COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

Ninguém consegue calar a voz da profecia!

40 anos se passaram do martírio de Dom Oscar Romero, naquele fatídico 24 de março de 1980.

 ANTÔNIO CANUTO* 

Sua palavra forte e clara na defesa do seu povo não era tolerada pelas forças dominantes. Por isso o quiseram calar. Mas ninguém consegue calar a força da profecia. Com sua morte, sua palavra se espalhou pelo mundo afora. 

O povo imediatamente o reconheceu como santo. 

A Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu o valor e a importância de sua vida e atuação em defesa dos Direitos Humanos e proclamou o dia de sua morte, 24 de março, como o Dia Internacional pelo Direito à Verdade acerca das Graves Violações dos Direitos Humanos e à Dignidade das Vítimas. 

A Igreja oficial se mostrou reticente. Somente 38 anos após seu martírio é que foi reconhecido como santo. Foi canonizado pelo papa Francisco no dia 14 de outubro de 2018. 

 Um pouco da sua história 

Dom Oscar Romero, desde 1970 era bispo, primeiro auxiliar de San Salvador e depois bispo da Diocese de Santiago de Maria. Por seu perfil conservador, foi nomeado, no dia 3 de fevereiro de 1977, como arcebispo de San Salvador. 

Já no mês seguinte, em março de 1977, seu amigo, o Padre Rutílio Grande e dois camponeses foram assassinados pelas forças da repressão. Esta morte provocou a conversão de Dom Romero. A partir de então passou a denunciar as injustiças sociais em programas de rádio e pela imprensa. Suas intervenções conseguiram grande penetração popular e passou a ser conhecido como “A Voz dos sem voz”. Suas homilias eram carregadas de profecia. Cada vez mais pessoas acorriam às missas que ele celebrava para ouvir suas pregações. 

Era preciso calar esta voz. E assim no dia 24 de março de 1980, durante a celebração de uma missa, foi morto por atirador de elite do exército salvadorenho, treinado na Escola das Américas, nos Estados Unidos. Em 1992, uma investigação conduzida pela ONU concluiu que o autor intelectual de sua morte foi o político e ex-oficial do Exército, Roberto D’Aubuisson. Nada melhor para comemorar estes 40 anos de glorioso martírio do que reproduzir o poema que Pedro Casaldáliga escreveu em sua memória. 


São Romero de América, Pastor e Mártir nosso
 

O anjo do Senhor anunciou na véspera... 
O coração de El Salvador marcava 24 de março e de agonia. 
Tu ofertavas o Pão, o Corpo Vivo - o triturado corpo de teu Povo; 
Seu derramado Sangue vitorioso - o sangue “campesino” de teu Povo em massacre, que há de tingir em vinhos de alegria a aurora conjurada! 
O anjo do Senhor anunciou na véspera, e o Verbo se fez morte, outra vez, em tua morte; como se faz morte, cada dia, na carne desnuda de teu Povo. 
E se fez vida nova em nossa velha Igreja! Estamos outra vez em pé de testemunho, São Romero de América, pastor e mártir nosso! Romero de uma paz quase impossível nesta terra em guerra. Romero em flor morada da esperança incólume de todo o Continente. Romero da Páscoa latino-americana. Pobre pastor glorioso, assassinado a soldo, a dólar, a divisa. 
Como Jesus, por ordem do Império. Pobre pastor glorioso, abandonado por teus próprios irmãos de báculo e de Mesa...! (As cúrias não podiam entender-te: nenhuma sinagoga bem montada pode entender a Cristo). 
Tua “pobreria” sim te acompanhava, em desespero fiel, pasto e rebanho, a um tempo, de tua missão profética. O Povo te fez santo. A hora do teu Povo te consagrou no kairós. 
Os pobres te ensinaram a ler o Evangelho. Como um irmão ferido por tanta morte irmã, tu sabias chorar, a sós, no Horto. 
Sabias ter medo, como um homem em combate. Porém sabias dar à tua palavra, livre, o seu timbre de sino! 
E soubeste beber o duplo cálice do Altar e do Povo, com uma só mão consagrada ao serviço. América Latina já te elevou à glória de Bernini na espuma-aureola de seus mares, no retábulo antigo de seus Andes alertas, no dossel irado de todas as suas florestas, na cantiga de todos os seus caminhos, no calvário novo de todos os seus cárceres, de todas as suas trincheiras, de todos os seus altares... 
Na ara garantida do coração insone de seus filhos! 
São Romero de América, pastor e mártir nosso: ninguém há de calar tua última homilia! 

Pedro Casaldáliga

 *Colaborador do Setor de Comunicação da Secretaria Nacional da CPT

 

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