Os desafios da luta LGBTI+ a nível internacional é tema no 3º Seminário sobre Diversidade Sexual e de Gênero na Via Campesina Brasil
Por Arlla Xavier e Wesley Lima*
Foto: Júlia Barbosa | CPT Nacional
A participação internacional tem sido fundamental para o aprofundamento do debate da diversidade sexual e de gênero na Via Campesina. Essa afirmação foi a linha condutora da mesa “Colorindo a Luta Camponesa Internacional: Os desafios da diversidade sexual e de gênero na CLOC e LVC Internacional”, que aconteceu na manhã deste sábado (16), no 3º Seminário sobre Diversidade Sexual e de Gênero na Via Campesina Brasil.
O Seminário teve início na última quinta-feira (14) e se estendeu até domingo (17), na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema - SP, com a presença de 80 LGBTI+ dos movimentos e organizações populares que constroem a Via Campesina.
Um ponto de partida para reflexão sobre a diversidade sexual e identidade de gênero na Via Campesina Internacional, tem sido a construção desse debate conectado ao acúmulo das mulheres na Via Campesina, a partir do Feminismo Camponês Popular. Este elemento esteve no centro da análise Jeongyeol Kim, da Coreia do Sul, ela falou sobre os principais desafios para se pensar a construção da pauta LGBTQIA+ na Coreia do Sul, por conta da “hegemonia binária” presente na forma de organização social e o avanço do conservadorismo.
Nessa perspectiva, olhando para dimensão feminista, Kim explica: "o feminismo é para todas as pessoas que são oprimidas e exploradas. Isso quer dizer que as questões das mulheres estão ligadas às questões da diversidade. Nesse sentido, devemos empoderar uns aos outros e seguir de mãos dadas. Estabelecemos um feminismo camponês popular, porque existimos, temos nossos valores e entendemos que a luta nos fará avançar".
Jeongyeol Kim. Foto: Júlia Barbosa | CPT Nacional
A representante da África do Sul, Constance Adziambei, falou sobre o processo de construção da luta contra a LGBTQIA+fobia no país e os principais desafios desta luta. Sobre a necessidade de avançar no protagonismo e conquistas para população LGBTI+, ela sinaliza: "Ninguém pode falar por nós. Estamos aqui e afirmamos que iremos ficar, porque somos livres".
Essa concepção de liberdade esteve presente durante sua intervenção todo o tempo. Constance explica, que na África do Sul, existem duas estruturas principais que organizam o pensamento conservador em seu país, a religião e as tradições. Ela conta que essas duas dimensões legitimam o avanço do conservadorismo, a não liberdade para o amor e anulam a possibilidade de construção de políticas públicas.
Nesse sentido, ela explica que somos todos seres humanos e “o que sinto no meu corpo é legítimo e não é apenas individual é coletivo. Ninguém pode escolher o que eu sinto dentro do meu corpo, estamos falando sobre isso nas relações governamentais, com o objetivo de avançar em políticas públicas importantes para essa população”.
À esquerda: Constance Adziambei, Kaya Thomas (centro) e Jeongyeol Kim (direita). Foto: Júlia Barbosa | CPT Nacional
Contra o conservadorismo
A luta contra o avanço do conservadorismo neoliberal também foi uma questão apontada com centralidade por representantes do Paraguai e da Alemanha.
Kaya Thomas, do Grupo de Trabalho de Agricultura Camponesa da Alemanha, conta que no enfrentamento ao conservadorismo é importante posicionar o tema da diversidade sexual e da identidade de gênero conectado com as diversas dimensões da luta por direitos. “Estamos falando sobre diversidade e não queremos que esse seja apenas o nosso foco. Nós queremos incluir todos e avançar em uma pauta unificada de direitos, a partir das nossas especificidades. É muito importante estarmos em contato com nossas forças, nossos desejos, é um tópico muito importante e a gente tem colocado isso de maneira muito bela”, diz Kaya.
