Evento foi retomado na última sexta-feira, 18, após intervalo de quatro anos devido à pandemia da Covid-19
Por Lara Tapety | CPT Alagoas
Fotos: Lara Tapet
Com objetivo de arrecadar fundos para projetos sociais e ações missionárias da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no estado de Alagoas, a associação Pachamama realizou, na última sexta-feira, 18 de agosto, o 8º Jantar Solidário Italiano. O evento ocorreu no Centro Social da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Alagoas (Fetag/AL), em Maceió.
Na apresentação sobre o intuito do jantar, o coordenador nacional da CPT, Carlos Lima, explicou que os integrantes da organização sem fins lucrativos fundada na cidade de Torino (Itália) atuam para captar recursos para o combate à fome através do apoio às comunidades camponesas para a produção de alimentos e a conquista da autonomia delas. Entre os projetos apoiados pela Pachamama estão a construção de casas de farinha, viveiros de mudas de plantas e fogões ecológicos.
"Vir para essa janta é também um compromisso com aqueles que não tem o que comer. Hoje eu só lembrava de uma oração antiga da Igreja Católica que diz: 'Senhor, dai pão a quem tem fome. E fome de justiça a quem tem pão'. Falta isso no nosso país", disse Carlos.
O jantar genuinamente italiano ocorre desde 2010 na capital alagoana. A última edição ocorreu em agosto de 2019. No ano seguinte, o coronavírus tomou conta do mundo, o que impossibilitou a realização do evento nos anos seguintes.
"Fazia quatro anos que não acontecia a janta italiana aqui em Maceió, que já era uma tradição, então fico muito feliz em ver que muitas pessoas decidiram participar", falou Omar Bório, presidente da Pachamama Onlus. Ele espera que o evento possa servir para que as pessoas também decidam fazer uma pequena parte para ajudar os outros.
"Quem vê as camisas que os nossos voluntários estão usando com a logomarca de Pachamama, vê que atrás tem uma escrita em italiano que é 'è dolce aiutare gli altri', que significa é doce ajudar aos outros. Nós pensamos isso", explicou Omar. Após seu testemunho, foi exibido um vídeo sobre o projeto Fogões Ecológicos.
O evento contou com a participação de mais de 120 pessoas. Amigos e amigas; religiosos e religiosas; parceiros de movimentos sociais, de sindicatos, da CUT; professores, jornalistas, políticos e um grupo de italianos da associação Amici di Joaquim Gomes marcaram presença.
O padre Manoel José dos Santos ficou feliz com a retomada do jantar de solidariedade. "Num tempo em que a gente vive um momento de muito egoísmo e de individualismo, é muito importante esse gesto de partilhar", disse. O pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo, no conjunto Salvador Lyra, ressaltou que o gesto deve ser repetido mais vezes durante o ano e ser um aprendizado no cotidiano da vida.
"O que se vive hoje aqui é aquilo que a gente quer que aconteça todos os dias na prática das nossas pastorais, da nossa comunidade e na vida do nosso povo: ter o pão repartido chegue em todas as mesas e que não falte o pão na mesa de ninguém", falou Pe. Manoel.
O deputado estadual em Alagoas, Ronaldo Medeiros, fez a observação de que a união de diversos segmentos no mesmo espaço mostra que o apoio ao povo Sem Terra não vem apenas da sociedade brasileira como, também, de pessoas de outro país, de outro continente, que acreditam na causa da Reforma Agrária.
"Eu me sinto muito feliz em apoiar e estar presente. É a terceira vez que eu participo desse evento. Quero que venham mais eventos e que esse clima que nós estamos vendo aqui permaneça e tenha a participação de mais pessoas", afirmou o parlamentar.
Débora Nunes, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), comentou que a retomada da janta solidária é simbólica no momento que vivemos no Brasil.
"Reunir amigos e parceiros nesse jantar traz essa simbologia do quanto é importante a solidariedade para o fortalecimento das organizações e da luta para que a gente possa continuar cumprindo a tarefa de produzir alimentos saudáveis no campo alagoano e brasileiro", avaliou Débora Nunes.
A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e diversos sindicatos de sua base participam do Jantar Solidário desde a primeira realização. "É honra para a CUT estar participando junto dos companheiros que são parceiros históricos na luta do dia a dia na defesa da reforma agrária, do meio ambiente e do bem viver do povo alagoano. Que outras edições continuem! Nós vamos estar juntos sempre", comentou Luciano da Silva Santos, dirigente da central sindical..
