Amazonas registra 98 conflitos no campo em 2025, com mais de 116 mil pessoas de 24 mil famílias afetadas

CPT Amazonas apresentou os dados de Conflitos no Campo 2025 nesta terça-feira, 09, no Centro de Formação Maromba, da Arquidiocese de Manaus. Foto: CPT Amazonas
CPT Amazonas apresentou os dados de Conflitos no Campo 2025 nesta terça-feira, 09, no Centro de Formação Maromba, da Arquidiocese de Manaus. Foto: CPT Amazonas

O Amazonas registrou 98 ocorrências de conflitos no campo em 2025, envolvendo 116.415 pessoas, segundo dados apresentados nesta terça-feira, 9, durante o lançamento do relatório Conflitos no Campo Brasil 2025 no estado, elaborado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). O relatório reúne informações sobre disputas territoriais, violações de direitos e violência contra povos indígenas, posseiros e comunidades tradicionais, apontando que os conflitos estão diretamente relacionados à disputa por terra, água e recursos naturais no Estado.

A publicação integra o relatório nacional produzido anualmente pela CPT desde 1985 por meio do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc/CPT). No Amazonas, o lançamento teve como objetivo destacar as especificidades da violência rural no Estado, considerado uma das regiões mais pressionadas por interesses econômicos ligados à expansão fundiária, exploração de recursos naturais e grandes empreendimentos.

Durante a apresentação dos dados, representantes da CPT ressaltaram que os números refletem situações concretas enfrentadas por comunidades rurais e tradicionais. A entidade informou que os povos indígenas foram o grupo social mais atingido, aparecendo em 42 conflitos, enquanto os posseiros estiveram envolvidos em 31 ocorrências.

Os dados afirmam que os povos indígenas foram o grupo social mais atingido pelos conflitos no campo no Amazonas, enquanto os posseiros apareceram em segundo lugar. Foto: CPT Amazonas
Os dados afirmam que os povos indígenas foram o grupo social mais atingido pelos conflitos no campo no Amazonas, enquanto os posseiros apareceram em segundo lugar. Foto: CPT Amazonas

“Os dados que serão expostos aqui nesse telão, em formatos de estatística, não são apenas números. São Mártires da Caminhada. Cada número representa um exemplo. Cada número representa alguém que amou e foi no recorde do Amazonas em 2025, foram registradas 98 ocorrências de conflitos do canto e essas ocorrências envolveram 116.415 pessoas, o que mostra que a gestão agrária e socioambiental no Amazonas atinge muitas famílias e comunidades também”, afirmou Sara Negreiros Nascimento, da CPT Prelazia de Itacoatiara.

Segundo ela, os registros demonstram que os conflitos estão associados a interesses econômicos e territoriais, atingindo principalmente populações que dependem diretamente da floresta, dos rios e da terra para garantir sua sobrevivência. A representante destacou ainda que a disputa territorial permanece como um dos principais fatores estruturantes da violência rural na Amazônia.

Disputa por terra concentra maior parte dos registros

Os conflitos fundiários representam a maior parcela dos casos contabilizados pela CPT. Dos 98 registros totais, 89 ocorreram por disputas relacionadas à terra, sendo que 88 envolveram violência direta contra a ocupação e a posse, afetando 23.963 famílias em diferentes municípios amazonenses.

Entre as formas de violência mais recorrentes aparecem ameaças de expulsão, registradas em 31 casos, além de episódios de pistolagem, invasões de territórios, desmatamento para descaracterização de áreas ocupadas e ações destinadas a enfraquecer a permanência das comunidades em seus territórios.

O relatório também chama atenção para a existência de 17 casos classificados como omissão e convivência das autoridades públicas, categoria utilizada para registrar situações em que o Estado deixa de agir diante de violações ou não adota medidas suficientes para interromper os conflitos.

A análise dos agentes apontados como causadores dos conflitos mostra que os fazendeiros aparecem em primeiro lugar, relacionados a 42 ocorrências. Na sequência surgem empresários, com 18 registros, além do governo federal, citado em 10 casos, e do governo estadual, em cinco ocorrências. Madeireiros, mineradoras e garimpeiros também figuram entre os agentes associados aos conflitos.

Para Francisco Alan Lima, da Articulação das CPT’s da Amazônia, os números refletem apenas parte da realidade encontrada nos territórios. Ele explicou que a CPT utiliza dados coletados diretamente por seus agentes e também informações obtidas junto a movimentos sociais, órgãos públicos e registros oficiais.