“Nós precisamos ser amados e isso não é sobre nós apenas, é sobre a nossa comunidade. Assim a gente fortalece a nossa luta coletiva”, destaca.
Para Cony Gonzalez, integrante da Organização de Mulheres Camponesas e Indígenas (Conamuri), inicia afirmando que no Paraguai não existe nenhum tipo de direito para a população LGBTI+. “Não é assegurado esse direito às identidades, na constituição não se menciona nada sobre isso.”
Cony Gonzalez. Foto: Júlia Barbosa | CPT Nacional
E continua: “Nós temos mulheres trans que lutam pelo reconhecimento do nome social. Não temos cotas de trabalho para as pessoas trans. Não tem direito ao matrimônio. No geral, passamos pela invisibilização da população LGBT.”
Ela conta ainda que para viver sua sexualidade precisa sair do campo para ir para cidade. No enfrentamento a essa “invisibilização”, Cony diz que é fundamental alinhar as lutas da população LGBTQIA+ com outras lutas, construindo uma coesão política e processos que conectam as pautas em uma perspectiva popular.
*Arlla Xavier é comunicadora popular no Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e Wesley Lima integra o Coletivo Nacional de Comunicação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Por CPT-AT
Fotos: Ludimila Carvalho
Entre os dias 15 e 17 de setembro, ocorreu o XII Encontro de Camponeses e Camponesas acompanhados pela Comissão Pastoral da Terra Araguaia Tocantins (CPT-AT). O encontro reuniu centenas de assentados, posseiros, acampados, quilombolas e representantes de pastorais e movimentos sociais parceiros, como a CPT-Maranhão, o Movimento Quilombola do Maranhão (MOQUIBOM) e o Movimento Sem Terra (MST), e órgãos públicos, como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT) e Universidade Federal do Tocantins (UFT). Esse ano, o evento teve como tema "A organização social pelo acesso e permanência na terra", o que suscitou discussões fundamentais sobre a luta camponesa pela terra e o bem-viver.
Realizado no território quilombola Grotão, Filadéfia-TO, o encontro se consolidou como um momento de retomada da mobilização no pós-pandemia do COVID e dentro de uma nova conjuntura política No espaço, as comunidades presentes discutiram sobre os desafios que enfrentam relacionados ao acesso e permanência na terra, destacando a importância da organização social dos povos do campo, como elemento crucial no enfrentamento à grilagem e no fortalecimento da resistência camponesa frente à política agrária do país e do Tocantins.
Durante o encontro aconteceu ainda a Feira de Troca de sementes, produtos e artesanatos trazidos de todas as comunidades presentes, promovendo o fortalecimento das redes comunitárias, diversificação de culturas e soberania alimentar.
Por Campanha Nacional em Defesa do Cerrado
Foto: Mariana Pontes
Na manhã de hoje, 15/09, dezenas de participantes do X Encontro e Feira dos Povos do Cerrado se reuniram na tenda Veredas, na Torre de TV, em Brasília, para discutir o acordo comercial entre União Europeia (UE) e Mercosul, e o novo regulamento europeu sobre desmatamento importado.
Participaram do debate Marcela Vecchione, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Pará (UFPA), Jean Timmers, Gerente de Políticas Públicas para Cadeias livres de Desmatamento e Conversão da WWF Brasil, e Tatiana Oliveira, assessora Política no Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc). A atividade foi mediada por Valéria Santos, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Abner Costa, da Agência 10Envolvimento.
Entre os destaques do debate estão as consequências dos acordos e leis internacionais para os povos e comunidades tradicionais. Colocados à margem de qualquer consulta ou debate sobre os termos e implementação tanto do acordo UE-Mercosul quanto do regulamento europeu, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais são as primeiras a sentirem a violência das políticas de quem, desde o norte global, legisla sobre corpos e territórios ancestrais alheios.