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O evento contou, ainda, com pessoas que marcam presença desde a primeira edição, a exemplo do procurador do estado, Cláudio Acioli: "Eu venho para esse jantar há 8 anos. Sou uma pessoa que abraça essa causa do movimento, porque conheço o trabalho da CPT e o esforço que o Omar faz na Itália em prol do povo Sem Terra", declarou. Cláudio lembrou que, além da Pachamama, também estavam ali as irmãs italianas que trabalham há 40 anos em Alagoas para ajudar garotos em situação de rua e que usam drogas.
No cardápio desta 8ª edição, duas entradas ("bruschetta" e "vitello tonnato"), prato principal ("spaghetti al ragù bolognese") e sobremesa ("panna cotta"). Além das refeições, houve música ao vivo com o cantor Guilla Gomes, tocando o melhor da MPB, forró, samba e soul.
Para que o 8º Jantar Solidário Italiano acontecesse, a Pachamama e a CPT contaram com o envolvimento de integrantes da associação, como os italianos Omar Borio e Fede Mata; da equipe da Pastoral, de parceiros prestadores de serviço; e do apoio da Fetag/AL, a quem a CPT agradece por ceder o espaço.
Por Comissão Pastoral da Terra Nordeste 2
Imagens: Assembleia de Fundação da CPT Nordeste 2, agosto de 1988. Acervo CPT NE2
Em 1988, há 35 anos, nascia a Comissão Pastoral da Terra Nordeste 2. No mês de agosto daquele ano, aproximadamente 80 agentes pastorais, religiosos, religiosas, leigos, leigas e lideranças comunitárias dos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte decidiram levar adiante a realização da Assembleia do Setor Pastoral Rural da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Regional Nordeste 2, mesmo após desautorização do então Arcebispo de Olinda e Recife e Presidente do Regional Nordeste 2 da CNBB, Dom José Cardoso Sobrinho.
A realização daquela Assembleia foi fruto da incompatibilidade entre uma Igreja conservadora e autoritária, defendida por Dom José Cardoso Sobrinho, e os valores de uma Igreja conectada com os anseios dos povos injustiçados. Dessa maneira, naquele agosto de 1988, nas dependências do Seminário Arquidiocesano da Paraíba, os então membros da Pastoral Rural tomaram a decisão de se constituir como mais um regional da Comissão Pastoral da Terra, já existente em outros estados do Brasil desde 1975. “O arcabouço subjacente à CPT NE2 e à CPT Nacional foi a Teologia da Libertação, que é a articulação do olhar da fé, da tradição bíblica e de Jesus, com o olhar da realidade, da injustiça e das desigualdades” comenta Padre Hermínio Canova, um dos fundadores da CPT NE2. Tratava-se, então, de uma ação inspirada no Evangelho e nas experiências de homens e mulheres comprometidos com o processo de libertação em uma região marcada pela opressão e espoliação, a América Latina.
Por atuar prioritariamente junto aos que clamam por justiça em contexto conflitos e violência no campo, a CPT Nordeste 2 ficou conhecida, desde a sua fundação, como uma Pastoral da fronteira, do risco ou do conflito. É condição de sua existência, portanto, atuar na defesa de direitos e contribuir com a organização das lutas de comunidades e povos do campo, das águas e das florestas para a transformação social, superação das injustiças sociais e para a construção de uma Terra Sem Males.
Passados 35 anos, a violência permanece sendo uma realidade dramática e cotidiana para milhares de camponeses e camponesas. Atualmente, a CPT Nordeste 2 acompanha cerca de 350 comunidades camponesas, correspondendo a mais de 14 mil famílias em mais de cem municípios nos estados de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. São posseiros, trabalhadores/as rurais sem-terra, quilombolas, pescadores, assentados da Reforma Agrária, pequenos agricultores, entre tantos outros povos e comunidades. Desse total, a metade é vítima de conflitos no campo, de violências, de negação de direitos humanos e encontra-se sob ameaça de expulsão de suas terras e/ou territórios.
Que a memória da luta e da caminhada do povo seja alimento para o compromisso de continuidade do nosso serviço. A marcha da esperança rebelde seguirá até que todos e todas vivamos num outro mundo possível, numa Terra Sem Males.
"Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança produz a fidelidade comprovada, e a fidelidade comprovada produz a esperança. E a esperança não engana”.
