Carta Política – 6º Encontro da Rede dos Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia

Carta Política foi publicada ao final do 6º Encontro dos Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia. Foto: Verena Glass / Fundação Rosa Luxemburgo
Carta Política foi publicada ao final do 6º Encontro dos Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia. Foto: Verena Glass / Fundação Rosa Luxemburgo

Durante os dias 3 a 7 de junho de 2026, a Comunidade Quilombola Santo Antônio do Guaporé, no município de São Francisco do Guaporé (RO), recebeu o 6º Encontro da Rede dos Povos e Comunidades Tradicionais do Estado de Rondônia. Neste ano, o encontro teve como tema “Bebendo da ancestralidade que vem das águas do Rio Guaporé” e o lema “Partilhando saberes e construindo justiça climática”. 

Com a presença de mais de 150 lideranças e representantes de comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas, da agricultura familiar, povos de terreiro, extrativistas, militantes e representantes da sociedade civil e órgãos governamentais parceiros, o encontro debateu a defesa dos territórios, esperança e fraternidade, na perspectiva de fortalecimento da rede.

Foto: Verena Glass / Fundação Rosa Luxemburgo
Foto: Verena Glass / Fundação Rosa Luxemburgo

Ao final do encontro, as lideranças dos povos e comunidades reunidas elaboraram a seguinte Carta Política:


Nesta Carta Política, os Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia reafirmam sua resistência e exigem justiça diante das violências. Ilustração: Vanessa Diniz
Nesta Carta Política, os Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia reafirmam sua resistência e exigem justiça diante das violências. Ilustração: Vanessa Diniz

CARTA POLÍTICA

Nós, que bebemos da mesma água ancestral!

Nós, povos e comunidades tradicionais de Rondônia e da fronteira com a Bolívia — quilombolas, indígenas, seringueiros, extrativistas, camponeses, povo de terreiro representados pela ACESACAB — reunidos entre os dias 03 e 07 de junho de 2026 no território ancestral da Comunidade Quilombola de Santo Antônio, às margens do Rio Guaporé, vimos a público declarar nossa força, nossa memória e nossa luta.

Inspirados pelo tema “Bebendo da ancestralidade que vem das águas do Rio Guaporé: partilhando saberes e construindo justiça climática”, reafirmamos que a água não é mercadoria, a floresta não é entrave e a terra não é latifúndio. Somos guardiões de um território vivo, onde os rios falam, os ancestrais caminham entre nós e o amanhã se constrói com os pés no chão e o coração na roda.

Nesta Carta Política, os Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia reafirmam sua resistência e exigem justiça diante das violências. Foto: Carlos Henrique Silva / CPT
Nesta Carta Política, os Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia reafirmam sua resistência e exigem justiça diante das violências. Foto: Carlos Henrique Silva / CPT

O que temos visto e denunciado

Esse chão é marcado pelo genocídio dos Povos Originários. Os últimos anos intensificaram as feridas abertas em nossos corpos e territórios e seguem matando não apenas o corpo, mas a cultura e a organização social — reforçando o processo de racismo e apagamento.

  • O avanço do agronegócio da soja e dos agrotóxicos corrói nossas águas, adoece nossas crianças e expulsa nossas famílias das terras que tradicionalmente ocupamos.
  • Os grandes empreendimentos de infraestrutura — hidrelétricas, hidrovias, portos, estradas — chegam sem nosso consentimento, ignorando nossos modos de vida e nossa relação sagrada com a natureza.
  • Empresas do crédito de carbono nos cercam com promessas ilusórias, tentando transformar nossa proteção ancestral da floresta em mercadoria, sem garantias de direitos, sem divisão justa e sem respeito à autodeterminação.
  • A ausência de demarcação de territórios indígenas e quilombolas e a falta de proteção e salvaguarda dos territórios extrativistas continuam sendo a principal porta de entrada para a violência, o desmatamento e a grilagem.
  • Na fronteira com a Bolívia, nossos irmãos e irmãs tradicionais sofrem ameaças semelhantes, como garimpo ilegal, concessões petroleiras e de gás mineral, e a invisibilidade oficial os torna ainda mais vulneráveis.

Diante disso, não nos calaremos. A Mãe Terra sangra, a irmã floresta geme, e as águas do Guaporé pedem justiça.

O que reafirmamos e construímos

Reafirmamos a caminhada da Rede dos Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia como espaço de articulação autônoma, de encontro geracional e de resistência coletiva.

