“Ai dos que dizem que o mal é bem e o bem é mal, dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas, dos que mudam o amargo em doce e o doce em amargo! Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos e inteligentes diante de si mesmos!” (Isaías 5, 20-21).
Recentemente, no dia 9 de junho, Dom João Justino de Medeiros Silva, primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e arcebispo de Goiânia, presidiu uma missa no Santuário Nacional de São José de Anchieta, a convite do reitor do Santuário, em comemoração aos dez anos da canonização do jesuíta.
Conforme notícia no site da CNBB: “Um dos momentos mais marcantes da festa de encerramento foi a apresentação do Grupo de Xondaro, da aldeia indígena Guarani Nova Esperança, de Aracruz”. Neste contexto, em uma entrevista, Dom João Justino associou os desafios que acometiam os povos originários assistidos pelo missionário no século XVI aos enfrentamentos feitos por seus descendentes nos dias de hoje. O arcebispo citou a importância da reforma agrária e, em especial, a urgência da demarcação dos territórios indígenas, posicionando-se contra o projeto de lei do Marco Temporal, aprovado pelo Congresso.
Suas palavras, Dom João, refletem o pensamento da Igreja Católica em relação à questão agrária brasileira, evidenciada em vários documentos, a exemplo de “A Igreja e a questão agrária brasileira no início do século XXI”, “Nordeste: a missão da Igreja no Brasil” e “A Igreja e problemas da terra”. Consta deste último: “A situação dos que sofrem por questões de terra em nosso país é extremamente grave. Ouve-se por toda parte o clamor desse povo sofrido, ameaçado de perder sua terra ou impossibilitado de alcançá-la” (CNBB, 1980, p. 1).
Esse pronunciamento alegra e encoraja os povos e suas lutas em defesa da terra e do território. As mesmas palavras, no entanto, incomodaram ao deputado Evair Vieira de Melo, integrante da bancada do agronegócio e vice-líder da oposição, que resolveu protocolar uma moção de repúdio na Comissão de Agricultura da Câmara, alegando que “Dom João Justino, ao expressar visões políticas sobre o marco temporal para a demarcação de terras indígenas durante uma celebração dedicada a São José de Anchieta, não só foi inoportuno, mas transgrediu a sacralidade do evento e desrespeitou a expectativa de devoção dos participantes” (Fonte: O Estado de São Paulo).
Questionamos o deputado Evair sobre o que ele buscava naquela festa religiosa: escutar superficialmente os feitos do santo no passado, ignorando o sofrimento e as lutas contemporâneas? Não é assim que os ministros da Igreja dialogam com as comunidades – desvinculados do contexto em que vivem.
Seu posicionamento, Dom João, contrário ao Marco Temporal, está em sintonia com a mensagem do Papa Francisco, em “Querida Amazônia” (2020), na qual adverte: “Os interesses colonizadores que, legal e ilegalmente, fizeram – e fazem – aumentar o corte de madeira e a indústria minerária e que foram expulsando e encurralando os povos indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes, provocam um clamor que brada ao céu”.
A denúncia do Papa Francisco anuncia a realidade em que a população brasileira vive, estarrecida, nos últimos anos, com desastres naturais em várias regiões do país. Enchentes e deslizamentos de terra em estados litorâneos, secas severas seguidas de enchentes em estados amazônicos, o Pantanal novamente incendiado. Ser contra o Marco Temporal representa, portanto, a contrariedade a todo este contexto devastador que sacrifica vidas humanas e a natureza.
Sua voz, Dom João, reverbera a angústia de cerca de 90% da população brasileira que, segundo pesquisa conduzida pela PwC e pelo Instituto Locomotiva, reconhece os impactos destes eventos como resultados do desequilíbrio climático mundial. Na contramão da crise anunciada, um levantamento do MapBiomas mostrou que as terras indígenas perderam menos de 1% de sua área de vegetação nativa nos últimos 38 anos, enquanto nas áreas privadas a devastação foi de 17%.
Isso se deve ao entendimento dos povos originários como pertencentes à integralidade do meio natural em que vivem. Por isso, cuidam da natureza como sua mãe e entendem seu território como um espaço de vida em comunhão. Os povos indígenas são exemplos ancestrais e presentes do cuidado com a Casa Comum.
Por sua voz e vida colocadas a serviço da luta por uma terra sem males, agradecemos o seu compromisso, Dom João, ao anunciar o Reino de Deus, fiel ao evangelho, levando alegrias e esperanças aos empobrecidos da terra.