“O acordo UE-Mercosul é um acordo para liberalizar as relações comerciais entre os países da Europa e América Latina. Esse acordo vai aumentar a expansão da fronteira agrícola, especialmente as grandes monoculturas de soja e milho; vai facilitar a importação de agrotóxicos, vai aumentar os desmatamentos, a perda da biodiversidade, a especulação imobiliária, entre outras consequências negativas”, alertou Tatiana Oliveira, do Inesc.
Ela também destacou que para viabilizar a troca de commodities nos termos do acordo comercial, é necessária a construção de infraestrutura logística – como ferrovias, hidrovias e rodovias – para escoamento da produção. “Essas estruturas não facilitam nossa vida, mas sim a vida da soja e dos países que querem comprar da gente”, disse Oliveira.
Além disso, o acordo UE-Mercosul, segundo a assessora política do Inesc, fortalece a reprimarização da economia brasileira, a desindustrialização, fomenta empregos de menor qualidade para as brasileiras e brasileiros, fortalece o poder do agronegócio, das empresas transnacionais, e expulsa as mulheres do campo, pois o acordo não foca nas produções agroflorestais e da agricultura familiar, e sim na produção de mocultivos em larga escala.
O acordo UE-Mercosul está sendo debatido há pelo menos duas décadas e teve as negociações finalizadas em 2019 – mas ainda não foi assinado e nem ratificado pelos países, segundo Tatiana Oliveira. O acordo ainda precisa ser aprovado no congresso nacional, no caso do Brasil, e no parlamento europeu.
Até este momento, nenhum documento com os termos do acordo foi disponibilizado amplamente para a sociedade civil. “O acordo foi feito a portas fechadas pelos países desenvolvidos, sem nenhuma transparência. A UE já ultrapassou os Estados Unidos em relação ao destino das exportações brasileiras – primeiro vem China, depois UE e Estados Unidos. Não estamos falando de pouca coisa”, finalizou Oliveira. Para entrar
Cerrado fora da legislação do desmatamento importado
A professora e pesquisadora Marcela Vecchione, da UFPA, iniciou sua fala a respeito do novo regulamento europeu sobre desmatamento importado alertando para o entendimento superficial da lei sobre o que é desmatamento. “Você tem uma reflexão simplista sobre o que é o desmatamento. A dimensão social entra muito pouco. O desmatamento não é entendido como fenômeno social: apropriação de terras, deslocamento, uso de agrotóxicos como forma de expulsão, nada disso entra na legislação. A expansão de infraestrutura [que requer desmatamento], muitas vezes com capital europeu, leva à expulsão, e isso não entra na discussão. Não se fala de mineração: onde tem mineração tem aumento do desmatamento. Nada disso é trazido para o âmbito da discussão sobre o que pode significar desmatamento”, diz Vecchione.
A nova lei foi apresentada em novembro de 2021 pela Comissão Europeia, e pretende regular a exportação e entrada no mercado da União Europeia de determinados produtos básicos e produtos associados ao desmatamento e degradação florestal. Por 453 votos a favor, 57 contra e 123 abstenções, o Parlamento Europeu aprovou a proposta em 13 de setembro de 2022. A União Europeia é atualmente responsável por 16% do desmatamento tropical ligado ao comércio internacional de produtos básicos como soja ou óleo de palma. Nesse sentido, aproximadamente 20% das exportações de soja e pelo menos 17% das exportações de carne bovina do Brasil para a UE podem estar ligadas ao desmatamento ilegal. A proposta tenta conter o efeito que o consumo de determinados produtos produz no desmatamento global e, para tanto, impõe requisitos à importação, exportação, produção e comercialização desses produtos na UE.
Um dos pontos positivos da aprovação do Regramento foi a inclusão da carne suína, ovina e caprina, aves, milho, borracha, carvão vegetal, couro e produtos de papel impresso em seu escopo. Outro destaque é a obrigatoriedade de que as instituições financeiras estejam sujeitas a requisitos adicionais para garantir que suas atividades não contribuam para o desmatamento. No entanto, há ainda muitos desafios para o aperfeiçoamento do Regramento.
