'Reconhecer a terra como mãe é adotar um comportamento de respeito, de zelo, de cuidado', destaca o padre Rene Zanandréa
Por Walmaro Paz | Brasil de Fato
A comissão organizadora escolheu como tema: “Escutar a mãe terra e com Maria cuidar da vida!” - Divulgação CPT
Na terça-feira de Carnaval, 13 de fevereiro de 2024, o município de Ipê, Diocese de Vacaria, acolhe a 46ª Romaria da Terra. A comissão organizadora escolheu como tema: “Escutar a mãe terra e com Maria cuidar da vida!”. A informação é do padre Rene Zanandréa, um dos organizadores do evento.
Conforme Zanandréa, “a inspiração para o elemento escuta vem da experiência sinodal a que a Igreja é chamada. 'Uns à escuta dos outros e todos juntos à escuta do Espírito Santo’, cunhou o Papa Francisco. Esse escutar uns aos outros contempla a escuta, também, da terra. O que ela está dizendo? Que recados os eventos climáticos têm trazido? Silenciar, contemplar é sábia atitude. Chamar a terra de mãe nos remete a expressões de tantos povos que se percebem filhos. Reconhecer a terra como mãe é adotar um comportamento de respeito, de zelo, de cuidado".
O bispo de Vacaria, Dom Sílvio Guterres Dutra, informou que a estrutura montada é para receber entre cinco e dez mil pessoas. Lembrou que, apesar de ser convocada pela Comissão Pastoral da Terra da CNBB, a Romaria é um ato de cunho ecumênico e todos os anos recebe cristãos de diversas igrejas e denominações.
Esta será a primeira vez que a imagem de Nossa Senhora é referida em uma Romaria da Terra e Dom Sílvio explicou que depois de muito estudo a comissão organizadora resolveu pela adoção. “A devoção a Nossa Senhora da Oliveira é muito forte na região e foi uma escolha das mulheres de nossas comunidades.”
Uma devoção histórica
Ele contou que esta devoção, segundo os historiadores locais, começou por volta de 1750 quando houve um grande incêndio de campo cujo controle foi perdido pelos agricultores. Somente uma área circular onde em seu centro estava uma pedra que tinha no topo uma imagem de Nossa Senhora da Oliveira não foi queimada. “Outros dizem que este era um local de descanso e devoção dos tropeiros que levavam gado até Sorocaba”, explicou.
Já o padre Rene diz que “o povo cristão gosta de Nossa Senhora e se sente irmanado ao nazareno que nos deu a Sua mãe para ser a nossa mãe”. Na identidade visual (cartaz) da 46ª RT/RS, as duas figuras femininas – a “Pachamama” e a imagem de Maria com traços da padroeira da Diocese de Vacaria, Nossa Senhora da Oliveira – ocupam o lugar central e é visível uma harmonia possível na criação.
A figura de Maria aponta para a presença de todas as mulheres no cuidado com a vida. A toalha de retalhos evidencia a organização das mulheres no Município de Ipê e sugestiona a necessária participação de todos na construção da sociedade e Igreja sinodal, protetores do planeta.
Na Missa, ao final do evento, será homenageado o Bispo Emérito Dom Orlando Dotti, um dos grandes incentivadores dos movimentos sociais rurais e coordenador da Comissão Pastoral da Terra da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Programação
8h – Acolhida aos romeiros
Acolhimento das caravanas: jovens de Ipê entregam a folha de cantos e dão orientações;
Mística inicial: introdução da Cruz, Círio, N. Sra. da Oliveira, muda de Ipê, cartaz da romaria; Ex 15,22-27 + breve reflexão; abraço de acolhida
9h – Caminhada
Pontos de reflexão (cenários): 1) referência à Maria, imagem de NSra da Palestina; 2) colcha e mística de sua construção e imagem Mª da Amazônia: “Tudo está interligado”; 3) pacto de amor pela vida: economia de Francisco e Clara; 4) Cuidado da vida – as mulheres e a acolhida.
10h30min – Missa
12h – Intervalo e partilha dos alimentos
13h – Oficinas (locais)
14h – Plenário das Oficinas
14h30min – Palavra do Instituto Federal de Vacaria
15h – Encaminhamentos (CPT): Carta da Romaria
15h30min – Bênção
Por CPT Regional Rondônia
A Comissão Pastoral da Terra, com coração entristecido, estende sua solidariedade e pesar aos familiares e amigos do companheiro Valdir Balbino Diniz, militante do MST e assentado da Reforma Agrária, do assentamento Madre Cristina, que fez sua páscoa dia 30 de janeiro de 2024 e agora se encontra em outro plano conforme os desígnios de Deus.
A família Diniz ingressou no MST nos anos 90 e caminham deixando legado da luta pela Reforma Agrária, defendendo a vida em comunidade dos povos do campo e das florestas e a produção sem veneno, que supere o modelo de degradação do agronegócio. Valdir é exemplo na defesa da agroecologia, da natureza como nossa mãe Terra, viveu e fez sua páscoa com coragem. Em nome do nosso grande companheiro e irmão da CPT, ecoamos a luta, cuidado e amor verdadeiro de sua companheira Aparecida Diniz, suas filhas Andreia Diniz e Vanessa Diniz, seu neto Yago e as netas Aurora e Maria.
Néctar
Dizem que o dia começa quando o sol aparece,
Mas na teoria do conhecimento.... Que são várias,
Não sabemos ao certo.
Mas para mim, o dia começa aquecendo as azas,
Pois o dia hoje promete,
Claro, todo dia tem um pouco de aventura,
E hoje é sobreviver.
Não sei ao certo quanto tempo eu posso viver,
Mas posso também deixar em aberto, esta pergunta,
Sem ter ao certo qualquer tipo de resposta,
Mas que não venha me dizer o que eu devo ou não fazer.
Eu não sou exatamente o que disse, mas tenho a certeza, que em um outro momento serei a mais bela delas,
Não porque eu goste, mas porque sei o quanto ela é importante para minha sobrevivência,
Ou porque sei que seu balançar de asas, me leva a lugares lindos.
E sentir cheiros cheirosos de flores ao longe,
Ou irá me permitir não ver com rapidez os olhos dos humanos,
“Essa parte eu aprendi esses tempos”,
E dizem que os olhos dos humanos são como fogo...