Goiânia, 21 de junho de 2024
Comissão Pastoral da Terra
*A carta foi lida e entregue à Dom João Justino durante a Celebração Eucarística de abertura do Ano Jubilar da CPT, em 22 de junho, em Goiânia/GO.
Foto: Júlia Barbosa
CPT rumo aos 50 anos: presença, resistência e profecia
“A terra a Deus pertence” (cf. Levítico 25)
Para dar início à celebração dos seus 50 anos, a Comissão Pastoral da Terra – CPT reuniu 102 de seus/suas agentes, de todos os cantos do país, com parceiros e assessores e assessoras, no Encontro Nacional de Formação, de 19 a 22 de junho de 2024, no Centro de Pastoral Dom Fernando, em Goiânia, onde ela foi criada há exatos 49 anos. O tema e o lema do encontro, acima enunciados, foram os mesmos do seu V Congresso Nacional, a se realizar em São Luís – MA, de 21 a 25 de julho de 2025, quando serão concluídos os 50 anos.
O percurso histórico-geográfico da CPT foi recordado e revivido com a dinâmica dos “rios da vida”, na qual agentes das suas seis Grandes Regiões – Norte, Noroeste, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul –, trouxeram símbolos, imagens, fotos, artesanatos, nomes, falas e cânticos que plasticamente contaram dos vários serviços prestados aos diversos campesinatos brasileiros nestes decênios. Nestes rios correram e correm as águas de inúmeras e incansáveis lutas, das várias organizações e movimentos sociais criados e incentivados, rearticulados em “teias”, de tanta vida generosa doada, dos sangues derramados nos martírios e lágrimas vertidas nas derrotas, das alegrias das conquistas celebradas nas festas, das rezas em todos os momentos, pedindo e agradecendo ao Deus de Jesus, a Nossa Senhora, aos Santos e Santas, aos Encantados e Orixás. As bases bíblico-teológicas, as espiritualidades, as religiosidades e as eclesialidades subjacentes a tanto feito foram o segredo e a marca. O olhar para trás nos encantou, emocionou e fortaleceu, mas é o agora e o amanhã que nos desafiam.
A CPT foi criada em 1975, sob a Ditadura Empresarial-Militar, no enfrentamento ao latifúndio que massacrava posseiros e peões “aprisionados por promessas”, na fronteira agrícola da Amazônia. Logo estava espalhada por todo o país, onde se manifestava a questão agrária brasileira com suas várias e recorrentes violências contra os povos da terra e seus territórios, essencial à manutenção do poder dominador do Capital, a despeito da formal democracia. E este processo não para.
As cercas de sempre hoje estão multifacetadas, com a mesma usura avassaladora, agora fazendo-se também “economia verde”. Quer seja sob a socialdemocracia ou o ultra-neoliberalismo, sob governos de Direita ou ditos de Esquerda, as corporações capitalistas-financistas do agro, que não é pop nem é gente, se tornam hidro-minero-econegócios, ampliam a invasão de territórios, campos, florestas e bacias hidrográficas, incorporam o sequestro de carbono e a exploração dos ventos e da luz solar, numa ilusória transição energética e insuficiente enfrentamento das emergências climáticas. Mais difícil do que ontem está em identificar os inimigos e traçar as estratégias corretas da luta de sempre, pela vida, a justiça e a dignidade na “terra de Deus, terra de irmãos”.
Diante de passado tão frutuoso e do presente tão inquietante, impõe-se para nós reinventar-se e redizer-se com a mesma e renovada presença no meio das comunidades camponesas e povos tradicionais, no serviço educativo e transformador junto a eles, reafirmando a memória subversiva do Evangelho da vida e da esperança, germinal da CPT. Fortalecer, na expectativa da ressurreição, a espiritualidade da cruz, em diálogo com todas as legítimas expressões religiosas.
Reconhecemos a necessidade de retomar e aprimorar nosso modo de atuar, a metodologia do trabalho de base, a prática precípua do respeito e reconhecimento do protagonismo dos povos e comunidades, das mulheres e das juventudes. Colaborar na recriação das estratégias para democratizar o acesso e a permanência na terra, o trabalho digno e a produção agroecológica e agroflorestal. Aperfeiçoar as táticas de formação de agentes e de lideranças e de comunicação que enfrentem o assédio, tão brutal quanto sedicioso, da concorrência desinformativa e deformativa que grassa no mundo atual. Reaproximar-nos das nossas Igrejas e de novo comprometê-las na solidariedade com os povos e comunidades destinatários da nossa missão evangelizadora comum, restituindo nosso ecumenismo cristão enfraquecido.