“De fato, esse ponto, a gente vai ver que a nível de Brasil nós tivemos numa diminuição dos conflitos no campo, mas não é o retrato da realidade. Nós temos povos hoje que não são escutados e que têm grandes empreendimentos, inclusive do próprio Estado brasileiro, na construção de usinas, o protocolo de consulta dessas comunidades que não são respeitadas”, disse.

Segundo ele, a entidade recebe constantemente relatos sobre destruição de roças, pulverização de venenos, ameaças e expulsões de famílias. O representante afirmou ainda que questões como a demora na demarcação de terras indígenas e a permanência de áreas públicas sob ocupação irregular contribuem para a continuidade dos conflitos.

Queda nos registros não reduz alcance dos conflitos

A comparação entre os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de 2024 e 2025 mostra uma redução no número total de conflitos no campo registrados no Amazonas, mas indica a permanência de um cenário de forte pressão sobre comunidades rurais, povos indígenas e posseiros. Em 2024, foram contabilizadas 132 ocorrências. Já em 2025, o número caiu para 98 casos, o que representa uma redução de 25,76%.

Apesar da diminuição quantitativa, os dados apontam que a estrutura dos conflitos permaneceu praticamente inalterada. Os fazendeiros continuaram liderando os registros como principais agentes causadores, associados a 42 ocorrências em 2025, seguidos pelos empresários, com 18 casos. A disputa pela terra segue como principal foco das tensões no Estado.

Os conflitos fundiários passaram de 119 registros em 2024 para 89 em 2025, uma queda de 25,21%. No entanto, o impacto social dessa violência apresentou pouca variação. O número de famílias atingidas recuou de 24.518 para 23.963 no mesmo período, redução de apenas 2,26%, indicando que os conflitos registrados continuaram alcançando um grande contingente populacional.

Entre as formas de violência mais recorrentes em 2025 estão as ameaças de expulsão, presentes em 31 ocorrências, além dos casos classificados como omissão e convivência das autoridades públicas, registrados em 17 situações. Segundo a metodologia da CPT, essa categoria é utilizada para apontar falhas do Estado em impedir agressões ou situações em que agentes públicos atuam de forma indireta em favor dos responsáveis pelos conflitos.

Sul do Amazonas concentra áreas mais críticas de conflitos no campo em 2025

A distribuição geográfica dos registros revela forte concentração da violência fundiária no sul do Estado. Boca do Acre lidera o ranking com 38 conflitos por terra, número que o coloca como principal foco de tensão agrária no Amazonas. Logo depois aparece Lábrea, com 10 ocorrências, seguida por Benjamin Constant, Manaus e São Paulo de Olivença, todos com cinco registros cada. O município de Jutaí contabilizou quatro ocorrências.

Além das disputas territoriais, a CPT identificou sete conflitos relacionados à água, que atingiram 5.100 famílias. As ocorrências envolvem problemas como poluição e destruição de mananciais, contaminação por resíduos de minério, pesca predatória e restrições de acesso aos recursos hídricos utilizados pelas comunidades.

Os casos foram registrados em municípios como Santo Antônio do Içá, Itacoatiara, São Paulo de Olivença, Barcelos, Coari, Codajás, Maraã, Tabatinga, Presidente Figueiredo e Novo Airão. De acordo com a CPT, os dados indicam que o Alto Solimões e o Sul do Amazonas figuram entre as regiões de maior vulnerabilidade para populações rurais e indígenas.

O relatório também contabilizou duas ocorrências de trabalho escravo rural, que resultaram no resgate de 25 trabalhadores. Os casos foram registrados nos municípios de Borba e Maués e, segundo a CPT, estavam vinculados exclusivamente a atividades relacionadas ao garimpo de ouro.

A coordenadora nacional da CPT, Maria Petrolina Neto, destacou que a redução de ocorrências observada em alguns indicadores nacionais não necessariamente representa diminuição da violência. “A gente percebe que que houve uma redução das ocorrências, mais uma duplicidade de 100% do número de assassinatos. Então, de certa forma, isso pode ser um retrato de uma redução falsa dessas ocorrências de conflito, que na verdade pode ter sido um cerco, uma investida a esses sujeitos que preferiram recuar diante de tanta violência”, afirmou.

Maria Petrolina Neto, da Coordenação Nacional, destacou que a redução de ocorrências de conflitos no campo em 2025 não necessariamente representa diminuição da violência. Foto: CPT Amazonas
Maria Petrolina Neto, da Coordenação Nacional, destacou que a redução de ocorrências de conflitos no campo em 2025 não necessariamente representa diminuição da violência. Foto: CPT Amazonas

Ela observou que o número de assassinatos relacionados aos conflitos no campo dobrou no País entre 2024 e 2025, passando de 13 para 26 casos. Segundo a coordenadora, parte desse cenário pode estar relacionada à concretização de ameaças anteriormente registradas contra trabalhadores e comunidades rurais.