Em certo ponto, pode até ser.
Mas eu acredito que todo mundo tem bondade, e todos os seres podem errar e ter o direito de compreender o erro... e no meu tempo de vida
Sabe se lá quanto, acredito que eu tenha errado.
E que aos poucos essa minha dificuldade de ver o mundo como uma coisa simples,
Possa ter feito eu pedir perdão aqueles que magoei, e aprendi que somos nós que complicamos nossa existência,
E que o racional do ser, não condiz com suas necessidades.
E sabe que hoje, quando vejo que o futuro me deu uma nova chance,
Eu descobri que além do perfume das flores, além da cor brilhante e da brisa na manhã.
Todos nós carregamos o néctar dentro de nós,
Hoje, eu carrego nas patas e asas,
Hoje eu vejo que o mundo é belo,
E que antes eu carregava o néctar, o doce da vida em meus sonhos.
Há! São tantos sonhos que eu sonhei...
Tanto amor que eu dei, tanto bom gosto de provar o doce de minha amada,
E sei que hoje, choram a minha partida, e que sonham assim como eu, pois eu fui um bom companheiro...
Debulhando sonhos ao vento.
E meu tempo foi curto, para sonhar tantos sonhos,
O meu tempo foi curto para dizer o quanto eu fico feliz, de ver que todos estão bem,
E que apesar do tempo que eu não posso calcular,
Sinto que ele foi suficiente.
E que hoje beijar flores. É bem mais que sonhar os meus sonhos...
É dar vidas a outras vidas...
E ser abelha, não sei por quanto tempo, me faz tão feliz,
E segue o ciclo da vida.
Vanessa Dias Diniz
Dedicado ao meu pai, sempre foi abelha, polinizando sonhos.
Peça gráfica levará a todo o Brasil os rostos de Fernando dos Santos, Edvaldo Pereira e Mãe Bernadete Pacífico
Por Marcos Antonio Corbari | Brasil de Fato
Cartaz foi apresentado em transmissão com representantes da Campanha e dos mártires.
As atividades da Campanha contra a Violência no Campo em 2024 já iniciaram e desde a última semana tem um novo layout visual. Trata-se do cartaz oficial que, pela primeira vez, traz o rosto de mártires da luta pela terra.
A peça, desenvolvida por Júlia Barbosa, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), foi apresentada em uma transmissão online na última sexta-feira (26) e é estampada com os rostos de lideranças que morreram na luta pelo direito à terra.
“Queremos fazer memória a estes mártires, de modo especial hoje, data que marca os 3 anos do assassinato de Fernando dos Santos, em 26 de janeiro de 2021, um trabalhador rural Sem Terra, sobrevivente e testemunha do assassinato de 10 trabalhadores por policiais civis e militares no estado do Pará, no conflito que ficou conhecido como Massacre de Pau D´Arco, em 2017”, anunciou Jardel Lopes, secretário executivo da Campanha, logo na abertura da transmissão.
“No cartaz, também trazemos a memória de Edvaldo Pereira, liderança da Comunidade Quilombola Jacarezinho, no município de São João do Soter, no Maranhão. Após muitas ameaças dos fazendeiros grileiros, Edvaldo foi assassinado em 29 de abril de 2022”, anunciou Letícia Chimini, da coordenação da Campanha pelo Movimento dos Pequenos e Pequenas Agricultoras (MPA) e que também integra a equipe técnica federal do Programa de Proteção aos Defensores/as de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH).
“O cartaz também traz a memória emblemática da líder religiosa ialorixá e quilombola do quilombo Pitanga dos Palmares na Bahia, Mãe Bernadete Pacífico, que já estava inserida no Programa de Proteção aos Defensores e Defensoras de Direitos Humanos. Mãe Bernadete foi brutalmente assassinada no dia 17 de agosto de 2023”, acrescentou Lopes.
Citando as palavras de ordem que firmam o compromisso com a memória e o legado dos mártires assassinados na luta – “Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta” – Chimini explicou que a Campanha Contra a Violência no Campo é uma forma de luta em defesa da terra, do direito à terra e dos modos de vida na terra, de modo especial, a defesa da vida das lutadoras e lutadores do campo, das águas e das florestas.
A Campanha Contra a Violência no Campo é organizada por entidades da sociedade civil, movimentos populares e pastorais sociais, desde 2022, e tem o apoio de mais de 60 organizações sociais parceiras.
Os objetivos da Campanha são: Enfrentar a violência com ações e políticas de proteção às comunidades e aos povos do campo, das águas e das florestas; Dialogar e sensibilizar a opinião pública nacional e internacional; Denunciar e trazer visibilidade para os casos de violência; Fortalecer iniciativas e campanhas existentes relacionadas ao tema; Anunciar a proposta de reforma agrária popular e demarcação de territórios; Articular redes de apoio para atenção e assistência às vítimas.
A presença dos três mártires da luta não esteve representada apenas na imagem do cartaz. A continuidade de suas lutas, que se empreende a partir dos companheiros e companheiras de causa fez lembrar as palavras do saudoso Dom Pedro Casaldáliga, quando afirmou que quando o sangue dos mártires é derramado na terra, ele se torna semente.
Jamyla Carvalho, advogada da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Xinguara (PA), falou sobre o caso de Fernando dos Santos. Antônio Francisco, do Quilombo Jacarezinho, e Maria da Cruz, viúva, fizeram memória ao caso de Edvaldo Pereira. Sandra Andrade, coordenadora executiva da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), falou sobre o caso de Mãe Bernadete Pacífico.
Fernando dos Santos, presente!
Na noite do dia 26 de janeiro de 2021, Fernando foi assassinado nos fundos de sua residência enquanto arrumava seus pertences para se mudar do local onde testemunhou a execução de 10 trabalhadores por policiais civis e militares do Estado do Pará. (Foto: Lunaé Parracho | Repórter Brasil)
Jamyla Carvalho relatou o caso de Fernando, fazendo memória ao mártir que sobreviveu ao massacre de Pau D’Arco, em 2017, e, sendo testemunha chave no processo, sofreu ameaças e perseguições até ser também assassinado há exatos três anos. Conforme relatou, o assassino foi identificado e preso, aguardando na cadeia o Tribunal do Júri, mas as perguntas que indagam quem mandou matar e por quê continuam sem respostas.
