Amazônia Legal concentra mais da metade dos conflitos e dos assassinatos no campo em 2025
Assessoria de Comunicação CPT

Das 1.593 ocorrências de conflitos no campo registradas pela CPT ao longo de 2025, foram registradas 824 ocorrências na Amazônia Legal, o que representa mais da metade dos registros de todo o país. A região compreende os sete estados da Região Norte, além de Mato Grosso e parte do estado do Maranhão.
Dos 10 estados com maior número de conflitos registrados em todo o país, 7 estão nesta região: Maranhão (209), Pará (179), Rondônia (129), Amazonas (98), Acre (75), Tocantins (70) e Mato Grosso (63). Completam a lista os estados do Amapá (38) e Roraima, com 27 registros. No caso do Maranhão, 145 conflitos foram registrados na área de transição da Amazônia Maranhense, o que corresponde a quase 70% do total de registros no estado.
Quase 87% dos conflitos (714) são por terra, seguidos de conflitos por água (72) e 38 registros de trabalho escravo rural.
Conflitos por terra na Amazônia em 2025
Dentre os 714 registros de conflitos por terra, o Pará lidera as estatísticas, concentrando 20% do total, com 145 ocorrências, seguido do Maranhão, com 132 casos, e o Amazonas, com 89.
Municípios como Boca do Acre (AM), Santarém (PA), Porto Velho (RO), Timbiras (MA), Acrelândia e Rio Branco (AC) lideram em registros de conflitos por terra. As áreas estão ligadas ao chamado “Arco do Desmatamento”, marcado pelo avanço da fronteira agropecuária e grandes empreendimentos em rodovias, ferrovias e mineração, agravando as violências contra a ocupação e a posse da terra.

Apesar de a maioria dos registros terem apresentado redução, as violências contra a ocupação e posse da terra continuam elevadas na região amazônica. É o caso das invasões (131 ocorrências), ameaças de expulsão (119) e desmatamento ilegal (102). A contaminação por agrotóxicos, mesmo tendo uma redução em relação ao recorde de 2024 (de 136 para 77 registros), segue com o segundo maior índice dos últimos dez anos.

Dentre os conflitos que tiveram aumento nos registros, está a omissão e conivência, que saltou de 132 para 145 ocorrências. Este conflito é identificado quando o poder público – no âmbito dos governos federal, estaduais e municipais – não age na garantia de direitos básicos, a exemplo da não demarcação de terras indígenas e não titulação de territórios quilombolas.
Conflitos por água
Nos conflitos por água, foram registrados 72 casos, incluindo violências como tentativas de assassinato e intimidação. O Pará também lidera, com 21 ocorrências, seguido de Rondônia, com 12, e Tocantins, com 11.
Dentre os principais agentes causadores de violências no acesso e uso da água, estão garimpeiros, empresários, fazendeiros, hidrelétricas e mineradoras. Já dentre as comunidades que sofrem as violências, estão indígenas, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas, assentados, pescadores e outras populações.
A maior parte dos conflitos por água na Amazônia Legal está ligada ao uso e preservação, e a relação com barragens e açudes, sendo as principais situações de destruição e/ou poluição das águas, contaminação por minério e por agrotóxicos, diminuição e impedimento no acesso à água e a pesca predatória.
Trabalho Escravo Rural
Os dados sobre trabalho escravo na Amazônia Legal também são expressivos: 780 trabalhadores foram resgatados em 38 operações contra situações degradantes e ilegais de trabalho. Na comparação com 2024, o número mais que triplicou – foram 185 resgates no ano anterior.