Durante o lançamento do relatório, o arcebispo de Manaus e primeiro cardeal da Amazônia, Dom Leonardo Steiner, destacou o papel histórico dos documentos produzidos pela CPT e pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) na visibilização das violações de direitos na região. “Quando nós lemos esses documentos, nós não estamos lendo apenas documentos como já foi dito, mas nós estamos lendo vidas. Silenciadas mas que de novo nesses documentos nós tornamos audíveis e visíveis”, declarou.

O religioso afirmou que os relatórios cumprem uma função de denúncia e memória ao registrar situações de violência enfrentadas por povos indígenas, trabalhadores rurais e comunidades tradicionais em diferentes regiões da Amazônia.

Dom Leonardo Steiner destacou o papel histórico dos documentos produzidos pela CPT e pelo Cimi para visibilizar das violações de direitos na região amazônica. Foto: CPT Amazonas
Dom Leonardo Steiner destacou o papel histórico dos documentos produzidos pela CPT e pelo Cimi para visibilizar das violações de direitos na região amazônica. Foto: CPT Amazonas

Conflitos por água ampliam impacto social e acendem alerta

Os conflitos relacionados ao acesso e uso da água apresentaram um dos cenários mais preocupantes identificados pela CPT. Embora o número de ocorrências tenha diminuído de 10 casos em 2024 para sete em 2025, o alcance social desses episódios aumentou significativamente no Amazonas.

Em 2024, os conflitos hídricos atingiram 1.918 famílias. No ano seguinte, esse contingente saltou para 5.100 famílias, representando um aumento de 165,9% no número de pessoas impactadas. Os registros estão associados a situações como destruição de mananciais, contaminação por resíduos de minério e restrições ao acesso aos recursos hídricos utilizados por comunidades tradicionais.

O levantamento também identificou mudanças no perfil do trabalho escravo rural. Em 2024, foram registradas três ocorrências, com 103 trabalhadores resgatados. Em 2025, houve duas ocorrências e 25 resgates. Embora os números indiquem redução de 75,72% no total de trabalhadores libertados, a CPT destaca que todos os casos registrados no último ano estavam vinculados ao garimpo de ouro nos municípios de Borba e Maués.

Durante a apresentação do levantamento, representantes da Igreja e das pastorais sociais defenderam mais atenção às populações afetadas. A coordenadora colegiada da CPT no Amazonas, Ana Virgínia Monteiro, destacou que os números representam pessoas e famílias que vivem situações de vulnerabilidade.

“Nós precisamos olhar para o caderno não como apenas estatística, mas que são vidas que têm nome e têm histórias, têm famílias. Vale ressaltar que hoje também recebemos a notícia do resgate de 50 trabalhadores em Maués, resgatados em condições análogas à escravidão, em situações extremamente vulneráveis, em minas de garimpo ilegal”, destacou Ana Virgínia.

O relatório também registra 36 vítimas de violência contra a pessoa, entre agressões, ameaças, ferimentos e tentativas de assassinato. Dois posseiros morreram em conflitos nos municípios de Boca do Acre e Lábrea. 

A distribuição territorial dos conflitos reforça a concentração da violência em determinadas regiões do Estado. Boca do Acre permaneceu como o principal foco de tensão agrária, acumulando 38 conflitos por terra em 2025. Lábrea aparece em seguida, com 10 registros, enquanto Manaus, Benjamin Constant e São Paulo de Olivença contabilizaram cinco ocorrências cada, consolidando o sul do Amazonas e o Alto Solimões entre as áreas de maior atenção para organizações de direitos humanos e órgãos de fiscalização.

CPT Amazonas apresentou os dados de Conflitos no Campo 2025 nesta terça-feira, 09, no Centro de Formação Maromba, da Arquidiocese de Manaus. Foto: CPT Amazonas
CPT Amazonas apresentou os dados de Conflitos no Campo 2025 nesta terça-feira, 09, no Centro de Formação Maromba, da Arquidiocese de Manaus. Foto: CPT Amazonas

“A terra é um direito de todas as pessoas, todos os cidadãos, de todos nós. Mas infelizmente há um cenário sangrento que se repete constantemente em nosso Brasil, que atinge principalmente as populações que estão em situação de mais vulnerabilidade”, afirmou a coordenadora das Pastorais Sociais do Regional Norte 1, Rosiane Gomes de Freitas.

Com informações de Fred Santana (Revista Cenarium)
e Rafaella Amorim (Rádio Rio Mar FM)

Edição: Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional)

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