“Quem puxa o gatilho é identificado, mas quem manda não é. As investigações são colocadas em sigilo, como conveniência para as autoridades públicas e forma de proteger os reais culpados, além de impedir que as entidades de direitos humanos tenham acesso aos autos e possam realizar possíveis cobranças”, aponta.
Carvalho relatou, ainda, a sensação de impunidade que impera no território, uma vez que mesmo “quando esporadicamente os mandantes e executores são condenados, muitas vezes eles não chegam a ser presos. Só no Pará, existem 39 mandatos de prisão emitidos contra executores e mandantes que não foram cumpridos”. A advogada ainda apontou outro viés que precisa ser observado, pois os poucos envolvidos em crimes contra lutadores do povo, quando condenados e presos, muitas vezes têm fugas do sistema prisional facilitadas.
“A impunidade que se faz presente é uma prova de que infelizmente o crime compensa. A impunidade é pensada para validar esses atos de violência no campo, banaliza os assassinatos de defensores e defensoras e causa medo naqueles que seguem atuando”, aponta.
“Hoje completam-se 3 anos do assassinato de Fernando, sem a presença, sem justiça, sem respostas, mas apesar disso estamos aqui mais uma vez tornando público este e outros casos como uma forma de denúncia e de clamor por justiça”, completou, citando Dom Pedro Casaldáliga ao afirmar que “O sangue dos mártires não nos deixa em paz”.
Edvaldo Pereira, presente!
Edvaldo lutava pela titulação do território, contra a exploração ilegal de madeira no quilombo e contra a expansão da soja no Matopiba. (Foto: Arquivo pessoal)
Para fazer memória ao líder quilombola do Jacarezinho, assassinado por grileiros no Maranhão, em 2022, participaram da transmissão o companheiro de luta Antônio Francisco de Moura e a viúva de Edvaldo, Maria da Cruz.
“Nosso companheiro foi assassinado de uma forma brutal”, afirma Moura. O problema que conduziu a morte de Edvaldo é uma situação que se reproduz em muitos locais pelo Brasil afora: a grilagem de terras, a pressão daqueles que se dizem proprietários de um território que é historicamente ocupado por povos tradicionais, mas que fazendeiros tentam se apossar na base da força e da violência.
“Nossa gente está aqui há mais de 200 anos, nós somos descendentes dos primeiros que chegaram aqui”, conta o quilombola. “Desde que se iniciou a busca pelos direitos do território, iniciou a perseguição a Edvaldo. Quando começaram as ameaças, ele buscou a proteção da Justiça, mas a verdade é que a Justiça faz o papel do fazendeiro e não dá proteção ao trabalhador”, afirmou.
“Mataram ele para causar medo, para que a gente desistisse, acharam que matando Edvaldo era o caminho para se apropriarem de tudo, mas a gente continua de pé, a gente continua lutando, moramos lá, defendemos a natureza, protegemos o meio ambiente, precisamos dessa terra para viver”, completou.
Muito emocionada, Maria da Cruz explicou que, antes de morrer, Edvaldo fez o pedido de regularização do território. Inicialmente, o pedido foi negado. Depois, saiu uma decisão da Justiça a favor dos quilombolas, porém, quase um ano depois, nada foi feito. “A gente sempre corre atrás de justiça, mas não temos nenhuma resposta. A gente quer que quem fez isso com ele e quem mandou fazer sejam punidos, queremos nossa terra livre, para viver sossegados.”
A memória que Maria tem do marido é a certeza da luta: “Ele sempre dizia que se tivesse que morrer lutando pela terra, ele ia morrer, não ia desistir”. Ela cita que as ameaças continuam, que a situação é difícil, que não querem que isso volte a acontecer com qualquer companheiro ou companheira, mas que desistir não é algo que esteja em discussão.
“Tiraram ele da gente achando que com os outros eles resolveriam da maneira como queriam. Mas não foi assim. A gente continua, a luta dele não vai ficar em vão”, garante Maria.
Mãe Bernardete, presente!
Mãe Bernadete passou a fazer parte do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH) após o assassinato do filho, conhecido como Binho do Quilombo, em 2017, também alvejado por vários tiros, dentro do território. (Foto: Wallison Braga | CONAQ)
Pela voz de Sandra Andrade, coordenadora da Conaq, se fez memória ao caso de Mãe Bernadete Pacífico, assassinada brutalmente no estado da Bahia, aos 75 anos de idade, em 2023, mesmo estando inserida no Programa de Proteção aos Defensores e Defensoras de Direitos Humanos.
Esse foi o segundo caso de violência dentro da mesma família, uma vez que um filho seu já havia sido assassinado. “Mãe Bernardete foi assassinada pela luta pelo seu território e pela luta por justiça por seu filho”, denuncia Sandra. Até agora não se tem resultado de investigações que levem à justiça quem matou e quem mandou matar.
“Se fosse para um figurão, já teriam encontrado o assassino e o mandante no outro dia, mas para nós quilombolas, trabalhadores e camponeses não, nós não somos considerados pessoas de direito, é só matar, enterrar e jogar pra lá”, desabafou. Sandra acusou que “as falhas do sistema de proteção não protege” e a parcialidade da Justiça, que é seletiva quanto aos crimes que serão de fato investigados e solucionados.
Para a dirigente, o caso de Mãe Bernardete é simbólico, mas é preciso avançar: “Para cessar a matança no campo, nas águas e nas florestas é preciso ter vontade política. As leis existem, mas a vontade política não”. Questiona ainda, além da inoperância do Estado, a voracidade do capital: “Isso acontece pelo egoísmo desenfreado daqueles que muito tem e ainda querem muito mais, querem tirar o pouco que nós pequenos temos”. A fórmula para a luta alcançar resultados é uma só: união. “Nós, dos diferentes movimentos, temos que nos dar as mãos e exigir justiça, fazer que cesse a violência no campo”.
Sandra registrou que, em média, ao menos uma liderança popular morre todos os meses. “Eles não têm receio de matar, não se importam porque não tem punição, então cabe a nós intensificar a denúncia e a luta para que isso mude, para que possamos viver em paz”, aponta.
