus companheiros, com sangue por todo o corpo, enquanto, com medo, ele escutava e presenciava a ação violenta da polícia.
Em 20 de setembro de 2020, Fernando foi vítima de uma tentativa de assassinato, tornando-se, assim, duas vezes sobrebrivente, e mais uma vez, vítima da violência contra os trabalhadores rurais do Sul do Pará.
Após onze meses de seu assassinato, as investigações foram encerradas, tendo sido identificado pela Polícia Civil apenas o executor do crime, Oziel Ferreira dos Santos, denunciado pelo Ministério Público em dezembro de 2021.
Oziel, acusado de ser o executor do crime foi levado a júri popular na comarca de Redenção/PA, nesta quinta-feira, dia 08 de agosto de 2024. A sessão do Tribunal do Júri foi presidida pelo doutor Bruno Carrijo, juiz criminal, e teve duração de cerca de 07 horas, contando com a participação na plateia de amigos e familiares de Fernando.
Atuaram como assistentes da acusação os advogados/as Marco Apolo Leão, da SDDH, e Rogério Silva e Jamyla Carvalho, da CPT/PA. Estes, desde o início, acompanham o caso como representantes da família de Fernando e também das entidades defensoras de direitos humanos.
Após acalorados debates entre defesa e acusação, por maioria de votos, os jurados reconheceram Oziel Ferreira dos Santos como autor do crime de homicídio qualificado contra a vítima Fernando dos Santos. Oziel foi condenado a 14 anos de prisão, que devem ser cumpridos inicialmente em regime fechado.
Ocorre que, mesmo identificado e condenado o autor do assassinato de Fernando, a Policia Civil do Estado do Pará, ainda não foi capaz de responder as seguintes perguntas: quem mandou matar Fernando? Qual o motivo?
No início de 2022, a requerimento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), um novo procedimento para tentar sanar estas dúvidas foi reaberto pela Polícia Civil do Estado a pedido do Ministério Público Estadual. Este procedimento corre há cerca de dois anos na Delegacia de Homicídios da Capital, e apesar do transcorrer do tempo, ainda não foi concluído, deixando em aberto os questionamentos mencionados.
Os advogados e a advogada que atuaram na sessão de ontem, assim como as entidades que estes representam, e que acompanham desde inicio o caso, esclarecem que a condenação de Oziel pelo assassinato de Fernando não coloca fim a estes questionamentos, e por isso, a busca por tais resposta deve continuar, afirmando o compromisso da CPT e da SDDH com a verdade, a memória e a Justiça por Fernando.
Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta!
Com informações da CPT Regional Rondônia
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) Regional Rondônia realizou, nesta segunda-feira (5) no auditório da Cúria Arquidiocesana em Porto Velho, o lançamento do relatório Conflitos no Campo Brasil, bem como a cartilha Conflitos no Campo 2023 – Análise dos dados registrados em Rondônia. A cartilha, que traz um recorte dos conflitos no estado e na região, contém um texto de análise escrito pelo prof. dr. Afonso Chagas, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), que também contribui com a CPT.
Entre 2022 e 2023, os registros de conflitos aumentaram em mais de 113%, passando de 87 para 186 ocorrências (sendo 162 conflitos por terra), colocando Rondônia na quarta colocação entre os estados com maiores registros no país, e no segundo lugar na região Norte, atrás apenas do Pará. No caso de violência contra a pessoa, os registros apontam a ameaça de morte como a maior forma de violência utilizada, com um total de 55 ocorrências, contra 19 registradas no ano de 2022. Ao todo, 5 pessoas foram assassinadas no Estado, todos trabalhadores rurais sem-terra.
Analisando a distribuição espacial dos conflitos no estado, o prof. Afonso, no texto de análise da cartilha, destaca que é pelo eixo das rodovias que vai se consolidando o avanço da frente de expansão da fronteira agrícola (agronegócio do boi, soja e milho), um esforço do agronegócio para expandir as fronteiras do capital no campo, mesmo que isto custe muitas violações de direitos, infelizmente tendo o Estado como grande aliado, inclusive no abandono dos assentamentos de reforma agrária e da demora sem fim, em reconhecer territórios dos povos indígenas e das comunidades tradicionais. A grilagem e a apropriação de terras públicas também acontece principalmente na região de Porto Velho, Vale do Jamari, Cone Sul e Vale do Guaporé.
“O nível de conflito alto revela a relação destas ocorrências com o avanço e expansão da fronteira agrícola sobre o bioma Amazônia, que vem se intensificando nos últimos anos, sobretudo com a implementação da Zona de Desenvolvimento Sustentável Abunã-Madeira (Amacro), abrangendo o norte do Estado de Rondônia, o Sul do Amazonas e o Leste do Acre. Na verdade, em números, as ocorrências do conflito no campo, demarcam esta região como epicentro da violência na Amazônia,” afirma.
