COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

Com o objetivo de denunciar toda a violência no campo e na cidade, baseada na realidade de sofrimento vivida pelos povos da terra, das águas e das florestas, a Diocese de Rio Branco, no Acre, realizou, no dia 03 de junho, a VIII Romaria da Terra e das Águas no município de Sena Madureira, a 145 km da capital Rio Branco.

 

 (Texto por Darlene Braga | Imagens: Darlene Braga e Diocese de Rio Branco)*

Com o tema “Povo de Deus, família que cultiva e cuida da Casa Comum” e o lema “Eu te propus a vida e a morte, a benção e a maldição. Escolhestes, pois a vida para que vivas tu e a tua descendência” (DT. 30,19), a Romaria faz parte da programação do segundo ano rumo Centenário da Diocese de Rio Branco em 2020.

Aproximadamente seis mil romeiros e romeiras caminharam pelas ruas de Sena Madureira sentindo o conforto de Deus e fazendo memória à Páscoa de Jesus, ao Povo da Terra e das Águas, às mulheres e aos homens, trabalhadores e trabalhadoras, negros e indígenas que tombaram na luta.  

Sena Madureira é terra de grandes florestas, de homens e de mulheres valentes e lutadores, e é um município conhecido mundialmente também como a “Terra de Padre Paolino Baldassari”, da Ordem dos Servos de Maria, que adotou a então pequena Vila como sua morada, seu lugar de viver. O religioso deixou a marca de um guerreiro defensor e incansável da Amazônia. Para a história, ele deixou um legado de pessoas comprometidas e lutadoras das causas socioambientais e em defesa da vida.

As desobrigas estavam para o padre Paolino como ele estava para o povo pobre, oprimido, sofredor e doente. Nessas viagens missionárias, que chegavam a durar até seis meses, o padre levava o Evangelho às populações das florestas, cumprindo sua missão com os mais isolados e necessitados, mas ao mesmo tempo firmes na fé, na esperança e nas orações. Mesmo com a saúde frágil, Paolino manteve-se fiel na missão de acompanhar essas populações tradicionais.

Amado por todos, ele era conhecido como o “médico da floresta”, e durante anos dedicou-se a atender o povo simples e humilde que se enfileirava para consultar-se com o religioso. Não tinha diploma, pois não cursou a faculdade de medicina, mas era o “médico dos pobres”, aquele que aprendeu com os livros, com a sabedoria popular e com a convivência com seringueiros, ribeirinhos e indígenas.

Sena Madureira, primeiro município do Regional Purus, está situada às margens do Rio Iaco, tendo como principais afluentes os rios Macauã e Caeté, e é o terceiro município mais populoso do estado e o segundo em extensão territorial. A cidade foi fundada em 25 de setembro de 1904, e recebeu muitos migrantes, principalmente do Nordeste. É a principal cidade a se desenvolver no Vale do Purus que, desde a sua fundação, em 1904, foi criada para ser a capital do Departamento do Alto Purus, permanecendo nessa condição até 1920, desde então transformada no município de Sena Madureira, primeira cidade da Regional Purus.

As Romarias no estado do Acre

A Diocese de Rio Branco, juntamente com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Acre, já realizou oito romarias. A I Romaria da Terra, com o tema “Terra Preservada, Vida Conquistada”, celebrada em 1986, teve como motivação a Terra, tão ameaçada neste período e até os dias atuais. A destruição de vidas e das florestas e os assassinatos de lideranças de comunidades marcaram a vida de nosso povo que, na fé e na religião, buscavam forças para lutar em favor da vida.

Aproximadamente seis mil romeiros e romeiras caminharam pelas ruas de Sena Madureira (AC).

Chegada de Padre Paolino Baldassari, da Ordem dos Servos de Maria, na Romaria.

“Amazônia Preservada, Vida Conquistada” foi o tema da II Romaria da Terra realizada em 1989. Nesta Romaria, o povo continuou a denunciar e lutar em defesa da Amazônia e dos povos da floresta. A conquista das Reservas Extrativistas como forma de preservação da natureza e alternativa econômica para a Amazônia era a saída para a reforma agrária dos seringueiros e extrativistas.

Em 23 de agosto de 1992, com o tema “Os Pobres da Terra Resistem e Evangelizam”, mais de 10 mil romeiros e romeiras reviveram a história da salvação contida na Bíblia.  Confirmaram a “história da promessa”, promessa essa da terra feita por Deus, segundo o lema “Levanta-te, meu povo, e conquista a tua terra”. Tema e lema desta III Romaria da Terra apresentaram à sociedade a opção clara desta Igreja que não se curva às forças da destruição e que apresenta caminhos para que a vida prevaleça.

A IV Romaria da Terra foi celebrada no dia 26 de agosto de 1995 com o tema “Povo que crê, luta e defende a vida”, e o lema “Projeto de Deus: Terra, Pão e Paz”! O objetivo dessa Romaria foi sensibilizar a população para defender a vida, dom de Deus, e sempre tão ameaçada.

Com o tema “Jubileu Terra Sem Males” e o lema “A terra me pertence e vocês são para mim imigrantes e hóspedes”, a V Romaria da Terra foi realizada em 28 de agosto de 1999. A Diocese de Rio Branco, mais uma vez, procurou valorizar e resgatar a religiosidade popular, mobilizando o povo de Deus para denunciar o aprisionamento da terra, e anunciar o sentido celebrativo da vida e da esperança na busca de uma terra sem males.

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A VI Romaria da Terra: Romaria dos Mártires da Terra”, realizada no município de Xapuri (AC), em dezembro de 2003, teve como objetivo principal resgatar a memória dos mártires que pereceram na luta em defesa da vida. Além disso, reafirmar o compromisso com os pobres e excluídos/as da terra e das águas, denunciando as injustiças sociais e renovando a esperança de seu povo na busca de uma terra sem males; fortalecer a religiosidade popular através da realidade e cultura do povo; e celebrar as lutas e esperanças do povo unindo fé e vida.

A VII Romaria da Terra e das Águas, realizada em Rio Branco dia 19 de agosto de 2007 à luz da Campanha da Fraternidade, teve como tema “Amazônia: Terra e Vida”. Destacou-se a celebração da vida na busca de uma maior consciência sobre nossa missão neste chão.

Os romeiros e romeiras, na grande caminhada celebrativa, reafirmaram o compromisso com a vida do povo, com suas lutas e resistências, suas riquezas e agressões causadas pelo modelo econômico, o egoísmo e a ganância, por falta de conhecimento do bioma desta região do Brasil. Neste sentido, o lema dessa Romaria foi “Cuidar deste chão é nossa missão”.

*Edição por Assessoria de Comunicação da CPT Nacional