“Se fizer a reforma agrária, titular as comunidades quilombolas e demarcar as terras indígenas, a paz no campo virá”, concluiu.
Basta de violência no campo!
Após os testemunhos e a memória aos três mártires, Carlos Lima, coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra, encerrou em nome da Campanha Contra a Violência no Campo, exigindo mudanças na postura do Estado, que até aqui tem servido aos interesses dos agressores e não defendido as vítimas, garantindo a impunidade e contribuído para as ações de desqualificação das vítimas.
“O mesmo sistema que desmata, que joga o veneno, que polui, é o sistema que a impunidade faz parte. Nós entendemos a impunidade como o mal que deve ser combatido, o sistema entende a impunidade como mecanismo de proteção aos seus”, refletiu.
Para Lima, esse posicionamento do Estado coloca em xeque o modelo de sociedade que está posto, “onde a violência faz parte desde a chegada das caravelas”. Na sua interpretação, a violência é pensada a partir do sistema, no sentido de tirar da frente quem possa atrapalhar seus projetos. “Pessoas, comunidades, florestas não têm o menor sentido de existência se o desejo do capital não é considerado.”
Ele trouxe a informação de que os dados que ainda estão sendo sistematizados indicam que o número de mortes no campo desde que a CPT começou seus registros já ultrapassa mil pessoas. “Por isso nós lançamos a Campanha Contra a Violência no Campo, precisamos novamente fazer um mutirão para dizer para a sociedade que nós não concordamos com esse procedimento de matar aqueles que lutam, aqueles que estão no território. Precisamos buscar o diálogo para que a sociedade compreenda que matar não pode ser uma ação naturalizada. Criamos a campanha no sentido de fortalecer, de criar um mutirão para defender as comunidades, os defensores de direitos humanos, as lideranças e os coletivos”.
Lembrou o caso recente do assassinato de Nega Pataxó, na Bahia, onde os pistoleiros, a mando dos fazendeiros, tiveram o suporte da própria polícia para praticar o crime de assassinato.
“O Estado precisa agir ou o campo brasileiro vai se tornar um campo de guerra mais do que já está. Isso é um risco gravíssimo que a democracia e a sociedade correm. O Estado democrático de direito precisa se levantar, ele não pode continuar sendo agredido”.
Lima explica, ainda, que o Estado tem a obrigação de ficar vigilante e atento para garantir a vida das pessoas, a vida das comunidades e a vida da natureza. Do contrário, nada vai ser modificado naquilo que é a estrutura agrária brasileira.
Objetivos da Campanha
“Nós temos a obrigação de continuar fazendo as denúncias, esperamos que esse cartaz possa percorrer o Brasil todo e possa alertar a sociedade sobre os crimes recentes – em 2022 foram 47 assassinatos, em 2023 foram 31 assassinatos – e que isso não pode continuar, que isso fragiliza a democracia, fragiliza o tipo de sociedade que a gente quer constituir, que é fraterna e justa, que garanta acesso a terra e democratize o uso da terra”, afirmou Lima.
Sobre os três mártires que ilustram o cartaz e sua representatividade simbólica, Lima afirma que “o Estado brasileiro não reagiu quando as organizações denunciaram que essas pessoas estavam sendo ameaçadas, o Estado brasileiro permitiu que essas pessoas fossem assassinadas”. Segundo ele, “os crimes estavam anunciados e o Estado esteve sempre um passo atrás e o Estado precisa estar um passo a frente para impedir esse tipo de violência”.
As organizações que compõem a Campanha contra a Violência no Campo escolheram a data em que se completam três anos do martírio do Fernando como uma denúncia pública da situação de violência, buscando que esses cartazes cheguem até a sociedade, nas comunidades, nas organizações, nas igrejas, nos espaços de formação e mobilização.
Embora ainda não tenha sido realizada a assembleia das organizações que estão mobilizadas na Campanha, a ideia é de que, em 2024, as ações estejam mais presentes nos territórios.
“Apresentamos à Comissão Nacional de Enfrentamento à Violência no Campo as áreas prioritárias que essa comissão tem que visitar e proteger, no sentido de que as mortes sejam evitadas, e devemos acompanhar também essas missões” afirma Lima. “A ideia é o enraizamento da campanha, trabalhar isso o mais próximo possível das comunidades.”
Mais informações acerca da Campanha contra a Violência no Campo e solicitações do cartaz e de outros materiais de informação e mobilização podem ser feitas através do email contraviolencianocampo@gmail.com
Confira a transmissão: Em Memória aos Mártires da Terra - Lançamento do cartaz da Campanha Contra a Violência no Campo
*Edição: Katia Marko
Antônio Canuto, membro histórico da Comissão Pastoral da Terra, relembra as investidas dos latifundiários nos anos 70, apoiados pela ditadura militar, contra camponeses na região do Araguaia, no Mato Grosso; ele trabalhou ao lado de Dom Pedro Casaldáliga, figura central da resistência
Por Carolina Bataier | De Olho nos Ruralistas
Antônio Canuto tem dois livros sobre a história dos conflitos agrários no Araguaia (Foto: (Amanda Costa)
Com 82 anos, o padre Antônio Canuto dedicou boa parte de sua vida à luta pelos direitos dos povos do campo, denunciando as violações e violências a que são sujeitados. É autor de dois livros dedicados ao que viu e viveu na região do Araguaia, no Mato Grosso, desde os anos de chumbo da ditadura iniciada em 1964, que impulsionou o latifúndio na Amazônia Legal. Nascido em Caxias do Sul (RS), em 1941, Canuto mudou-se para Mato Grosso aos 30 anos, para se unir aos sacerdotes da Prelazia de São Félix do Araguaia. Aposentado desde 2016, ele dedica os dias livres ao registro das experiências vividas naquele período, quando trabalhou ao lado do bispo Pedro Casaldáliga (1928-2020) na defesa de indígenas e posseiros. Naqueles tempos, os latifúndios iniciavam um processo violento de expansão, ignorando as pessoas que já habitavam aquelas terras. “Havia conflito pra todo lado”, conta. As histórias estão registradas nas obras “Resistência e Luta conquistam território no Araguaia Mato-Grossense” (Editora Outras Expressões, 2019) e “Ventos de profecia na Amazônia – 50 anos da Prelazia de São Félix do Araguaia” (Editora PUC Goiás, 2021). Nesta entrevista à repórter Carolina Bataier, em junho, Canuto contou, em detalhes, sua trajetória.