Nesta caminhada jubilar, a CPT precisa reassumir, revigorada, as causas da vida nos campos, águas e florestas, contra as ameaças e mortes engendradas pelos velhos e novos projetos do Capital. Insistir na denúncia de tudo o que fere e mata os povos e comunidades e a Mãe Terra. Empenhar-se pela recriação e revitalização dos movimentos sociais do campo e por novas articulações entre eles, como as Teias dos Povos. Reforçar as incidências para a construção de políticas públicas de enfrentamento e combate à violência no campo e de erradicação do trabalho escravo. Abraçar para valer a “conversão ecológica” e a “economia da vida”, proposta pelo Papa Francisco.
No sábado, dia 22, aniversário da CPT, externamos publicamente o início da nossa celebração jubilar, com uma caminhada, sob o toque dos tambores-símbolos deste jubileu, da Praça Universitária à Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Auxiliadora, no centro da cidade, onde uma celebração eucarística deu graças a Deus por esta trajetória sofrida, virtuosa e vitoriosa dos 50 anos da CPT.
“Lutar e crer, vencer a dor, louvar ao Criador! Justiça e paz hão de reinar e viva o amor!” (Zé Vicente)
Goiânia, 22 de junho de 2024.
Com informações de Luis Miguel Modino (Comunicação CNBB Norte 1) e REPAM-Brasil
Edição: Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional)
Crédito das imagens: CNBB Norte 1
De 17 a 23 de junho de 2024, a Comissão Episcopal Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano (CEPEETH) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), está realizando uma missão no Estado de Roraima, na fronteira com a Guiana e a Venezuela. Uma comissão que segundo seu presidente, dom Adilson Pedro Busin, bispo da diocese de Tubarão (SC), tem entre seus objetivos “a conscientização, a incidência política e eclesial”. Representantes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) também se fazem presentes na missão.
Tráfico de pessoas, uma realidade escondida
A missão ajuda a “trazer a temática do tráfico humano, que ele é escondido, inclusive as vítimas são escondidas”, ressalta o bispo. Estamos diante de um problema social mundial, que o Papa Francisco tanto insiste. A incidência deve ser dupla, segundo dom Busin, “ad intra da própria Igreja, para nós tomarmos consciência desse problema grave, dessa chaga da humanidade, como diz o Papa Francisco, e da sociedade”.
Diante da realidade de Roraima, com uma ebulição migratória e tantas “fronteiras porosas”, a visita da comissão quer com que “essa temática do tráfico humano seja exibido, visibilizado, seja sentido, que chegue ao coração, à mente das pessoas, no mundo da política e na sociedade, com políticas públicas que venham a enfrentar o tráfico de pessoas”, destaca o presidente da comissão.
Fronteira Brasil-Guiana-Venezuela: vulnerabilidades comuns
A migração é uma situação que marca a vida do Estado de Roraima nos últimos anos, até o ponto que atualmente 30% da população de Roraima é formada por migrantes venezuelanos. Anualmente entram mais ou menos 200 mil venezuelanos por ano pela fronteira de Pacaraima.
Na fronteira entre o Brasil e a Guiana, o fluxo de venezuelanos, cubanos e haitianos é constante. Os migrantes chegam muitas vezes em situação de extrema pobreza, sendo muito grande a demora para conseguir documentação, que é tramitada em Boa Vista, com uma lista de espera de mais de cem migrantes em Bonfim, que pelo fato de não ter documentação são vítimas fáceis das redes de exploração.
O tráfico de pessoas é algo sobre o que se está começando a falar entre os povos indígenas, segundo Davi Kopenawa, que afirma ser algo antigo entre os brancos. Nessa perspectiva, o líder yanomami destaca que “é bom que vocês acordarem para falar conosco”. Ele denuncia a exploração das mulheres yanomami pelos garimpeiros, insistindo em que cada vez são mais as indígenas grávidas de garimpeiros.
