Gênero e Trabalho de Base são pilares de formação para mulheres do Cerrado da Bahia
Encontro de Mulheres do Vicariato Rainha dos Mártires reflete violência de gênero e o trabalho pastoral dos tempos bíblicos aos dias atuais
Por Júlia Barbosa | Comunicação Nacional da CPT

“Nós, mulheres, somos como a terra:
a chuva vem chegando e a terra sente,
começa a pulsar e a florir. E nós, mulheres,
geradoras de vida, assim nos sentimos”
No mês de novembro, na cidade de Piripá, na Bahia, cerca de setenta mulheres estiveram reunidas para o I e II Encontro de Mulheres do Cerrado do Vicariato Rainha dos Mártires. A última atividade foi motivada pelo tema “Trabalho de base: novos tempos, novas metodologias – os desafios da organização das juventudes e mulheres”. Esse grupo de mulheres, mobilizado pela Equipe CPT Sul Sudoeste da Bahia, participa hoje de uma formação em quatro módulos, e já concluiu, além dessa segunda formação, o primeiro eixo, com a temática “Violência de gênero: os impactos na vida das mulheres – políticas públicas para enfrentamento a violência”.
Gênero

A formação teve início com uma mística realizada pelas mulheres da Comunidade Cordeiros, inspiradas por um texto bíblico, que fizeram memória às mulheres da Bíblia. Na leitura fundamentalista do livro sagrado, as mulheres são colocadas em um lugar de silenciamento, mas a mística reforçou que na missão política de Jesus as mulheres sempre estiveram ao seu lado. Com a mística, as camponesas lembraram que as mulheres da Bíblia, quando tiveram contato com Jesus ou com sua missão, não retornaram para suas realidades, decidiram por anunciar o evangelho. E assim seguem as mulheres: anunciando o Bem Viver.
Após essa acolhida, a agente pastoral Jaine Miranda, da CPT Bahia, fez uma breve análise de conjuntura, contextualizando o cenário internacional e nacional das lutas em defesa das mulheres. A dinâmica se deu com uma análise participativa, em que as mulheres e as jovens presentes compartilharam suas experiências e vivências em suas realidades locais. “Ficamos encantadas com tantas experiências e partilhas. As mulheres da Bíblia, nos seus desafios, superaram e venceram grandes batalhas, e não são diferentes as lutas que a gente trava nas nossas bases, nos nossos territórios, mas estamos juntas para superar esses desafios”, expressou Terezinha Guimarães, de Condeúba (BA).
A formação contou ainda com a assessoria de Irmã Cleusa Alves, historiadora e assessora da Cáritas, que refletiu a Bíblia como uma colcha de retalhos, com uma diversidade de escritas e olhares, e que portanto é preciso estudá-la com cuidado. A religiosa reforçou ser necessário “trocar os óculos” para enxergar o que de fato está escrito, livre da leitura enviesada pelo machismo. Enxergar as mulheres na bíblia, concluiu, é mudar a lógica da escrita e da interpretação, sendo necessário entender e reinterpretar a mulher em cada texto bíblico dentro de seu tempo histórico. A partir dessa visão popular e feminista da bíblia, a leitura não será mais a mesma, garantiu, pois é libertadora, capaz de refletir a violência contra as mulheres nos dias atuais.

“Osso do meu osso, carne da minha carne” Gênesis, Capítulo 2, 18-23. Essa passagem bíblica, reverberada durante o encontro, garante que homens e mulheres, todas as criações divinas, estão em profunda conexão, igualdade e complementaridade, e não em superioridade em relação a outra. “A história da humanidade é a história da luta de classes”, lembrou uma das mulheres participantes, e avaliou que, a partir da divisão de classes e da acumulação de riqueza, a qual as mulheres foram privadas, elas foram condenadas com a única função de reproduzir. “É preciso pensar o projeto original da Criação: homens e mulheres são iguais!”, expressou.
A partir dos diálogos, foi reafirmada a compreensão coletiva de que falar sobre feminismo não representa uma oposição aos companheiros homens, mas a superação do patriarcado e do machismo que violentam e subjugam as mulheres em suas casas, em seus territórios, suas comunidades, no trabalho e na vida política, e que se reproduzem em todas as dimensões da vida feminina. Pensar o feminismo, popular e diverso, é fortalecer a cumplicidade e solidariedade entre as mulheres, como uma ferramenta estratégica para derrotar a divisão e competição entre estas, possibilitando a construção de uma nova sociedade. “O feminismo é a possibilidade das mulheres resgatarem sua humanidade, é ser gente, um ser que deseja e sonha”, expressou uma companheira.
Trabalho de Base

Já o segundo encontro, realizado em novembro, com tema “Trabalho de base: novos tempos, novas metodologias – os desafios da organização das juventudes e mulheres”, foi assessorado por Ana Célia, da Comunidade Tremedal (BA), que refletiu sobre a importância de fortalecer o trabalho e os movimentos de base. “O trabalho de base não pode ficar pelo caminho. Ele perdeu força, mas a gente pode, juntas, tornar esse nosso trabalho bem mais eficaz nos dias de hoje”, constatou Terezinha, de Condeúba (BA).
Na reflexão sobre o trabalho de base e pastoralidade, foi ressaltada a importância de se voltar para a leitura bíblica como fonte de elementos para a luta popular, com a necessidade de se fazer uma leitura popular da bíblia dentro das comunidades, respaldando no livro sagrado suas lutas por acesso e permanência na terra e condições dignas de vida e trabalho.
Maria Marta, da Comunidade Matanza, em Tremedal (BA), refletiu sobre a importância desses momentos formativos: “O segundo encontro foi um fortalecimento do trabalho de base. As partilhas, as trocas de experiências vividas pelas mulheres e os desafios apresentados por cada uma são sinais de resistência, de fé, de esperança e da necessidade de continuarmos juntas na luta por uma sociedade justa e igualitária”, afirmou. E concluiu: “Esses encontros nos animam no caminhar, no trabalho pastoral e comunitário, na sociedade e na vida em todos os sentidos”.

Para Vera Borges, também de Tremedal (BA), esses encontros fortalecem as mulheres em suas vidas, seus trabalhos e suas lutas: “A cada etapa tem sido muito enriquecedor, nos faz mais fortes como mulheres diante dessa sociedade discriminatória e misógina. Através desses encontros, a mulher se faz mais determinada, realizada e conhecedora dos seus direitos. É um enriquecimento da sabedoria e da busca constante das mulheres”, expressou às companheiras.
Os encontros têm sido pilares de motivação e movimento, com a consciência de que o importante é caminhar juntas e caminhar sempre, como refletiu Terezinha: “Esses encontros de mulheres são espaços para nós, para falarmos das nossas conquistas, de buscar novos horizontes e caminhar sempre”.