De Olho nos Ruralistas — Onde o senhor estava antes de ir para o Araguaia?
Antônio Canuto – Em Campinas (SP). Eu acompanhava um grupo de seminaristas de filosofia, eu era já padre. No fim de 1968, esse grupo foi expulso do seminário e eu fui junto. A gente criou uma casa onde morava essa turma, era uma república de uns 20; é aí o nosso começo de relação com o Araguaia. O Pedro (Bispo Pedro Casaldáliga) chegou lá em 1968. Em 1969, em São Félix do Araguaia, os padres resolveram fazer um prédio para a escola. Eles foram bater lá em casa, para ver se algum daqueles jovens não queria ir para São Félix para dar aula. Três rapazes que lá estavam se ofereceram, mais uma menina que trabalhava na paróquia onde eu atuava naqueles anos. Em 1970, eles foram e eu fui visitar. Depois, em 1971, foi mais um grupo. Fui visitar de novo. Na véspera de quando Pedro aceitou ser bispo, dia 8 de agosto de 1971, fizeram uma reunião com todo o grupo. Pedro até tinha feito uma carta renunciando à nomeação de bispo. E aí o pessoal falou: “Tem que aceitar!”. Eu fiquei lá pra ajudar no trabalho que ele ia fazer na ordenação de bispo, para preparar a carta pastoral Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social. A carta tem um texto escrito e tem uma parte maior com os documentos que comprovam as denúncias feitas. Esses documentos eu que fui juntar e organizar.
E como foi o trabalho de reunir esses documentos?
Eu fui até Barra do Garças (MT), no cartório, pegar aquela lista de fazendas que estavam sendo apoiadas pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Fui até Santa Terezinha, onde o padre [François Jacques] Jentel (1922-1979) guardou muitos documentos, muitas cartas que ele escrevia sobre os problemas de lá. Já em São Félix tinha o início de um arquivo onde havia alguns documentos; eu andei por lá tentando juntar, juntei aquilo que dava. E aí saiu aquela carta que provocou muita reação no Brasil e no mundo.
Esses arquivos eram principalmente documentos que mostravam a relação dos fazendeiros com a Sudam ou tinha também denúncias de violência, coisas assim?
As denúncias de violência tinham muitas, mas eram denúncias feitas para a equipe da pastoral da Prelazia de São Félix. Então, por exemplo, tem muitas denúncias de trabalho praticamente escravo. A gente tem lá no arquivo da prelazia essas informações e os conflitos. Em Santa Terezinha, por exemplo, o conflito tinha começado em 1967. O padre Jentel sempre fazia cartas pedindo para que o governo interviesse para resolver e isso nunca acontecia.
O que acontecia naquela região?
Nos anos 50, o governo do estado do Mato Grosso pegou aquela região toda, o norte, dividiu em quadradinhos que correspondiam a mais ou menos 10 mil hectares, que era o tamanho máximo que um estado poderia vender. Cada pessoa que quisesse comprar se inscrevia, solicitava e pagava uma taxa e se tornava dono de 10 mil hectares por lá. Acontece que poucas pessoas sabiam disso, então, houve várias empresas imobiliárias que tomaram conta da coisa e pegavam procurações, verdadeiras ou falsas, e em cima dessas procurações eles solicitavam e ganhavam esse pedaço.
Qual era o objetivo desses incentivos?
Era desenvolver a Amazônia, aquela imensidão vazia (risos). O governo militar criou um projeto para ocupar a Amazônia e ofereceu incentivos fiscais para quem quisesse investir na região. Então o que aconteceu? As empresas correram atrás e foram adquirindo terras e formando essas grandes fazendas. Todas essas empresas entraram na Amazônia com o discurso de desenvolver, mas o que eles queriam era pegar os recursos que o governo dispunha. O que essas fazendas fizeram foi imensas derrubadas para plantar capim para criar gado. Esse dinheiro da Amazônia, a maior parte foi para o desenvolvimento de São Paulo, do Sul, de onde essas empresas vieram.
Quem eram os latifundiários?
O Ariosto da Riva (1915-1992), me parece que junto com o Abelardo Vilela, fez um requerimento junto ao Estado. Conseguiram em torno de 1,2 milhão de hectares. O Ariosto é um desses grandes, que conseguiram essas terras como praticamente dadas. Quando nós chegamos, o Ariosto tinha vendido uns 800 mil hectares para o grupo Ometto, de São Paulo, donos do café Caboclo e do açúcar União, onde instalaram a Fazenda Suiá-Missu. Lá em Santa Terezinha, na região norte, já quase na divisa com o Pará, o Banco de Crédito Nacional, o BCN, adquiriu 370 mil hectares. Nessa fazendinha que eles compraram eles criaram depois a Codeara, a Companhia do Desenvolvimento do Araguaia. Adivinha o perímetro dessa fazendinha? É 540 quilômetros! Uma porcariazinha (risos). Estavam em todo o Vale do Araguaia, no Mato Grosso e no Pará também. No Pará teve a Volkswagen, onde depois houve denúncia de trabalho escravo. O Bradesco tinha uma grande fazenda no Pará. O Silvio Santos tinha a Fazenda Tamakavy, o Banco de Minas Gerais tinha terra…Esses dois últimos são na região da prelazia.
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Propaganda patrocinada pela Sudam durante a ditadura. (Foto: Fórum Popular da Natureza)/ General Humberto de Souza Mello. (Foto: Reprodução)
Quais eram os conflitos naquela região?
Essa fazendas chegavam e encontravam comunidades sertanejas, encontravam povos indígenas. E o Estado queria dividir tudo como se fosse mata virgem. Lá em Santa Terezinha, onde o conflito foi mais intenso nos anos de 1967 a 1973, tinha umas cem famílias de posseiros. O povoado começou a existir a partir de 1910, por aí. Em 1932 tinha sido inaugurada uma igreja em cima de um morro de areia e uma grande casa onde seria um convento. A Codeara, quando chegou, se declarou dona de tudo aquilo e criou um projeto de urbanização desconhecendo o que existia. Tem documentos em que eles declaram que a prelazia, a igreja e a casa estavam construídos dentro do território deles. O que houve no passado não interessava.