Jovens, adultos, idosos, mulheres e homens — todos temos lugar nessa construção.

Defendemos os direitos da natureza como parte indissociável dos direitos humanos e dos direitos territoriais. A terra não é propriedade; é parente. A água não é recurso; é memória. A floresta não é estoque; é espiritualidade viva.

Construímos justiça climática não nos escritórios do norte, mas no suor da roça, na benção das parteiras, no canto dos rituais e na luta diária pelo território. Nossa resposta à crise climática é a demarcação, a proteção comunitária e o saber ancestral.

Nossas exigências e propostas

Exigimos dos governos brasileiro e boliviano, do sistema de justiça e da comunidade internacional:

  1. Demarcação imediata e proteção integral de todas as terras indígenas e quilombolas em Rondônia e na faixa de fronteira.
  2. Não aceitamos os grandes projetos de infraestrutura em territórios tradicionais. Exigimos políticas públicas de apoio à agroecologia, ao extrativismo sustentável e às cadeias produtivas tradicionais com garantia de compra institucional (Conab, PAA, PNAE).
  3. Regulação transparente e participativa do mercado de crédito de carbono, e respeito à consulta prévia, livre, informada e de boa-fé nos termos da Convenção 169 da OIT, e dos protocolos de cada comunidade.
  4. Proteção imediata para lideranças ameaçadas em razão da defesa de seus territórios.
  5. Salvaguarda dos territórios extrativistas como unidades de conservação de uso sustentável, com participação efetiva das comunidades na gestão.
Momento místico de memória pelo encantamento de Gelimar Puruborá. Foto: Carlos Henrique Silva / CPT
Momento místico de memória pelo encantamento de Gelimar Puruborá. Foto: Carlos Henrique Silva / CPT

Agradecimentos e alianças

Agradecemos à Comunidade Quilombola de Santo Antônio pelo acolhimento e pela força ancestral de seu território. Agradecemos à Comissão Pastoral da Terra (CPT Rondônia e Nacional), ao CIMI, à FLD – Programa COMIN de Defesa de Direitos, à Opiroma, GT-INFRA (Grupo de Trabalho e Justiça Socioambiental), Fundação Rosa Luxemburgo, ao MPT 14, à DPE, à Conab, à Prefeitura de São Francisco do Guaporé e a todas as organizações parceiras que caminham conosco com respeito e compromisso.

Nossa autonomia não exclui alianças; pelo contrário, fortalece laços que não se dobram ao dinheiro nem ao poder. Estendemos a mão fraterna aos povos e comunidades tradicionais da Bolívia — que o Rio Guaporé e o seu Protetor, o Divino Espírito Santo, nos ilumine na luta e na esperança.

Seguiremos bebendo da ancestralidade

Não recuaremos. Enquanto houver uma só criança ameaçada, uma só mulher violentada, um só rio envenenado, ou uma árvore derrubada para criar boi ou virar soja — estaremos de pé. Somos Terra! Somos água! Somos Florestas! Somos sementes!

O 6° Encontro termina, mas a Rede continua unida. Vamos para nossos territórios mais fortes, mais articulados e mais certos de que justiça climática é justiça territorial, e justiça territorial só existe com a presença viva e sagrada dos povos tradicionais.

Bebemos da ancestralidade que vem das águas do Rio Guaporé. E por elas lutamos, até que a última gota seja respeitada.

São Francisco do Guaporé/RO, 07 de junho de 2026.

Rede dos Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia

  • Comunidades quilombolas de Santo Antônio, Pedras Negras, Santa Fé, Forte Príncipe da Beira e Comunidade de Jesus;
  • Movimento quilombola de Guajará-Mirim e Porto Velho;
  • Indígenas Chiquitanos, Aruá, Wajurú, Puruborá, Canoé, Karitianas, Tikuna, Kampé Kaxinawá e Kujubim;
  • Comunidades seringueiras e extrativistas das Resex Rio Cautário, Resex Aquariquara, Resex do Rio Ouro Preto e todos os povos tradicionais do Vale do Guaporé;
  • Comunidades camponesas Flor do Amazonas, de Urupá, Cacoal, Mirante da Serra e Espigão do Oeste;
  • Chacareiros de Porto Velho – representados pela Associação de Ação Popular Integrada Hortifrutegranjeiro da União (AAPIHGU)
  • Povos de terreiro de Porto Velho – representados pela Associação Centro Social Assistencial e Cultural Afro Brasileiro (ACESACAB)

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