Um deles é que o Parlamento Europeu entende que só devem ser protegidas do desmatamento áreas e regiões definidas como "floresta". Isso deixa de fora a proteção de outros ecossistemas naturais, como zonas úmidas, alagadas, pastagens ou savanas - estas últimas seriam o caso do Cerrado, que teria 74% de sua área desprotegida com o atual texto do Regramento. Também é um desafio o fato de que a proposta aprovada não preveja - por enquanto - um mecanismo de responsabilidade civil ou a possibilidade de reparação e compensação por parte das empresas.
Após a votação do dia 13 de setembro de 2022 tiveram início as negociações do texto final entre a Comissão, Conselho e Parlamento europeu.
“A lei foi aprovada, mas para o Cerrado não tem proteção. Se um bioma é protegido e outro não, o que fica desprotegido vira zona de sacrifício. Por que o Cerrado não entra nessa proteção, já que o Cerrado é a região de onde mais se tira commodities para a Europa?”, questionou Valéria Santos, da CPT.
Marcela Vecchione destacou que a lei sobre desmatamento importado está em um pacote de reconstrução da economia europeia. “Não é pouca coisa se pensamos na relação com o Brasil. Depois da China, a UE (Espanha e Holanda) são os que mais importam commodities [do Brasil] – carne, café, madeira, borracha e cacau.”
Valéria Santos destacou que há um prazo até 20 de dezembro de 2024 para se fazer incidência internacional para inserir o Cerrado na cobertura da lei. “Para fazer incidência e inserir o Cerrado [na lei], precisamos apontar as falhas e dizer o que quer que seja incluído, e isso precisa ser dialogado com as entidades e as comunidades. A mineração no cerrado é crescente. A fronteira agrícola se expande com a fronteira minerária.”
A Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) recebe o Seminário, que teve início nesta quinta-feira (14) e se estende até domingo (17)
Por Arlla Xavier e Wesley Lima*
Fotos: Júlia Barbosa / CPT Nacional
Foi dada a largada, na manhã desta última quinta-feira (14), ao 3º Seminário Diversidade Sexual e de Gênero na Via Campesina Brasil, com a presença de LGBTI+ de diversos movimentos e organizações populares que constroem a Via Campesina no Brasil e representantes de outros seis países.
A Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), localizada em Guararema (SP), recebe o Seminário, que tem atividades previstas entre os dias 14 e 17 de setembro, com o objetivo de discutir temas que vão desde o debate em torno dos direitos humanos até a dimensão da interseccionalidade das lutas.
Na programação estão previstos momentos de formação que abordarão alguns temas, como “Território, orgulho e resistência LGBTI+ no campo, nas Águas e nas florestas”, “Conceitos Chaves e Contribuições do Feminismo Camponês e Popular para a dimensão da Diversidade Sexual e Identidade de Gênero”, “Colorindo a Luta Camponesa Internacional: Os desafios da diversidade sexual e de gênero na CLOC e LVC Internacional” e “Sem LGBTI+ não há revolução: Combatendo às violências contra as existências e resistências LGBTI+ no campo, nas águas e nas florestas”.
Para auxiliar nas formações, os movimentos e as organizações que compõe a Via Campesina Brasil têm acumulado e contribuído nos debates, tendo como ponto de partida, a diversidade das lutas e desafios que estão posicionados na defesa dos territórios e dos projetos defendidos pelos povos do campo, das águas e das florestas.
Um dos temas discutidos no primeiro dia do Seminário é a dimensão da violência aos corpos LGBTI+. Lucineia Miranda é integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) pelo Setor de Gênero, e contribuiu no debate sobre a conjuntura política nacional e internacional, ela explica que o atual momento econômico, social e cultural é atravessado por crises profundas do modo de produção do capitalismo, e que essas crises “acirram as violências contra a população LGBTI+, contra as mulheres e a população preta no Brasil”, essas populações são as mais exploradas por esse sistema.