O senhor foi para Santa Terezinha para ficar alguns meses e acabou ficando anos?
Não. Eu fui para ficar quatro dias enquanto o padre Jentel saía, porque em 1972 teve um tiroteio dos posseiros com a fazenda e a polícia. Nesse braseiro todo, muitas vezes a fazenda dizia que as famílias estavam dentro das terras delas e estavam atrapalhando o trabalho, e o Estado sempre mandava policiais para defender a fazenda. Na área urbana em Santa Terezinha, o padre Jentel tinha uns lotes no povoado perto das casas, porque a escola paroquial e o atendimento à saúde eram feitos no morro de areia e era mais difícil de lá chegar. Nestes lotes ele estava construindo um predinho para a escola e um predinho para um posto de saúde. No fim de fevereiro, a Codeara chegou com um trator de esteira, derrubou os alicerces daquele prédio onde seria o ambulatório de saúde e tapou o poço que tinha sido aberto para puxar água. O padre não estava naquele dia. Quando ele voltou, os posseiros disseram: “Tem que levantar aquilo, porque se a Codeara conseguir derrubar você, o que não vai fazer conosco? Pode levantar que a gente vai defender”. Então, recomeçou a construção. No dia 3 de março de 1972 chegou um avião com um capitão e cinco soldados. Foram lá para embargar a obra, mas eles não foram sozinhos. Desceram na pista da Codeara, lá fizeram uma lista das pessoas que deveriam ser presas e foram acompanhados de um grupo de funcionários da Codeara, possivelmente jagunços, e um gerente. Deram ordem de prisão para os pedreiros que já estavam saindo. Era fim da tarde, entraram com arma na mão. Os posseiros passaram fogo e o negócio esquentou. Nenhum posseiro ficou ferido. Ficaram feridos oito da Codeara. Naquela noite, o padre Jentel saiu para contar a versão do lado dos posseiros e o bispo Pedro me pediu: “Vai lá para Santa Terezinha, fica lá uns quatro, cinco dias, até o Jentel voltar”. Eu fui ficando, enquanto ele estava em Goiânia e Brasília. Acabei ficando treze anos.
E como foram esses primeiros dias?
Eu cheguei no dia 4. No dia 5 chegou um avião búfalo da FAB (Força Aérea Brasileira) com o secretário de segurança, capitães e quarenta soldados. Eles foram lá para ver o que tinha acontecido, mas já sabiam quem eram os responsáveis: era o padre e os agentes de pastoral que moravam com o padre. Eu tinha chegado no dia anterior, não sabia de nada, eles me convidaram para acompanhá-los, para ver as trincheiras que os posseiros tinham feito, que isso precisava ser de alguém com um conhecimento militar muito avançado. Sabe o que eram as trincheiras? Cova de banana. Cova para plantar bananeira. E depois mandaram que eu contratasse um rapaz para fechar tudo ainda (risos). No dia 6 chegou outro avião com mais 40 soldados e foram buscar os responsáveis pelo conflito. Os posseiros tinham uma roça grande, de uns cinco alqueires, que corresponde mais ou menos a 25 hectares, era uma roça coletiva, onde estavam colhendo arroz. O padre Jentel estava abrindo uma estrada para essa área e o trator quebrou. Ficou um trecho de uns 500 metros sem abrir. Os posseiros se esconderam na mata e os soldados não se atreveram a entrar.
Os posseiros eram quantos?
Uns vinte, possivelmente, que enfrentavam. Os posseiros todos eram uns 100, 120, mas os que enfrentavam eram uns 20, 25. Prenderam umas quatro, cinco pessoas, para justificar uma movimentação de tropa tão grande. Pegaram pessoas que não tinham praticamente nada a ver com nada, levaram pra Cuiabá, ficaram presos um tempo, depois devolveram. Um deles morreu em decorrência da situação da cadeia, viagem etc.
As investidas policiais continuaram?
Em junho teve a Aciso, uma operação cívico social. O exército baixou lá em Santa Terezinha com um contingente grande. Eles levavam médico, dentista, então faziam atendimentos ao povo para dizer que eram bonzinhos, mas a tropa ia fazer um levantamento da área porque eles tinham a suspeita de que aquilo tivesse ligação, por exemplo, com a guerrilha do Araguaia. Contavam que a gente estava estabelecendo lá um novo foco de guerrilha. Eles ficaram lá um tempo e foram embora. Em outubro, outra operação cívico social. Quem estava comandando essa operação era um general lá de Corumbá, não vou me lembrar exatamente o nome dele. Um dia me chamaram pra receber os generais que iriam chegar. E sabe quem foi lá em Santa Terezinha, um povoadozinho de 2 mil habitantes? O general Humberto de Souza e Melo (1908-1974), que era o comandante do segundo exército, o general Reinaldo de Almeida (1914-2006), que era comandante da nona região militar, com sede em Campo Grande, esse general que já estava lá (não lembro o nome) e era de Corumbá, e tinha mais um general. Em um povoadozinho perdido na Amazônia, quatro generais? Me convidaram para receber esses generais e lá também estava um dos donos da Codeara. Quando os generais iam descendo, ele ia saudando um por um dizendo: prazer em revê-lo. Naquele momento, a prefeitura e a Câmara de Luciara, que era sede do município ao qual Santa Terezinha pertencia, tinham aprovado a desapropriação de 2,6 mil hectares para a área urbana de Santa Terezinha, para ficar independente da Codeara. A Codeara tanto fez, tanto bateu, que esses generais forçaram o prefeito a anular esse decreto e no fim exigiram que a Codeara doasse 250 hectares para a área urbana. Não era nem 10% do que tinha sido desapropriado. Era pra mostrar que aquilo lá era um dos projetos do governo e que ninguém poderia levantar a cabeça contra. Era impressionante.
Jornal de Goiás noticia perseguição de empresa a camponeses. (Foto: Casaldàliga Fundació)
Esse levante dos posseiros, apoiado pelo padre, foi o momento que iniciou a perseguição por parte da ditadura contra os padres ali?