Os migrantes em Roraima são vítimas do tráfico humano, que se concretiza de diversos modos, no trabalho escravo, a servidão doméstica, o aluguel de crianças para mendicância, para as pessoas serem atendidas em primeiro lugar nas filas, a exploração sexual de crianças e adolescentes, inclusive o roubo de crianças do colo das mães. Pode ser falado abertamente de falta de respeito aos direitos das pessoas, muitas vezes com a conivência do poder público e da própria sociedade.
Uma realidade que também se dá nos abrigos de acolhida, superlotados, com poucas pessoas para realizar o atendimento e cuidado, que em muitos casos têm se tornado territórios sem lei, tendo acontecido assassinatos dentro desses abrigos. De fato, muitos migrantes não querem entrar nos abrigos, preferem dormir na rua, até o ponto de que Boa Vista é a cidade com maior porcentual de população de rua do Brasil.
Em parceria com outras instituições que acolhem os migrantes, a cada dia a Igreja distribui pelo menos 1.500 cafés da manhã e 1.500 almoços, fora o serviço de documentação e acolhimento, com o projeto Sumauma, sediado na paróquia da Consolata de Boa Vista, a mais próxima à rodoviária da cidade, onde grupos de migrantes mais chegam à procura de ajuda.
“Todos os que chegaram aqui trouxeram a sua cultura, o seu jeito de ser, a sua história, e cada um trouxe um pouquinho mais de enriquecimento a nossa sociedade, a visão do mundo, a culinária. A migração não é um problema, a migração é uma riqueza, que torna a sociedade mais plural, mais acolhedora, uma sociedade de fato aberta a todas as pessoas que possam aqui chegar”, ressaltou o bispo de Roraima e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil), dom Evaristo Spengler.
No enfrentamento ao tráfico de pessoas, uma realidade muito ligada à migração, se faz necessário juntar forças para que as autoridades possam efetivar essa política, algo que não está acontecendo no Estado de Roraima, para descobrir luz para fortalecer nossa caminhada, segundo Socorro Santos, diretora do Programa de Direitos Humanos e Cidadania, da Assembleia Legislativa de Roraima. Ela reflete sobre a realidade do tráfico humano, que é dinâmico, multifacetário, ele muda de acordo com a realidade local e o momento histórico.
O tráfico humano também é campo de pesquisa na Universidade, constatando o grande crescimento do contrabando de migrantes, sua perda de cidadania, que vai além do fato de ter documentos, abordando a questão do migrante como assistido e não como protagonista de direitos. Essas pesquisas levam a enxergar o problema da interiorização, visto muitas vezes como projeto de se livrar dos migrantes, igualmente o feminicídio.
Essa realidade leva a olhar as pessoas como objetos, como “a carne mais barata do mercado”, o que coloca em vulnerabilidade as mulheres, os povos indígenas, os negros, no Brasil. Um fato que deve levar a se questionar onde estamos errando como sociedade, a tomar consciência de combater os crimes que são cometidos diante da vulnerabilidade das pessoas.
Atividades incluem caminhada, ato público no centro da capital e celebração eucarística na Catedral Metropolitana
Agentes da CPT de todo o Brasil já estão reunidos e reunidas em formação e preparação das atividades do dia 22. (Foto: Júlia Barbosa | CPT Nacional)
A Comissão Pastoral da Terra (CPT), pastoral social vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), abre, neste sábado, 22, as comemorações de seu ano jubilar. Com caminhada, ato público e celebração eucarística, a organização dá início às atividades de memória e festejo de 50 anos de atuação em defesa dos direitos das populações do campo, das águas e das florestas em todo o Brasil e de presença profética junto a estes povos.
As atividades terão início às 8h30 da manhã, na Praça Universitária, com um momento de memória da caminhada pastoral e homenagem aos mártires que tombaram em defesa da terra e de seus povos, personagens históricas que infelizmente foram vitimados na luta pelos direitos do mais empobrecidos, a exemplo da Irmã Dorothy Stang, Padre Josimo e tantos/as outros/as religiosos/as e lideranças populares.
Ao som do batuque do Grupo Coró de Pau, o grupo sairá em caminhada até a Catedral Metropolitana de Goiânia, onde Dom João Justino, arcebispo de Goiânia, e Dom Ionilton Lisboa, presidente da CPT e bispo da Prelazia de Marajó (PA), conduzirão a celebração eucarística de lançamento do Ano Jubilar da pastoral.