(Carta de São Paulo aos Romanos, 5.3-5)
Documento foi publicado no diário Oficial da União
Por Pedro Moura | Jornal Opção
Editado por Heloisa Sousa | CPT Nacional
Carvoaria em Darcinópolis (TO). Foto: Thomas Bauer
A Lei nº 22.209, que institui a “Política Estadual de Combate ao Trabalho em Condição Análoga à de Escravo e Amparo a Trabalhadores Resgatados dessa Condição”, de autoria do deputado estadual Mauro Rubem (PT), foi publicada em Diário Oficial do Estado de Goiás no dia 14 de agosto, com alguns vetos da governadoria.
Entre as punições previstas para quem praticar o crime de empregador escravagista estão a cassação da inscrição no cadastro de contribuintes do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS), além da proibição de receber recursos financeiros e creditícios do erário estadual ou das agências estaduais de fomento por dez anos.
Benefícios de caráter econômico ou social previstos na legislação estadual também serão vetados, conforme a nova Lei. O deputado destaca que todas as ações decorrentes da nova legislação seguem o rito normal e devem respeitar o contraditório.
“Goiás sempre, todos os anos, figura na lista negra do Ministério do Trabalho com empregadores insistindo nessa prática desumana. Com o rigor necessário, empregadores e prepostos que tinham na impunidade, na morosidade e na reincidência, motivações para não querer mudar de comportamento, vão passar a responder de forma mais rigorosa aos crimes cometidos”, afirmou.
Tratamento humanizado
A nova Lei prevê ainda que os trabalhadores resgatados da condição análoga à de escravo devem receber tratamento humanizado dos órgãos e autoridades estaduais, que devem adotar providências como: identificação da pessoa, inclusive com a emissão de documentos de competência de órgãos estaduais e encaminhamento para emissão de documentos pessoais de competência de outros órgãos.
Uma busca familiar e de outras pessoas com as quais o resgatado tenha interesse em retomar vínculos também deve ser realizada, assim como a inserção em programas estaduais de habitação popular, renda e trabalho, sem prejuízo do encaminhamento para outros programas federais e municipais de caráter econômico, social e assistencial.
A pessoa na condição de resgatado deverá ainda ser encaminhada ao Ministério Público ou à Defensoria Pública para requerer, administrativamente ou judicialmente, os direitos dela, como por exemplo, a indenização por danos morais.
“Mataram mais uma irmã…”
Na data de ontem (17), perdemos a líder quilombola Mãe Bernadete, executada dentro de um terreiro em Simões Filho, região Metropolitana de Salvador (BA). Maria Bernardete Pacífico era ialorixá, coordenadora nacional da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq) e líder do Quilombo Pitanga dos Palmares, importantes espaços de organização e resistência para a população quilombola.
Sofrendo ameaças há pelo menos dois meses, por grupos ligados à especulação imobiliária em Salvador, Bernadete é presença marcante na preservação da história de seu povo. Ela era mãe de Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, o Binho do Quilombo, que foi assassinado em 2017, em Pitanga dos Palmares, crime que ainda segue impune. Ela também lutava incansavelmente por justiça em razão do assassinato do filho.
Episódios como esse devem ser severamente investigados, os responsáveis identificados e responsabilizados. Contudo, sem que haja atuação coordenada de enfrentamento à violência, esses crimes têm ocorrido em índices cada vez mais alarmantes. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2021), a desigualdade racial atinge diretamente a população negra, que são vítimas de 77% dos homicídios no País. Assim, a chance de uma pessoa negra ser assassinada, é 2,6 vezes maior do que a de uma pessoa branca.
O racismo estrutural entranhado em nossa sociedade, tanto nas esferas da vida pública, quanto privada, nos coloca diante de situações inadmissíveis, tais como a privação do acesso à terra e água para as comunidades quilombolas, a intolerância religiosa, o encarceramento em massa da juventude negra, e a violência contra as populações moradoras das favelas, a imensa maioria também afrodescendentes.
Nesse mesmo sentido, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) vem alertando sobre o acirramento sistemático da violência contra quilombolas no campo brasileiro. Registros do Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno (Cedoc-CPT) mostram que, de 2005 a 2023, 47 quilombolas foram assassinados em decorrência de conflitos no campo. O ano de 2017 foi o que apresentou maior número de vítimas, quando 12 pessoas foram executadas, dentre elas o próprio Binho do Quilombo.
Em 2023, Mãe Bernadete é a 16ª vítima de homicídio em contexto de conflito territorial no Brasil, a segunda quilombola assassinada neste ano. Dessas 16 ocorrências, 3 assassinatos ocorreram na Bahia, sendo duas pessoas indígenas e uma quilombola.