Tinha conflito em todo lado. E aí, em 1973, em cima de um pequeno conflitozinho no ginásio estadual do Araguaia, em São Félix… o diretor da escola correu atrás de um menino com uma vara, porque o menino estava jogando pedra nos vidros da escola e o pai, um comerciante, disse que ia matar o diretor. E aí, diz que o sujeito não era gente de duvidar. Então os pais, professores e alunos decidiram suspender as aulas, fazer uma greve, enquanto não tivesse segurança. Por causa disso, chegou um batalhão da polícia e com gente do Exército também, prenderam alguns agentes da pastoral que estavam lá no povoado de Serra Nova. Obrigaram o pessoal a reiniciar as aulas com soldados com metralhadora na porta. Isso em junho de 1973. Em julho, teve outra operação dessas e prenderam mais gente. Nesse conflito aí, o comandante da operação apareceu numa reunião lá da escola abraçado com o comerciante que havia prometido matar o diretor. Então, o que se suspeita é que esse comerciante fez parte de uma estratégia para fazer a repressão bater na região e dizer: olha, nós estamos aqui. Eles não tinham algum motivo mais sério para ir, mas, a partir desse momento, eles se deslocaram e prenderam três agentes da prelazia, que foram levados ninguém sabia pra onde, ficaram mais de um mês completamente sem nenhum contato. Em julho voltou a repressão, prenderam mais três agentes, um líder do povoado de Serra Nova e uma senhora que foi aluna do ginásio estadual do Araguaia, que tinha uma atuação mais intensa.
De que forma a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e, antes da fundação da CPT, os padres e os bispos auxiliavam os posseiros?
Por exemplo, isso tudo aconteceu antes de existir a CPT. O que os padres faziam era dizer pros posseiros: vocês têm que resistir, vocês têm direito. A partir de 1973, o atendimento que a igreja dava consistia em um grupo formando por um padre, um professor, alguém da saúde — umas quatro pessoas —, que ficavam uns quatro meses e nesse período o que acontecia? Faziam alfabetização de adultos, atendimento à saúde e reunião com os posseiros no sentido de dizer: vocês têm que estar unidos para defender, vocês isolados não têm força nenhuma. Era essa a atuação da equipe de pastoral lá da Prelazia de São Félix.
E por isso a prelazia foi bastante perseguida pela ditadura?
Isso, por causa da carta pastoral, que denunciava o que estava acontecendo, por causa desses conflitos que estavam acontecendo em Santa Terezinha, quando os posseiros enfrentaram com tiro o poder da Codeara e da polícia e a repressão bateu feia. Esses, que foram presos em 1973, foram torturados com choques elétricos, tentando tirar informações sobre a que organização eles pertenciam, porque eles não entendiam que podia ter jovens que por ideal de solidariedade estivessem naquela região. Como jovens universitários lá de Campinas vão se meter neste fim de mundo aqui? A que organização eles pertencem? Queriam descobrir ou criar ligações com algum movimento de guerrilha. Era isso que eles queriam tirar na marra com choques elétricos e tal, só que não havia nada.
A sede da fazenda Agropasa foi usada para tortura?
Em 1973, quando teve esse movimento da segunda fase da repressão, lá foi estabelecida a sede da operação. A Agropasa cedeu toda a estrutura, certamente cedeu os carros, coisas deles… Foi pra lá que foram levados aqueles que eram presos. Em uma noite de julho, todos os padres da Prelazia de São Félix fomos presos lá pela meia-noite, levados para a sede dessa fazenda. Eu tava lá na casa do Pedro quando um pessoal invadiu a casa, me puxaram, me botaram no carro, tinha um outro padre lá da Serra Nova, tiraram ele da rede onde ele estava dormindo, botaram ele do meu lado no carro, algemados atrelados um no outro; deram um cutucão no estômago, ele cuspiu sangue. Eu só levei uns tapas na cara (risos).
O senhor tinha quantos anos?
Eu tinha 32… Aí os padres foram devolvidos umas cinco da manhã lá pra cidade para evitar que o povo se agitasse, né. Já pensou se alguém resolvesse ver: cadê os padres? Os leigos que estavam presos lá ficaram, na noite seguinte foram levados para Santa Isabel do Morro (TO), na Ilha do Bananal, onde tinha pista de avião asfaltada e tudo. E lá eles passaram a noite amarrados no avião, um com o outro, para no dia seguinte levantar voo para Cuiabá e depois Campo Grande.
A relação entre os agentes da ditadura e os latifundiários era explícita?
Praticamente era. Por exemplo, aquele fato que contei de Santa Terezinha, em 1972, do gerente da fazenda dizer “prazer em revê-los”… Existia já uma relação muito clara. E o fato de naquela operação terem forçado o prefeito a anular o decreto de desapropriação de Santa Terezinha, que era de 2,6 mil hectares, para ficar com 250, isso significa que era uma relação muito clara, né? Todas as forças militares que apareceram lá era para garantir a presença do governo e a ação das fazendas, porque as fazendas estavam lá para cumprir uma determinação do governo, que era ocupar a Amazônia.
Qual foi o resultado das estratégias de resistência junto com os posseiros?
Em Santa Terezinha, a Codeara foi obrigada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a dar 100 hectares para cada família, lotes demarcados e titulados. Onde os posseiros resistiram, praticamente todos ganharam. Houve desapropriação das áreas para criar assentamentos. Aquela região é praticamente a região com mais assentamentos do estado do Mato Grosso. Onde houve resistência, o pessoal conseguiu. Muitos desses assentamentos aconteceram na década de 1980, no governo Sarney, com a redemocratização.
O que mudou ao longo dos anos na atuação da CPT?
A CPT também tem trabalhado lá na região na tentativa de o pessoal melhorar a produção. É uma tentativa pequena, frágil, mais no sentido de criar essas áreas agroflorestais onde você planta e preserva o meio ambiente. E a CPT no resto do Brasil apoia todas as lutas pela conquista da terra, mas também trabalha para que o pessoal produza de modo mais sustentável. Agora, lá na região, o avanço do agronegócio é violentíssimo e a maior parte daqueles assentamentos, o pessoal assentado acabou sendo obrigado a vender os espaços que tinham ou arrendar para plantio de soja. Então, é uma tristeza. Esse é um impacto posterior. Havia imensas áreas florestadas, hoje você anda lá não vê um pé de árvore, tudo é soja. E aquelas famílias que querem resistir acabam tendo que sair por causa do veneno que é borrifado e prejudica a saúde. Não conseguem sobreviver por causa do veneno e a produção que eles têm, que é pequena, acaba sendo prejudicada por causa do veneno, mata tudo. A saúde da pessoa também fica prejudicada por causa do veneno.