“Vivemos o aprofundamento de um conjunto de crises. A crise climática, por exemplo, provocada pela super exploração dos bens comuns da natureza, está na ordem do dia, mas ela não caminha sozinha. Ela é fruto de um processo de expulsão dos povos tradicionais de seus territórios e de extermínio dos mesmos. A violência do capital é estratégica para a super exploração”, denuncia Miranda.
Neste contexto, ela explica que hoje ocorre um processo de “normalização da violência” e ela está conectada com o avanço do conservadorismo no Brasil e no mundo. Miranda afirma que há um avanço dos “governos ultraconservadores no mundo”, que se posicionam na construção de alianças econômicas importantes.
É neste cenário, que Alessandro Mariano, da Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, aponta que é necessário construir “uma estratégia na região [América do Sul] de enfrentamento ao conservadorismo” e, olhando para o Brasil, ele comenta que “o Governo Lula é um espaço de disputa” e por isso é necessário ter unidade e organização de lutas na defesa dos direitos das LGBTQIA+.
“Nós avançamos! Temos conquistas importantes e conquistas históricas, mas é fundamental seguir em luta. Nesse sentido, nós temos o papel de fazer pressão popular, para que novas conquistas possam acumular forças e condições políticas de construir lutas contra o conservadorismo”, destaca Mariano.
Essas questões estão na centralidade das discussões do Seminário, que pretende, ao final, apontar linhas de planejamento e atuação para Via Campesina no Brasil implementar campanhas e lutas contra a LGBTI+fobia contra os povos do campo, das águas e das florestas.
A luta contra a LGBTI+fobia é internacional
A Via Campesina, uma organização internacional que agrega e constrói um processo de articulação entre os povos do campo, das águas e das florestas ao redor do globo, tem reconhecido a importância de incluir as pautas da diversidade sexual e de gênero em suas discussões. Esta edição do Seminário reforça a continuidade deste compromisso, ao posicionar questões que impactam diretamente as vidas de pessoas LGBTI+, como o avanço do conservadorismo e da violência no mundo.
Essa relação da Via Campesina no contexto Internacional com os movimentos, foi fundamental para a construção de um processo importante dentro da organização e, por isso, a via internacional constrói um material sobre a diversidade sexual e identidade de gênero, trazendo as pautas LGBTI+ para dentro das discussões.
A Via Campesina tem entendido que é preciso que as conexões internacionais sejam um ponto central nos diálogos entre as populações LGBTI+ dos movimentos que a compõem, que seja contínuo e consolidado ao longo dos anos. Esse ponto central permite que sejam feitas análises sobre as pautas que têm avançado nos últimos anos, estruturando assim, as melhores estratégias para a construção de diálogos com os países onde as pautas não avançam.
Esse aspecto internacional aponta que a luta pelo respeito à diversidade sexual e de gênero transcende fronteiras geográficas e culturais. Ao promover intercâmbio de experiências e aprendizados entre diferentes contextos, o Seminário contribui para a formação de uma rede global de solidariedade e resistência. Afinal, as batalhas por igualdade e justiça para a comunidade LGBTI+ são universais, e a Via Campesina se firma como um espaço onde essas lutas podem ser conectadas e fortalecidas.
*Arlla Xavier é comunicadora popular no Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e Wesley Lima integra o Coletivo Nacional de Comunicação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Famílias camponesas da comunidade Domingas resistem há mais de 20 anos na luta pela terra
Por Lara Tapety | CPT AL
As famílias camponesas do acampamento Domingas, situado em Porto de Pedras, no litoral norte de Alagoas, receberam na terça-feira, 12, o mandado de reintegração de posse com o prazo de 15 dias para a desocupação voluntária da área. Há mais de 20 anos elas ocupam parte do imóvel rural denominado Recanto da Baianinhas.
