COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

"Quero antes de mais nada, prestar uma homenagem a São Romero da América, mártir salvadorenho, assassinado em 1980, à filha desta terra Ir. Dorothy Stang, que tombou em defesa dos povos da floresta Amazônica, em 2005, e aos 1.833 homens e mulheres assassinados no campo brasileiro, desde 1985". Confira o discurso completo do presidente da CPT ao receber em nome da entidade o prêmio de Direitos Humanos Dom Oscar Romero 2017, no dia 28 de março, na Universidade de Dayton (EUA).

Confira Galeria de Fotos do evento aqui - crédito: Unversidade de Dayton

Em nome da CPT – Comissão Pastoral da Terra, saúdo carinhosamente cada um dos senhores e senhoras aqui presentes, especialmente os organizadores e promotores deste evento, de modo particular o Dr. Eric Spina, presidente desta Universidade de Dayton.

Quero antes de mais nada, prestar uma homenagem a São Romero da América, mártir salvadorenho, assassinado em 1980, à filha desta terra Ir. Dorothy Stang, que tombou em defesa dos povos da floresta Amazônica, em 2005, e aos 1.833 homens e mulheres assassinados no campo brasileiro, desde 1985.

A Comissão Pastoral da Terra completou em 2015, 40 anos de existência. Ela foi criada em 1975, durante um encontro de bispos, padres e agentes de pastoral da Amazônia em tempos de Ditadura Militar, como resposta à grave situação vivida pelos trabalhadores rurais e posseiros expulsos de suas terras e peões submetidos à condição análoga à de escravo.

Nasceu vinculada à Igreja Católica, mas logo adquiriu caráter ecumênico com a participação de outras Igrejas, como é o caso da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e a Igreja Metodista. O vínculo com as Igrejas deu cobertura aos trabalhos que foram sendo realizados em períodos de forte repressão.

Ao longo dos 40 anos, a entidade: apoiou, acompanhou e assessorou os povos da terra, das águas e das florestas; estimulou mulheres e homens do campo a se organizarem em associações e movimentos como o MST (Movimento Sem Terra), o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) e o MMC (Movimento das Mulheres do Campo), a lutarem por direitos e contra a violência. Presente em todo o país, a CPT está organizada em 21 Regionais e em 120 equipes de base; contando com 725 agentes de pastoral e 525 voluntários/as.

Sensíveis aos clamores dos povos da terra, das águas, e das florestas, homens e mulheres como Pedro Casaldáliga e Tomás Balduíno (ambos bispos), Chico Mendes, Irmã Dorothy, Pe. Josimo Tavares, Dom Luís Cappio, José Cláudio, Maria do Espírito Santo da Silva, Adelaide, Chicão Xucurú e Gringo, gritaram contra a escravidão dos trabalhadores do campo, defenderam os povos das florestas, lutaram em defesa da água e dos direitos dos posseiros e ainda, por uma Igreja em permanente luta pelo direito dos mais pobres. Alguns ainda estão entre nós, iluminando nossos caminhos e nossas ações, outros partiram, e alguns tombaram pelas armas impiedosas do poderoso latifúndio. Seu sangue regou o solo, reforçou nossa resistência e semeou e regou muitas sementes de esperança.

Desde o inicio, a CPT registra e denuncia os conflitos e a violência que envolve trabalhadores e trabalhadoras do campo. Hoje, dispõe de um rico acervo de documentos sobre este assunto. Anualmente, desde 1985, a CPT publica o relatório dos “Conflitos no Campo Brasil”. É um registro da história de luta de uma classe que secularmente foi explorada, excluída e violentada.

Este relatório se propõe a sensibilizar a sociedade diante do quadro dos conflitos e da violência que atingem homens e mulheres no campo e alimentar e reforçar a luta e a resistência dos próprios trabalhadores. Desde que se começou a publicar este caderno, em 1985, foram registrados 1.833 assassinatos, entre eles estão defensores de direito, camponeses e lideranças em luta pelo território e pela reforma agrária.

O ano de 2016 deixou uma marca de retrocesso pelo país; enquanto os holofotes estavam voltados para o Planalto em Brasília, na planície, isto é, no campo brasileiro, os indígenas, os quilombolas, os posseiros, os pescadores artesanais, e tantas outras comunidades tradicionais, foram abandonados à própria sorte. Inclusive, com a ameaça da desconstrução de direitos adquiridos na Constituição cidadã de 1988.

O latifúndio passou a reagir de maneira mais violenta contra as ocupações e retomadas, inclusive fortalecendo o seu combate, utilizando-se de milícias armadas. Aliado às bancadas ruralista, da bíblia e da bala, o latifúndio se fortaleceu e partiu para cima dos camponeses e indígenas com unhas e dentes, fazendo em 2016, 61 vítimas. Destas, 49 aconteceram na região amazônica. Rondônia disparou no ranking com 21 assassinatos.