Lamentamos profundamente o ocorrido e nos colocamos em solidariedade e marcha junto ao povo negro do Brasil, historicamente vítima da injustiça, da intolerância e da tentativa de subalternização. Exigimos que esses crimes sejam averiguados e que seja feita justiça por Mãe Bernadete e Binho do Quilombo!
“[...]
Por causa de um mundo mais justo
Por causa de tanta opressão
Por causa de coisas que disse
Por ter defendido os irmãos
Mataram mais uma irmã
Mais ela ressuscitará e
O povo não esquecerá”
18 de agosto de 2023
Comissão Pastoral da Terra - Secretaria Nacional
É o primeiro ataque registrado este ano, apesar de ações armadas serem frequentes desde 2018; a promessa de um novo atentado causa medo e insegurança à comunidade
Por Maiara Dourado | Assessoria de Comunicação do Cimi
Um grupo armado invadiu, nesta tarde (16), o tekoha Avae’te, em Dourados (MS), do povo Guarani e Kaiowá. “Eles vieram pelo mato e atiraram umas quatro vezes, e [um dos disparos] quase acertou nosso parente”, relata Yvyraija Miri, liderança da comunidade. Segundo relatos dos indígenas, o grupo de pistoleiros monitora a comunidade por meio de drones a fim de localizar e alvejar os moradores. “Se a gente sair para filmar, eles dão tiro porque o drone fica em cima, até agora está aqui em cima” conta a liderança.
Na madrugada de terça-feira (15), um outro ataque foi empreendido por pistoleiros que invadiram e incendiaram dez das trinta casas do tekoha Avae’te. Os indígenas tiveram que se esconder no mato para se proteger dos tiros disparados pelo grupo armado que adentrou de forma violenta o território, tendo quase alvejado uma anciã e uma criança.
“Eles vieram pelo mato e atiraram umas quatro vezes, e quase acertou nosso parente”
“Eles vieram em duas caminhonetes com oito pessoas a pé para queimar as nossas casas. Eles têm armas pesadas, dão tiro para matar. Nós estamos correndo perigo, lutando pelos nossos direitos, pela nossa terra”, narra Yvyraija Miri.
Ninguém ficou ferido, mas a promessa de um novo ataque, anunciada no momento da investida, tem causado medo e pânico dentre os indígenas. “Eles, em gritos de ameaça, prometeram voltar hoje à noite, gritando que ‘à noite é o Caveirão que manda’”, narrou um morador do tekoha, em mensagem de Whatsapp, a uma pessoa do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
“Eles [pistoleiros], em gritos de ameaça, prometeram voltar hoje à noite, gritando que ‘à noite é o Caveirão que manda’”
Casa incendiada por pistoleiros no ekoha Avae’te, em Dourados (MS), do povo Guarani e Kaiowá Foto: comunidade do tekoha Avae’te
O caveirão – um trator blindado e modificado com chapas de metal – já é velho conhecido dos Guarani e Kaiowá de retomadas localizadas em áreas próximas aos atuais limites da reserva indígena de Dourados, cujo território é reivindicado pelos indígenas como parte de sua terra de ocupação tradicional.
O veículo é utilizado para atacar as comunidades Guarani e Kaiowá e derrubar os barracos das retomadas. Segundo relatos dos indígenas, o trator serve ainda como plataforma de tiro contra os Guarani e Kaiowá, sendo por este motivo, apelidado de “caveirão”.
O trator serve ainda como plataforma de tiro contra os Guarani e Kaiowá
Além das casas incendiadas, os indígenas denunciaram o despejo de lixo no território da comunidade. “Eles jogam lixo, entulho dentro do tekoha, em frente às nossas casas”, relata, ainda, a liderança. Segundo Yvyraija Miri, esse foi o mais recente ataque ocorrido esse ano, mas os atentados contra a comunidade são frequentes, tendo o último ocorrido três dias atrás.
As investidas contra a comunidade de Avae’te e as outras retomadas do entorno da reserva têm se intensificado desde 2018, quando iniciou-se o processo de retomada das áreas. Em 2021, ao menos três casas de indígenas foram queimadas por seguranças privados de fazendeiros no tekoha Avae’té. “Agora [2023] sobraram 20 casas do total de 30 da nossa comunidade”, lamenta a liderança.