As principais atividades em que estes trabalhadores estavam envolvidos estão ligadas à floresta, como garimpo, derrubada de madeira, colheitas de cacau e produção de carvão. A maior parte dos resgates ocorreu em atividades como criação de gado de corte e de leite, abertura e manutenção de pastagens, roçagem e construção de cercas – tarefas diretamente relacionadas à expansão da fronteira agropecuária. Foram 14 registros nessas atividades, nos estados do Pará, Tocantins e Mato Grosso.
A região de origem destes trabalhadores consta em uma pequena parte dos registros, mas é possível identificar alguns estados como Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins, além do país vizinho Venezuela, demonstrando que, em grande medida, o aliciamento das vítimas e o fluxo interno do tráfico de pessoas acontece na própria região amazônica.
Violência contra a Pessoa
Foram registradas 776 ocorrências de violência contra a pessoa, que atingiram 419 vítimas. Entre os tipos mais recorrentes, salta aos olhos o alto número de humilhações, com 142 casos, seguido de cárcere privado, com 104, e prisões, com 73.
Dos 26 registros de assassinatos ocasionados em conflitos no campo em todo o país no ano de 2025, mais da metade (16) ocorreram na Amazônia Legal, incluindo os dois casos de massacres, cada um com 3 mortes, nos estados do Pará e de Rondônia. O registro equivale ao dobro de assassinatos registrados em 2024, quando 8 pessoas tombaram diante da violência no campo. Os assassinatos foram concentrados em três estados: Rondônia e Pará, com 7 casos cada, e Amazonas, com 2 registros.
Outras violências também preocupam, como intimidação (133 registros), ameaças de morte (85) e tentativas de assassinato (39), demonstrando um cenário de agravamento dos conflitos que pode resultar em outras mortes.
Dentre os agentes causadores de violência contra a pessoa, os fazendeiros são apontados como responsáveis por 14 assassinatos. As outras duas mortes estão relacionadas a conflitos com policiais e madeireiros. Entre as vítimas, estão trabalhadores sem terra, posseiros, pescadores, servidores públicos e integrantes de organizações não governamentais.
Um dos casos envolveu uma disputa por terra no acampamento Marielle Franco, em Lábrea (AM), entre camponeses que reivindicam a posse do território e fazendeiros da Fazenda Palotina. O conflito resultou na morte de José Jacó Cosotle (Jacozinho), de 55 anos, em janeiro de 2025.
No mesmo município, às vésperas do lançamento do relatório, um novo episódio de violência reforçou a gravidade do cenário no campo. Na noite do sábado (25 de abril), três pessoas foram mortas em uma emboscada na Gleba Recreio do Santo Antônio, no sul de Lábrea, na divisa entre Amazonas e Acre. Antônio Renato, Josias Albuquerque de Oliveira e o adolescente Arthur Henrique Ferreira Said estavam em uma caminhonete quando foram atacados por homens armados. O caso ocorreu em uma área já marcada por conflitos fundiários e crimes ligados à disputa por terra. Confira Nota publicada pela CPT Acre.
Ações de resistência
Se, por um lado, a violência é uma realidade constante, as resistências populares também foram presentes na Amazônia. Foram registradas 10 ocupações no Pará, Tocantins e Rondônia, 1 retomada indígena no Pará e 2 acampamentos no Amazonas e Tocantins.
O ano também foi marcante tanto nas mobilizações contra o PL da Devastação e o Marco Temporal quanto durante a Conferência sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), sediada em Belém/PA. Ao todo, foram registradas 189 manifestações de luta, reunindo pelo menos 115 mil pessoas.

As manifestações tiveram expressiva participação dos povos indígenas, que se ergueram contra os mega empreendimentos de infraestrutura, energia e transportes, que têm ameaçado a permanência das comunidades tradicionais em seus territórios. As manifestações tiveram várias modalidades: barqueatas, caminhadas, marchas, ocupações de prédios públicos, romarias e bloqueios de rodovias, hidrovias e ferrovias, dentre outras.
Clique e confira a página “Vozes da Terra na COP 30”.
AMACRO, um dos focos de acirramento de conflitos no campo na Amazônia em 2025
Na região compreendida entre as divisas dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia, marcada pela especulação e avanço de empreendimentos do agronegócio na Amazônia, foram registrados, em 2025, 195 conflitos no campo em apenas 27 municípios, o que demonstra uma alta concentração da tensão e violência nesta fronteira. Do total, são 186 conflitos por terra, 7 conflitos por água e 2 conflitos trabalhistas.
Além dos 6 assassinatos, chamam a atenção as ameaças de expulsão (69 ocorrências), invasão (32), pistolagem (26), desmatamento ilegal (21), ameaças de despejo (20), além de omissão e conivência, com 18 conflitos.
Relatório
Elaborado anualmente pela CPT desde 1985, com a primeira publicação em 1986, o relatório Conflitos no Campo Brasil é uma fonte de pesquisa para universidades, veículos de mídia, agências governamentais e não-governamentais. O relatório é construído, principalmente, a partir do trabalho de agentes pastorais da CPT, nas equipes regionais que atuam em comunidades rurais por todo o País, além da apuração de denúncias, documentos e notícias, feita pela equipe de documentalistas do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc-CPT) ao longo do ano.
Atendimento Imprensa: Carlos Henrique Silva: (62) 99453-9629
Para solicitar os dados brutos, entre em contato com a Assessoria de Comunicação: comunicacao@cptnacional.org.br ou comunicacaocpt@gmail.com.