SERVIÇO
Lançamento do ano jubilar da CPT
Início: Ato público às 8h30 da manhã
Local: Praça Universitária
Seguido de Caminhada até a Catedral Metropolitana
Celebração da Eucaristia: às 10h, na Catedral Metropolitana
Com Dom João Justino (Arcebispo de Goiânia) e Dom Ionilton Lisboa (Presidente da CPT e bispo da Prelazia de Marajó/PA)
Atendimento à imprensa:
Júlia Barbosa - CPT Nacional - Telefone/Whatsapp - (62) 99309-6781
Marilia da Silva - CPT Goiás - Telefone/Whatsapp - (62) 99940-4656
Por Heloisa Sousa
Com informações da CPT RS
Foto: Cáritas Brasileira
Na última segunda-feira, 17, o grupo da missão Sementes de Solidariedade deu início à semana de formação para a preparação das equipes que vão a campo visitar os agricultores e agricultoras atingidos pelas enchentes. O encontro ocorreu no Convento Franciscano São Boaventura, localizado no povoado Dantron Filho, município de Imigrante (RS). Após a formação, o grupo elaborou um roteiro de visitas às famílias afetadas. Na terça-feira, a turma visitou comunidades do município de Arroio do Meio, na quarta-feira a visita ficou agendada para Cruzeiro do Sul e, quinta-feira, Venâncio Aires.
“A CPT RS está junto desde o início da missão, essa ação é uma prioridade para nós desde que começou a situação das enchentes, em setembro no ano passado”, conta Maurício Queiroz, coordenador da CPT Diocese de Santa Cruz do Sul. “Nosso objetivo é visitar cada família, dar um abraço solidário e ser presença profética junto às camponesas e camponeses atingidos pelas enchentes. Trazer também o apoio emocional, da mística e da espiritualidade”, completa.
Foto: CPT RS
Segundo Maurício, após a fase das visitas, onde serão realizadas escutas para o levantamento da realidade de cada comunidade, o grupo organizará apoio técnico e doações de sementes e mudas para as pessoas afetadas. A ação é importante para dar suporte às famílias na reconstrução de suas roças e também na garantia de direitos. “Muitas famílias estão desabrigadas ou precisarão ser realocadas e precisamos garantir que isso aconteça”, explica.
A missão Sementes de Solidariedade reúne diversas entidades e movimentos sociais que, em 2023, se organizaram em socorro às populações camponesas atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Você pode fazer parte dessa corrente de solidariedade, basta fazer uma doação através do PIX: 33654419/0010-07(CNPJ) ou através da conta no Banco do Brasil número 55450-2, agência 1258-3, em nome da Cáritas Brasileira.
Foto: CPT RS
Por Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional),
com informações da organização do FOSPA e CPT Regional Acre
Crédito: Divulgação FOSPA
Após três dias de diálogo internacional sobre os problemas da Amazônia e a construção de propostas de ação, encerrou-se no sábado, 15 de junho, o XI Fórum Social Pan-Amazônico (FOSPA) no Coliseu Nacif Velarde, em Rurrenabaque. Os quase 1.200 participantes reuniram-se para a leitura e aprovação em plenário das conclusões do fórum e da cerimônia de encerramento.
O “Mandato do XI Fórum Social Pan-Amazônico”, como foi denominado o documento, é uma síntese das conclusões aprovadas nas assembleias de cada Eixo Temático. Os Eixos estabelecidos para esta edição do fórum foram: 1) Povos Indígenas e Populações Amazônicas, 2) Mãe Terra, 3) Extrativismos e alternativas, 4) Resistência das Mulheres. Cada Eixo abrigou de dois a cinco grupos de trabalho que respondiam a temas mais específicos, como autonomia e justiça indígena, direitos dos defensores, crise climática, água, transição energética, expansão da fronteira agrícola, territórios e participação das mulheres.
A Amazônia boliviana acolheu com satisfação a chegada de delegações de nove países da região, se reunindo para refletir e analisar a complexa realidade amazônica. A partir do evento, e de todo o processo que o antecedeu, espera-se construir uma proposta orientada para um novo modelo de desenvolvimento que preserve a vida.
Créditos: Divulgação FOSPA
Os municípios de Rurrenabaque (Beni) e San Buenaventura (La Paz) receberam participantes da Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela, entre os dias 12 e 15 de junho. Pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), estavam presentes representantes regionais do Acre, Rondônia, Roraima e Araguaia-Tocantins, participando dos diversos eixos temáticos, com o objetivo de discutir, se capacitar e definir estratégias coletivas.