Os dados também foram apresentados na cidade de Ji-Paraná, no 4º Fórum Internacional sobre a Amazônia (FIA – Regional Rondônia), que acontece de 07 a 09 de agosto. No evento organizado pela Universidade de Brasília (UnB), UNIR e Instituto Federal (IFRO), a apresentação também teve a participação do bispo Dom Norberto Förster, da Diocese de Ji-Paraná, bispo referência de acompanhamento da CPT na Grande Região Noroeste, seguida de um pequeno debate com os participantes.
Apresentação no 4º FIA também teve a participação do Dom Norberto Förster, bispo da Diocese de Ji-Paraná
“Rondônia, no contexto da Amacro, segue sendo um estado muito violento, e proporcionalmente segue como um dos estados mais violentos do país. Nosso objetivo é transmitir e denunciar essas violações nos diversos espaços”, afirma Welington Lamburgini, que integra a Coordenação Regional.
“Em todos os seis regionais da CPT em Rondônia, agentes e equipes, junto aos movimentos sociais, às comunidades tradicionais e às vítimas da violência e da ganância, foram testemunhas das muitas pressões e tensões no dia a dia. Esta dura experiência faz restaurar cada vez mais, a missão da CPT, de ser presença profética, testemunha da esperança e da solidariedade às lutas do povo, por terra, direitos, territórios e dignidade”, acrescenta o prof. Afonso.
Acesse aqui a cartilha de Análise dos dados de conflitos no campo em Rondônia.
A CPT Nacional se une à equipe de Alagoas e Regional Nordeste 2 neste momento de pesar pelo falecimento da querida amiga Maria das Graças Alves, ocorrido na madrugada de hoje, 07 de agosto de 2024. Nascida em 10 de julho de 1974, Graça - como era conhecida - sempre semeou e cultivou alegria, resiliência e amor por onde esteve, atuando como camponesa, educadora popular e agente pastoral.
O velório já está sendo realizado na Igreja Matriz de São José Operário, localizada na Rua José Fragoso de Melo, Joaquim Gomes / AL. O sepultamento ocorrerá às 17h no cemitério São Sebastião, situado na Rua Vinte e Cinco de Agosto, 805-903, também no município de Joaquim Gomes.
Graça, presente na caminhada!
Por Ariana Frós (Jornalista da CNBB NE5)
Edição: Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional), com informações da CPT Regional Maranhão
Fotos: Ariana Frós, Ribamar Carvalho e Elsilene Lima
A Igreja Católica no Maranhão, Regional Nordeste 5 da CNBB, realizou nos dias 02 e 03 de agosto a sua 14ª Romaria da Terra e das Águas, na diocese Viana. A Romaria contou com a participação de cerca de 10 mil fiéis que chegaram com as caravanas oriundas das 12 dioceses do Maranhão. O percurso da Romaria totalizou 9km, saindo da cidade de Santa Inês em direção a Pindaré Mirim.
Esta edição teve como tema: “Territórios livres das cercas, dos trilhos e do agronegócio”, e lema: “Vou plantá-los no seu chão, de modo que nunca mais sejam arrancados de sua terra” (Amós 9, 15).
“É um momento de fortalecimento da Igreja, mas sobretudo das comunidades tradicionais, dos povos indígenas, dos povos quilombolas, das quebradeiras de coco, enfim, dos pescadores e pescadoras, de todos aqueles e aquelas que não tem vez e nem voz e aqui podem se expressar. É o Deus da vida que nos acompanha, que nos fortalece e que nos anima nesta caminhada, nesta missão”, destacou dom José Valdeci Santos Mendes, bispo da diocese de Brejo e referencial para as Pastorais Sociais.
Dom Evaldo Carvalho e dom Valdeci Mendes somam forças na luta pela defesa dos povos originários no Regional Nordeste 5
A 14ª edição da Romaria iniciou com um momento de animação enquanto as caravanas chegavam na praça da Juventude, local da concentração. Em seguida, a Santa Missa, com a presidência de dom Evaldo Carvalho, bispo de Viana, diocese anfitriã, concelebrada por nove dos 12 bispos do Maranhão, marcou o primeiro momento da Romaria.
Em sua homilia, dom Evaldo Carvalho, sob a ótica dos mártires, como profeta Jeremias, que por sua defesa à justiça foi perseguido, processado, açoitado e preso. E de João Batista, que também teve a morte como consequência por sua sede de justiça, pois não temia mostrar toda a sujeira do sistema político/religioso. Ambos foram perseguidos por serem fiéis à missão que receberam de Deus.
“Hoje, muitos irmãos foram martirizados, tombaram defendendo o projeto do reino de Deus. Quando não se respeita a verdade, o número das vítimas da violência só tende a aumentar", pontuou dom Evaldo.
Na oportunidade, dom Evaldo citou ainda vários mártires dos tempos atuais que morreram na defesa da vida e do meio ambiente, como Chico Mendes, Irmã Doroty Stang, padre Josimo, e padre Ezequiel Ramim.
A luta das minorias
Durante o percurso de 9km, três paradas foram realizadas, com os temas: "A condenação de Jesus e a condenação do povo hoje", "A Solidariedade com Jesus e com o povo hoje" e "A morte de Jesus e os mártires e testemunhas do Reino de hoje". Em cada parada, uma muda de Ipê foi plantada.