A impunidade tem sido uma das causas que, em nosso país, vai gerando uma cadeia de violência. Podemos dizer que, no mínimo, o judiciário brasileiro tem sido omisso, se limitando apenas a julgar e condenar os criminosos diretamente envolvidos (os assassinos) e deixando passar ilesos ao menos 90% dos mandantes.

Percebe-se uma clara cumplicidade entre os poderes constituídos, especialmente o judiciário, o latifúndio e o agronegócio. Os pequenos são julgados e condenados e os grandes continuam a fazer o que bem entendem.

Constata-se que a intensificação dos conflitos, está situada onde há expansão do agronegócio, da mineração e das grandes obras de infraestrutura. Neste momento, um dos grandes desafios para o campesinato brasileiro é a privatização e a “estrangeirização” das terras, além do MATOPIBA que é o programa do Governo Federal que coloca à disposição do agronegócio, nada mais nada menos do que 75 milhões de hectares, situados, sobretudo, nas regiões do cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Esta nova fronteira agrícola se constitui uma grande ameaça, não só para os territórios dos povos originários e para as comunidades tradicionais, mas também a toda rica e vasta biodiversidade presente nestes 4 estados. Em vista de maior produção de commodities para a exportação e para o seu escoamento, está sendo ampliada a infraestrutura com mais rodovias, ferrovias e hidrovias. Nesta pauta estão previstos novos portos e aeroportos, sendo que alguns serão ampliados. Tudo isso, desestabilizará as comunidades dos territórios e trará consequências funestas a toda biodiversidade, especialmente para a fauna e a flora.

É mergulhados nesta realidade do anti-reino, que como pastores entre lobos, somos chamados como profetas a cuidar das ovelhas, anunciando-lhes a Boa Nova do Reino, que é de justiça, de amor e de paz. Alimentados pela utopia de um novo céu e uma nova terra, e solidários com homens e mulheres de boa vontade, continuaremos lutando e resistindo para que a terra seja de todos, e para que na Casa Comum, haja espaço de vida plena não só para o ser humano, mas para todas as criaturas.

Em sintonia com o Papa Francisco “não deixaremos que nos roubem a esperança” e continuaremos a ser mensageiros do Reino de Jesus de Nazaré, anunciando o evangelho da Alegria, comprometidos com o cuidado da Casa Comum, defendendo sempre a integridade da criação, contemplando a beleza e a diversidade dos nossos povos e dos biomas que formam o território brasileiro.

Em sintonia com o Papa Francisco, "não os deixaremos roubar a nossa esperança" e continuaremos a ser os mensageiros do Reino de Jesus de Nazaré, anunciando o Evangelho da Alegria, comprometido com os cuidados da Casa Comum, sempre defendendo a Integridade da criação, contemplando a beleza e a diversidade de nossos povos, bem como dos biomas, que compõem o território brasileiro.

Na economia global, a agricultura está submetida à lógica dos mercados e das Bolsas e nossa vida quotidiana é cada vez mais mediada por tecnologia. No entanto, a terra permanece como o que subjaz à universalidade dos direitos, pois todos nós, seres humanos, chamamo-nos e somos assim porque nascemos do mesmo húmus, da mesma terra.

A irmã Dorothy é testemunha impar a nos lembrar sempre que a terra é mais que a terra, que não é uma mercadoria e muito menos uma variável financeira - como urubus da grilagem de terra costumam considerar - mas um valor sagrado a ser protegido, uma exigência para a afirmação da dignidade humana, "matéria-prima" e fonte viva da cultura e identidade dos povos.

Irmã Dorothy e Oscar Romero, ambos canonizados no coração de nossos povos, deixaram preciosa mensagem para aqueles que ainda repetem o refrão de que a Igreja deve abster-se da política para se dedicar às "coisas do Céu", pregando um espiritualismo anestesiante, que nada tem a ver com Jesus Cristo e com o Evangelho. O verdadeiro cristão, ao contrário, é aquele que se compromete com toda a força para tornar o mundo, ou melhor: a terra, mais habitável hoje e sempre, defendendo os direitos, especialmente os direitos dos pobres e marginalizados.

Todos os direitos para todos! Sigamos os ideais que inspiraram nossos proféticos defensores do direito dos povos, no caminho de Bartolomeu de Las Casas, Francisco de Vitória, Martin Luther King, Oscar Romero, Dorothy.

Honrada e profundamente agradecida por este "Prêmio Óscar Romero", a CPT continuará cuidando da Casa Comum e dos nossos irmãos e irmãs mais necessitados e marginalizados, quer nativos ou migrantes, comprometida com o testemunho evangélico do “Anjo da Amazônia”, irmã Dorothy, e do “Pastor Fiel”, Monseñor Romero.

Enquanto lutarmos pela justiça e pelo direito, eles permanecerão vivos, caminhando ao nosso lado. Para sempre!

Dorothy, presente! Oscar Romero, presente!

Obrigado!

Dom Enemesio Lazzaris, bispo de Balsas (Maranhão, Brasil), presidente da CPT

 

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