Em diferentes línguas, vestidos com roupas ancestralmente preservadas, com rostos multicoloridos e com expressões emocionadas para o encontro, os delegados e delegadas do FOSPA apontam que as conclusões desse processo devem se tornar mandatos aos governantes de cada país, para avançar em direção a políticas públicas para proteger a bacia e a floresta com maior biodiversidade do planeta.
O encontro reúne análises, opiniões, esperanças, protestos e propostas de povos indígenas, comunidades ribeirinhas e ancestrais, organizações da sociedade civil, redes e alianças do bloco sul-americano. A programação também contou com atividades como visitas in loco às comunidades indígenas bolivianas da região, além da marcha na ponte sobre o rio Beni, que liga os municípios de Rurrenabaque e San Buenaventura.
Imagens: Marcha na ponte sobre o rio Beni - Crédito: Ludimila Carvalho / CPT Araguaia-Tocantins
Para um modelo alternativo
Para Wilma Mendoza, presidente da Confederação Nacional das Mulheres Indígenas da Bolívia (CENAMIB), o FOSPA deveria permitir que as mulheres demonstrassem ações eficazes. “Mas não sozinhas, e sim com todos vocês. Estamos aqui para defender a vida, estamos plantando sementes de esperança, mas é com luta. A natureza chora e grita, sem natureza não teremos uma vida longa, está nas nossas mãos reagir agora”, disse.
Entendendo que a Amazônia é a prioridade para a vida, representantes do Equador, incluindo Leónidas Iza, exigiram que os governos dos países amazônicos trabalhassem com os povos indígenas e protegessem seus territórios.
O Equador decidiu, por referendo popular, deixar os seus recursos de hidrocarbonetos no subsolo na área do parque Yasuní, um ecossistema biodiverso. Sua abordagem é promover a “yasunização” do território amazônico. A partir dessa visão, propuseram proteger não apenas a bacia amazônica, mas também as geleiras das terras altas e outras regiões do território continental.
Crédito: Ludimila Carvalho / CPT Araguaia-Tocantins
“A água e o vento não têm fronteiras”, afirmaram representantes do Peru, destacando que tudo está interligado. Na linha de ação, foi destacada a necessidade de não deixar os governos tomarem sozinhos as decisões que implicam a preservação de todas as formas de vida.
Entre as ameaças à Amazônia, os participantes da FOSPA destacaram a incursão da mineração, a subjugação de terras e desapropriação de territórios, a penetração do tráfico de drogas, a violência contra os defensores da natureza; mas também destacaram experiências alternativas.
Gonzalo Oliver, presidente da Central dos Povos Indígenas de La Paz (CPILAP), pediu que as deliberações sejam orientadas para ações de defesa da Amazônia. “Sabemos que tem ameaças fortes. As conclusões e recomendações devem constituir um mandato aos governantes relativamente às políticas territoriais para a proteção do nosso povo, para a proteção das áreas protegidas.”
Mapeamento de Conflitos e Violência na Pan-Amazônia
Crédito: Arquivo CPT Acre
Na sexta-feira (14), representantes de cinco países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Peru e Guiana Francesa), dentre agentes da CPT que atuam na Amazônia brasileira, apresentaram a “Iniciativa para mapear conflitos e violência na Pan-Amazônia”, ou “Iniciativa de mapeo de conflictos y violencia en la Panamazonía.”
O material aborda e analisa os conflitos e a violência que afetam a região Pan-Amazônica, destacando principalmente os assassinatos em conflitos socioterritoriais nos cinco países entre os anos de 2020 e 2024 (30 de maio). Os números são alarmantes e mostram um cenário de 309 pessoas assassinadas na região, sendo 29 mulheres.
No total de mortes, o maior número é na Colômbia (178), seguido do Brasil (100), Peru (25), Bolívia (4), Equador (1) e Guiana Francesa (1). Comunidades indígenas, camponesas e tradicionais são as mais afetadas pela violência e pelos projetos de mineração, petróleo, transporte, energia, agronegócio e desmatamentos, dentre outras violações.
“O FOSPA para nós é um local de articulação, integração das lutas, fortalecimento institucional, espaço de incidência política na defesa do bioma e das populações amazônidas. O FOSPA também é um espaço de alimentar nossos sonhos e esperanças”, afirma Darlene Braga, que integra a coordenação da CPT Regional Acre.
Crédito: Acervo CPT Acre
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