“Eles jogam lixo, entulho dentro do tekoha, em frente às nossas casas”
Dez das trinta casas do tekoha Avae’te são incendiadas. Foto: comunidade do tekoha Avae’te
Reserva de Dourados
O tekoha Avae’te é um dos acampamentos Guarani e Kaiowá oriundos de um processo de retomada de terras que fazem divisa com a reserva de Dourados. “A reserva é insuficiente, não tem espaço, não suporta mais o número populacional”, explica Matias Benno, coordenador do Cimi Regional Mato Grosso do Sul. Segundo o Censo de 2022, a reserva de Dourados possui um contingente populacional de 13.473 indígenas, que vivem confinados em uma área de apenas 2,4 mil hectares.
Nesse sentido, as retomadas passam a emergir na região como uma forma de reivindicação de terras tradicionalmente ocupadas, invadidas por fazendeiros e arrendatários. Desse confinamento territorial da reserva de Dourados, surgiram 13 acampamentos: Avae’te 1 e 2, Ñu vera 1 e 2, Ñu vera Guasu, Aratikuty, Bolqueirão, Yvu Vera, Jaychapiry, Yvy rory poty, Ñu porã, Apyka`i e Pacurity.
“A reserva [de Dourados] é insuficiente, não tem espaço, não suporta mais o número populacional”
O último avanço da retomada Avae’te ocorreu no início desse ano. “Não houve reação dos fazendeiros após a nova retomada, que já estava estabelecida. Isso faz desse ataque uma ação quase gratuita, de extrema violência, onde o pessoal partiu para cima dos indígenas”, considera Benno, que esteve na noite de ontem (15) no tekoha.
“Inclusive as últimas barracas a serem queimadas estavam em áreas cuja posse está há muito tempo consolidada pelos indígenas. Ou seja, houve um avanço dos fazendeiros sobre uma área em que os indígenas estavam tranquilos, que já estava muito pacificada”, explica Benno.
Noite de medo e tensão
Os indígenas passaram a noite de ontem (15) em estado de tensão e alerta. “Eles estavam com uma fogueira acesa, com jovens e crianças ali perto dessa fogueira”, relata Matias Benno. Também foi avistada uma ronda do grupo armado apontando luzes advindas da fazenda contra a comunidade.
“Havia uma movimentação na parte de cima [do território], os indígenas tinham avistado unidades policiais, aí depois viram carros passando na divisa da fazenda com a retomada. Em um determinado momento, se acendeu uma fogueira dentro da fazenda, então ficou a fogueira dos indígenas e a fogueira dos fazendeiros”, informou o missionário.
“Havia uma movimentação na parte de cima [do território], os indígenas tinham avistado unidades policiais”
Dez das trinta casas do tekoha Avae’te são incendiadas. Foto: comunidade do tekoha Avae’te
A comunidade de Yvy Rory Poty, que também compõe esse conjunto de retomadas que descende da reserva de Dourados, sofreu, de igual modo, um ataque armado na última semana. No momento dos disparos, crianças se deslocavam para a escola.
A violência contra indígenas dentro e fora da reserva de Dourados resulta de um longo processo de paralisia nas demarcações de terras indígenas da região. As áreas reivindicadas na região de Dourados, no entorno da reserva, foram incluídas por um Termo de Ajustamento de Condutas (TAC) assinado em 2007 entre a Funai e o Ministério Público Federal (MPF) na Terra Indígena (TI) Dourados Pegua. Desde então, contudo, o processo demarcatório da área ainda não avançou, acirrando os conflitos.
Ataques continuam
O ataque ocorrido na tarde de ontem (16) contra a comunidade do tekoha Avae’te prosseguiu, ininterrupto, até a 00h30 de hoje (17). Além da investida armada, um trator foi usado para atentar contra vida dos indígenas e para derrubar a vegetação preservada pela comunidade.
A Polícia Militar (PM) foi chamada pelos fazendeiros para intervir. No entanto, os indígenas denunciam a conivência da PM, que assistiu sem ação, o ataque contra a comunidade.“Chegaram duas viaturas, nós estávamos olhando do meio do mato, eles [pistoleiros] se reuniram com a PM e antes que ela fosse embora, na frente da Polícia Militar eles começaram a atirar”, relata Yvyraija Miri, liderança da comunidade.
Nesta quinta (17), o medo persistia entre moradores do Avae’te que temem nova investida, mais de uma vez anunciada pelos pistoleiros. Missionários do Cimi Regional Mato Grosso do Sul receiam um massacre, caso não ocorram providências e devida intervenção das autoridades públicas.