Apesar de haver uma negociação em curso intermediada pelo Governo do Estado de Alagoas, através do Instituto de Terras e Reforma Agrária (Iteral), com a possibilidade da aquisição da área ocupada, o conflito no campo se intensificou. Os agricultores, acompanhados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), temem perder tudo o que têm para sobreviver e garantir o sustento de seus filhos e netos.
De acordo com o mandado assinado pelo juiz de direito José Afrânio dos Santos Oliveira: "No prazo, deverão retirar barracos e demais construções e fazer a colheita dos produtos por eles plantados, se houver, sem praticar qualquer tipo de danificação. Não realizada a desocupação de forma voluntária, ressalto que a reintegração será feita de forma compulsória com o uso da força policial, caso seja necessário".
Diante da iminência de mais um caso de violência no campo, a CPT entrou em contato com o Iteral e com a Câmara de Conciliação Agrária, órgão do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
O governo do estado busca uma solução com o proprietário do imóvel rural no sentido da aquisição da área. Já a Câmara de Conciliação Agrária do governo federal encaminhou ofício ao magistrado solicitando atenção especial a situação das famílias acampadas e à defensoria pública pedindo prestação de assistência jurídica urgente a elas.
No ofício ao juiz, a diretora Maíra Coraci Diniz, escreve: "Esta Câmara de Conciliação Agrária foi informada que se trata de uma ocupação pacífica de famílias vulneráveis, compostas por muitos idosos e crianças, que estão cultivando alimentos em parte do terreno que estava sem nenhuma destinação. Tais famílias reivindicam o território para fins de reforma agrária, diante da alegação de que a área estava há anos sem destinação alguma".
Conflito no campo – A situação das famílias camponesas da comunidade Domingas já foi comunicada pela CPT às autoridades anteriormente, inclusive, em denúncias de ameaças feitas por homens armados aos agricultores e as agricultoras.
"Antes era bem legal aqui. Mas hoje em dia a gente está passando por um problema sério. Muita ameaça. Os cabra [sic] chega aí com aquelas Hilux, três chegou, doze caras aí; da outra vez veio quatro (caminhonetes), tudo armado, com umas pistolas, dizendo: 'Aqui é o pouco, e lá dentro tem muito, viu minha gente! Vocês têm 15 dias para desocupar isso aqui'. E passava cinco ou seis dias e voltava de novo. E a gente vive nesse tremendo medo - como diz a história - a gente está dormindo e quando escuta a zuada [sic] do carro já fica assustado", conta o camponês Sebastião Domingos dos Santos.
Conhecido como Báu, Sebastião mora há 10 anos no acampamento. Ele relata que saiu do corte de cana para trabalhar na roça. Lá, planta abacaxi, cana caiana, maracujá, macaxeira, entre outros alimentos.
Aos 72 anos de idade, Maucina Varlerlei Silva, está há 20 anos em Domingas. A senhora alegre e cheia de vida adora trabalhar com hortaliças e frutas. Quando questionada como vendia seus produtos, Dona Maucina grita:
"Bom dia Alagoas, olha eu! Olha a cebolinha! Olha o pimentão! Olha a pimenta! Quem vai querer? Chega para cá!". O sonho de quem atingiu a chamada melhor idade no acampamento é a conquista da terra: "O meu sonho é eu ganhar, se eu tiver o merecimento, porque eu já estou assim né e talvez eu nem chegue lá. Mas eu peço a Jesus que faça eu alcançar a vitória de nós todos aqui", disse.
Além das pessoas que chegaram na área a partir da ocupação, há também quem vive ali desde antes da falência da fazenda. Esse último é o caso do senhor José Cícero de Araújo. "Meu filho mais velho está completando 34 anos e é o tempo que eu tenho aqui", relata o ex-funcionário da fazenda. Inicialmente, ele trabalhava fazendo o coroamento e adubação de coqueiros e laranjeiras; depois, foi tratorista durante 15 anos. "Aí foi o tempo que a fazenda faliu e eu fiquei trabalhando na agricultura de enxada, fiquei trabalhando plantando roça. Quando o pessoal chegou, fiquei aqui". O agricultor, que sequer recebeu alguma indenização pelo tempo de serviço, hoje planta uma variedade de produtos que é entregue para ser merenda de escolas da prefeitura do município e do estado. Entre os alimentos da roça de José Cícero estão macaxeira, banana prata, banana comprida, milho, feijão de corda e inhame.