Ao longo do caminho, os povos indígenas, os quilombolas, e os ribeirinhos foram ouvidos em suas dores. Nas falas, as comunidades e territórios quilombolas, indígenas e camponeses expuseram situações de violência e ameaças que estão sofrendo devido aos projetos de morte que estão sendo implementados pelo governo do Estado do Maranhão, com destaque para projeto do porto Grão Pará, que está previsto para impactar mais de 80 comunidades quilombolas da região da Baixada, região onde aconteceu a Romaria.
Participaram desse momento: Lindalva Guajajara, da Terra Indígena Pindaré; Valdivino Silva, do Quilombo São Benedito dos Colocados; Antônio Jean (gato preto), do Quilombo Onça de Santa Inês; Caw Akroá Gamella, do Território Indígena Taquaritiua, em Viana; Gilberto Lima, do Conselho Pastoral de Pescadores; Gato Félix, do Assentamento Estrada do Arroz em Imperatriz; Lenora Rodrigues, da Comissão Pastoral da Terra do MA, entre outros líderes.
A cada relato um grito de socorro se ouvia. À luz da fé e do magistério do Papa Francisco, a Igreja precisa ter consciência do que é sagrado e denunciar os desenvolvimentos que concentram riquezas para poucos e que prejudicam o meio ambiente.
Márcia Palhano, da Coordenação Regional da CPT Maranhão, destaca que o momento foi de muita comunhão e da presença dos trabalhadores e trabalhadoras em comunidades acompanhadas pela CPT que estão em situação de conflito: "Foi uma romaria muito linda, com celebração da resistência e da luta das comunidades, mas também um momento de fazer denúncia e reafirmar nosso compromisso com as comunidades que estão em luta, em defesa de seus territórios, identidades e modos de vida. Estava muito presente a fé, a celebração, a partilha e o fortalecimento sobretudo do compromisso e defesa da vida nas comunidades."
Na Praça da Matriz de Santa Inês, os romeiros refletiram a segunda parada
“Os mártires são figuras representativas das dores do povo, dos conflitos que enfrentam o seu cotidiano, partilham o destino de milhares de irmãos e irmãs que diariamente tem seus direitos violados. Pela cruz de Cristo e dos mártires nossos indígenas que são assassinados não caem no esquecimento. Nossos quilombolas perseguidos e mortos não somem da memória, nossas juventudes e agricultores permanecem vivos na memória da resistência”, disse dom Evaldo.
Lei Popular
A Romaria da Terra e das Águas do Maranhão é um chamado da Igreja para o cuidado com a casa comum, um pedido do Papa Francisco. Além disso, a Igreja Católica juntamente com movimentos e organismos da sociedade civil, querem conscientizar a população para que assinem a minuta que sugere um projeto de lei que proíba a pulverização aérea de agrotóxicos no Estado do Maranhão. Uma realidade já alcançada no Estado do Ceará, por exemplo.
Dom valdeci Mendes recebe todos os formulários preenchidos até a Romaria.
Nesta Romaria foram recebidos os formulários já preenchidos pelas 12 dioceses do Maranhão. Estes formulários serão enviados para a Assembleia Legislativa do Maranhão, e pedem o fim da pulverização aérea de agrotóxicos, também chamada de chuva de agrotóxicos, no Estado. A prática traz danos já comprovados à população, tais como: vários tipos de câncer, distúrbios hormonais, infertilidade, depressão, problemas respiratórios ou até a morte.
Procissão Fluvial
Já na Beira do Rio Pindaré, houve o encontro entre os romeiros e os povos da água. Onde os romeiros deixaram um pouco da água de sua região, e levaram um pouco da água do Rio Pindaré para seus territórios.
Pelas águas do Rio Pindaré, uma procissão fluvial foi realizada com a imagem de São Pedro, conduzida por dom Evaldo Carvalho, e padre Denner. Na beira do rio, todos os romeiros receberam a renovação das promessas batismais conduzida pelos demais bispos presentes.
Dom Gilberto Pastana, junto aos romeiros, durante o momento de encerramento da Romaria.
“A Romaria da Terra e das Águas expressa esse trabalho em conjunto, expressa essa comunhão de todas as Igrejas particulares do Maranhão. É um momento bonito, é um momento celebrativo para todos nós”, afirmou dom Gilberto Pastana, arcebispo de São Luís do Maranhão e presidente do Regional Nordeste 5.
Momento da entrega das mudas que homenagearão os mártires da terra.
Para encerrar esta grande Romaria, mudas de mognos e de aroeira foram entregues às pessoas das dioceses onde se deu os martírios. Essa muda deverá receber o nome do mártir e ser plantada no lugar exato do martírio. Ela deverá ser cuidada e protegida. Esse gesto simboliza a vitória, a ressureição, a permanência, a vida que continua. E, na Praça da Matriz de Pindaré Mirim, um ipê branco, o símbolo da ressurreição, foi plantado por dom Evaldo Carvalho, marcando o encerramento da 14ª Romaria da Terra e das Águas do Maranhão.
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