A Defensoria Pública da União (DPU) junto à Defensoria Pública do estado do Mato Grosso do Sul (DPE-MS), em ofício, pediram atuação do Ministério da Justiça (MJ), do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC). As defensorias solicitam aos órgãos, a mediação nos conflitos, o envio da Polícia Federal e a proteção da vida e da integridade física dos indígenas Guarani e Kaiowá, tanto do tekoha Avae’te, como de todas retomadas limítrofes com a Reserva Indígena de Dourados.
Os ataques contra a comunidade Avae’te ocorrem na mesma semana em que a Aty Guasu – Grande Assembleia Guarani e Kaiowá – se reúne com autoridades de instâncias internacionais para denunciar as violências sistemáticas vividas pelas comunidades Guarani e Kaiowá do estado do Mato Grosso do Sul. As lideranças da Aty Guasu pedem medidas de regramento ou embargo comercial a produtos oriundos dessas regiões de conflito, cuja produção, sobretudo de soja e grãos, “é fruto do sangue derramado do povo Guarani e Kaiowa”, como definiu Zélia Maria Batista missionária Cimi Regional Mato Grosso do Sul
Por Comunicação CPT Rondônia,
com edição de Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional)
Foto: Solange Struwka (CPT Rondônia)
Teve início ontem (16), e segue até esta sexta (18), a Brigada de Juventude rumo ao IV Encontro da Rede dos Povos de Comunidades Tradicionais de Rondônia, que será realizado este ano na comunidade quilombola do Forte Príncipe da Beira, município de Costa Marques, entre os dias 19 e 21 de agosto.
A brigada deste ano tem como tema: “Juventudes organizadas permanecem em seus territórios, repartindo sonhos e construindo um novo amanhã na Amazônia!” Participam do encontro jovens indígenas, de reservas extrativistas, quilombolas e de assentamentos de reforma agrária. São juventudes reunidas dialogando sobre as suas vidas, a partir do chão dos seus contextos e territórios. O agente da CPT Maranhão, Raniere Roseira, apoia o encontro enquanto assessoria na brigada, e intercâmbio no Encontro da Rede dos Povos de Comunidades Tradicionais.
No primeiro dia de encontro (16), as juventudes debateram sobre os desafios e as potencialidades encontradas nos seus territórios. As principais temáticas foram: a) a educação, em especial a precariedade dos transportes escolares e os impactos negativos da mediação tecnológica no ensino e aprendizagem; b) saúde, como direito ainda não garantido para aqueles que vivem em territórios distantes dos centros urbanos.
Outro ponto destacado foi a dificuldade em acessar os programas e políticas públicas para geração de renda que viabilizam a produção, beneficiamento e comercialização dos produtos dos territórios, a partir da autossutentabilidade. Além dessas temáticas, o grupo trabalhou sobre a saúde mental, em especial os sofrimentos psíquicos, as formas de enfrentamentos pessoal e coletiva a partir de redes de apoio e cuidado.
Luiz Felipe Marques Loiola, jovem camponês da região do Cone Sul, afirma que: “participar deste encontro significa escutar e repassar as experiências vividas na região, onde também pude escutar as problemáticas vivenciadas em outras comunidades. Trocamos conhecimentos e cultura com uma diversidade de organização de povos originários e quilombolas que estão presentes. O encontro nos ajudou a fortalecer nossa identidade e construir elos de auto cuidado e auto proteção.”
A jovem extrativista da reserva castanheira, Gabriela de Sousa, relata a importância do encontro: “este é o primeiro encontro que participo e para mim representa a busca pelo conhecimento, pois aprendo com outros jovens. Aqui me motivo a seguir representando a minha comunidade”.
A juventude reunida e motivada pela ancestralidade sentida na comunidade Forte Príncipe da Beira, evidencia a importância de serem combustíveis - força e esperança - na luta dos povos e comunidades para um novo amanhã na Amazônia. A Brigada da juventude é fruto da Articulação da Rede dos povos de Rondônia, que busca fortalecer a luta histórica pelo território e por direitos.
A partir desta quinta (17), a juventude se soma com a comunidade quilombola do Forte Príncipe, trabalhando junta na construção do espaço que receberá os participantes do IV Encontro dos Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia.
A Rede dos Povos é tecida no fazer da luta e resistência dos povos da floresta. Assim, ecoamos:
Território e Educação: O Grito de Todos os Povos!✊🏾
Legenda: Jovens empenhados na estruturação do espaço do IV Encontro dos Povos e Comunidades Tradicionais | Foto: CPT Rondônia
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