As famílias camponesas da comunidade Domingas produzem alimentos para subsistência e para alimentar a população da cidade. Elas sonham e vivem com fé da conquista da Terra Prometida.
Por Lara Tapety | CPT AL
Fotos: Lara Tapety
Na última semana, entre os dias 05 e 07 de setembro, aconteceu o Encontro Estadual Juventude Camponesa, realizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Alagoas, com a participação de jovens de 11 comunidades de todas as regiões do estado.
A programação contou com momentos de oração, mesa de abertura, palestras, diálogos, trabalhos em grupo, exibição de filme e foi encerrada com a participação no 29º Grito dos Excluídos e Excluídas. No primeiro dia do encontro, Alane Lima, presidente do Memorial das Ligas Camponesas (MLLC), localizado em Sapé (PB), falou sobre história das Ligas Camponesas. Para ela, o resgate da memória contribui para garantir uma luta camponesa contínua.
"O público que a gente teve foi de adolescentes e jovens que tem diversos perfis, uns com contanto de experiência no contexto organizativo, outros não; mas todos com o desejo de aprender. Então, hoje foi muito interessante, inclusive, a participação coletiva nos trabalhos em grupo, porque quando a gente diminuiu o grupão e vai para os grupos menores a participação é mais efetiva", avaliou Alane.
Nos grupos de trabalho, os jovens responderam questões como "o que é memória?", "o que é fazer memória?" e "por quê lutas camponesas?". De acordo com Alane Lima, a diversidade foi garantida na participação nos grupos, porque em todos eles havia jovens de diferentes comunidades, áreas de assentamento e de acampamentos, e meninos e meninas. No momento das apresentações, eles mostraram seus cartazes, onde registraram suas reflexões.
A respeito da memória, um dos grupos escreveu: "A memória tem um papel fundamental na aprendizagem, pois permite o reaproveitamento das experiências do passado e do presente e ajuda a garantir a continuidade do aprendizado. A memória é um processo ativo de codificação, armazenamento e recuperação de nossas experiências".
"As lutas camponesas são movimentos de resistência e luta por direitos protagonizados por trabalhadores rurais. Essas lutas podem envolver questões como acesso à terra, reforma agrária, condições de trabalho e direitos trabalhistas e sociais e igualdade no campo", responderam os jovens mostrando outro um cartaz.
Na perspectiva do tema do encontro – "Memória e lutas camponesas" – o segundo dia de atividades contou com a explanação sobre a história da Pastoral da Terra. Houve, ainda, um resgate do que a Terra significa para os povos indígenas – uma continuidade dos seus corpos. "Os indígenas e os povos originários da natureza são uma coisa só", explicou Carlos Lima, da coordenação nacional da CPT.
"Aquilo que os portugueses conseguiram fazer o seu projeto de colonização que é apartar o homem e a mulher, as pessoas, da natureza; e transformar a Terra, que é um bem comum, que é um bem natural, em uma mercadoria. Quer dizer, a tentativa de converter a Terra em mercadoria, porque a Terra vai sempre ter essa ligação essa dádiva que é produzir alimento e garantir a vida da nossa espécie e, também, de todos os seres vivos que habitam o planeta", disse Carlos.
Para o coordenador da CPT, o Encontro da Juventude Camponesa possibilita a formação de novas lideranças para dar continuidade à luta. "Foi um momento muito bom, assim uma participação muito boa, que finalizou o encontro com a participação no Grito. Isso foi extraordinário!", concluiu.
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