A agricultura familiar naquela região ficou inviável?
Tem tentativas de continuar fazendo. Estabeleceram lá agora um instituto federal, o Instituto Federal do Mato Grosso (IFMT) que tem tentado trabalhar com indígenas, com pequenos posseiros, para ter uma agricultura sustentável. Mas é ainda frágil, pequeno. E cria-se todo um cenário em volta em que a sociedade toda apoia o agronegócio, né? O agronegócio traz progresso, traz desenvolvimento…Hoje a hegemonia do agro é um negócio.
| Carolina Bataier é jornalista e escritora. |
Por Manuel do Carmo da Silva Campos (CPT Amazonas),
com edição de Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional)
Imagens: Equipe local
Moradores de comunidades ribeirinhas do Rio Amazonas e afluentes, nos municípios de Parintins e Barreirinha (AM), na divisa com Juriti e Aveiros (PA), pedem providências urgentes de contenção e punições aos ataques permanentes à Floresta Amazônica, diante do desmatamento e transporte ilegal de madeira através de balsas, com destaque para este início de 2024.
As terras das comunidades do Igarapé Açu, Semeão, Ponta Alta e comunidades vizinhas, são banhadas pelos rios Mamuru e Uaicurapá. Durante a seca do ano passado, diversas balsas permaneceram encalhadas nesses rios. A retirada era feita com balsas pequenas, com seus rebocadores.
Agora, com a subida das águas, o fluxo é diário de saída de diversas balsas grandes abarrotadas de madeiras, para o Paraná do Ramos e Rio Amazonas abaixo. Além disto, informações desta semana dão conta de que estão entrando balsas carregadas com maquinários novos, para o serviço de derrubada da floresta. A queixa da população ribeirinha é de que, mesmo com as constantes denúncias, até agora nenhum órgão público de fiscalização esteve presente na região devastada.
Diante desta situação, as comunidades buscaram o apoio de entidades como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) Regional Amazonas, Arquidiocese de Manaus e equipes do Baixo Amazonas e da Prelazia de Itacoatiara, que junto com outras organizações como sindicatos, coletivos e movimentos, enviaram na última sexta-feira (26) um ofício direcionado à superintendência do Ibama Amazonas, ICMBio, Ministério Público Federal e Estadual, Defensoria Pública da União e do Estado, reivindicando a urgente fiscalização, apreensão e punição aos devastadores da nossa floresta.
Assinam a petição:
. Comissão Pastoral da Terra Regional Amazonas e equipes: Baixo Amazonas, Arquidiocese de Manaus e Prelazia de Itacoatiara
. Coletivo em Defesa do Rio Mamuru Confluência Amazonas Pará e Adjacências
. Coletivo Solidariedade ao Rio Abacaxi
. Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Parintins
. Comissão de Defesa dos Direitos Humanos de Parintins e Amazonas
. Parlamento Sustentável do Planeta Azul
. Grupo Natureza Viva de Parintins – GRANAV
. Teia Cidadã de Parintins
. Presidentes de Comunidades dos Rios Uaicurapá e Mamuru
. Associação do Pá Gleba Vila Amazônia
. Movimento de Trabalhadores Cristãos do Amazonas
. Movimento dos Padres em Novas Dimensões
Texto elaborado coletivamente pelas equipes da
CPT Regional Maranhão, CONAQ, MOQUIBOM e Cáritas
Imagens: Equipe CPT Maranhão
A organização de parceiros articulados (CPT, CONAQ, MOQUIBOM e Cáritas) realizou de 26 a 28 de janeiro de 2024 no Território Quilombola São Benedito dos Colocados em Codó / MA, o II Encontro das Comunidades Quilombolas da Região Leste e Cocais maranhense, com o objetivo de proporcionar o processo de formação e partilhar as resistências para a construção de estratégias coletivas para o enfrentamento ao avanço do MATOPIBA, denunciando a omissão do Estado sobre os territórios ameaçados. Estiveram presentes cerca de 97 pessoas oriundas de 06 diferentes municípios, representando 20 comunidades tradicionais quilombolas dessa região.
Na oportunidade, as comunidades puderam participar do processo de formação conduzida pelo Assessor Jurídico da CPT Regional Maranhão, Rafael Silva, sobre Licenças ambientais, Convenção 169/OIT e aquilo que no Maranhão está se chamando de Nova Lei de Terras, mais precisamente, a Lei da grilagem 12.169/2023. No debate, as comunidades puderam partilhar os problemas que estão enfrentando contra as emissões desordenadas de licença ambiental da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA) aos grileiros da região, ocasionando desmatamento, ameaças e mortes. Muitos desses territórios estão com seus processos em andamento para titularização, no entanto, a morosidade do Estado acerca desse assunto tem dificultado a tranquilidade desses territórios.
Com a presença de Murilo Cavalcante, do Conselho Nacional de Direitos Humanos, e da representação do Departamento de Conciliação Agrária do Ministério de Desenvolvimento Agrário, Dra. Cláudia Dadico, as comunidades puderam externar as situações problemas sofridas e o andamento de cada processo diante da SEMA, INCRA e INTERMA. Essas comunidades solicitaram do MDA e do CNDH a efetivação das políticas agrárias em prol da garantia de sua permanência no chão de suas ancestralidades com bem viver. Mas também, ouvir sobre o funcionamento das questões agrárias dentro do ministério e como estão sendo construídas as ações efetivas emergenciais para atender os diferentes povos e, nesse certame, o Maranhão tem sido priorizado com algumas ações por ser considerado o Estado com o maior número de conflitos.
Foram encaminhadas agendas com 02 representações de cada comunidade para os próximos passos, além de encaminhamentos de documentos a serem enviados ao Departamento de Conciliação Agrária do MDA. O III Encontro será realizado em janeiro de 2025 na comunidade Puraquer em Codó / MA, e o processo de atuação da comissão articuladora dos Territórios em luta da região Leste e Cocais para o enfrentamento ao avanço do agronegócio.
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