Na Paraíba, mulheres do Curimataú e da Borborema marcham pela vida, contra a violência e em defesa dos territórios

Mobilizações reuniram mulheres do campo e da cidade em Picuí, Campina Grande e Remígio, fortalecendo a luta pela agroecologia e por uma transição energética justa

Por Vanúbia Martins | CPT NE2

Edição: Lara Tapety

Fotos: equipes CPT Campina Grande e Guarabira (PB)

Mulheres agricultoras, lideranças populares e organizações sociais realizaram uma série de mobilizações na região da Diocese de Campina Grande, reafirmando a luta pela vida das mulheres, pelo enfrentamento à violência de gênero e pela defesa dos territórios camponeses. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) esteve presente nas atividades, fortalecendo o diálogo e a organização coletiva.

No dia 7 de março de 2026, aconteceu a 17ª Marcha pela Vida das Mulheres e Pela Agroecologia, pela primeira na Diocese de Campina Grande. A CPT participou da atividade promovida pelo CEOP – Centro de Formação e Organização Popular, em parceria com o Coletivo Curimataú. Vindas de vários municípios e comunidades, as mulheres chegaram a Picuí para gritar por justiça e contra a violência no “Ato Pelas Mulheres Vivas”.

No domingo, dia 8, foi a vez das mulheres do campo se juntarem às mulheres da cidade no ato “Pelo Fim da Impunidade e da Violência contra a Mulher”, convocado pela Frente de Mulheres de Campina, pelo Comitê Cultura Paraíba e pela ONG CENTRAC. Com o grito “Mulher não se cale, lute!”, aconteceu um ato político-cultural para dizer basta ao feminicídio e ao transfeminicídio. Artistas e sociedade civil se reuniram em frente ao Museu de Arte Popular, em Campina Grande, com apresentações de Samba Lunar, Kitket MC, Mana Star e Maracatu Baque Mulher, intercaladas por falas de organizações feministas e sindicais, para reafirmar a transformação e resistência pela arte e organização nos coletivos de mulheres trabalhadoras de várias categorias. 

Outro grito ecoou pelo Açude Velho: o fim da escala 6×1, apontada como mais uma violência contra todos e, principalmente, contra as mulheres que acumulam as tarefas do cuidado e dos serviços domésticos. A CPT marcou presença para afirmar, junto à Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), que também as mulheres do campo acumulam serviços e precisam ser contempladas com a justiça da divisão justa do trabalho doméstico.

No dia 12, as equipes da CPT de Campina Grande e Guarabira marcharam junto com as mulheres agricultoras do Polo Sindical da Borborema, que há 17 anos realizam a marcha “Pela Vida das Mulheres e Pela Agroecologia”. O grito deste dia trouxe novamente a denúncia da morte simbólica dos territórios camponeses causada pela implantação de usinas de energias renováveis, como parques eólicos e solares.

As agricultoras, sejam do Curimataú ou do Polo da Borborema, marcham pela vida das mulheres porque vivemos em um país que registrou 1.568 assassinatos de mulheres em 2025. Na Paraíba, assim como no restante do mundo, o crime de feminicídio — quando a vítima é morta apenas por ser mulher — vem aumentando.

Mulheres que se organizam são como a força da maré na lua cheia. Acreditam nos processos de transformação e têm fé na construção de um mundo mais fraterno e justo para mulheres e homens. Fazem agroecologia porque cuidam da geração de hoje e das futuras gerações. Estão em sintonia pela libertação do corpo-território e do território de vida, que deve estar livre de agrotóxicos e da pressão de grandes empresas de energia, pois cuidam do espaço onde cultivam vida e amor fraternal.

Durante a marcha, realizada na quinta-feira em Remígio, a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), em parceria com a Fundação Banco do Brasil, a Cáritas Francesa e a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), lançou o programa Um Milhão de Tetos Solares, iniciativa voltada à produção descentralizada, democrática e popular de energia.

O grito contra os impactos causados pelos grandes projetos vem ecoando desde 2022, quando mulheres do Curimataú e do Polo da Borborema conheceram os danos à vida e à saúde nas comunidades de Caetés e Paranatama, em Pernambuco, posteriormente confirmados por pesquisas.

Na Paraíba, as organizações articuladas seguem lutando para que normas e leis estejam a favor das comunidades e para que os megaempreendimentos não avancem sobre os territórios de vida e produção de alimentos. As mulheres agricultoras e suas organizações buscam uma transição energética justa, voltada à autonomia das famílias e dos seus territórios.

“Precisamos debater como é que a gente produz a nossa própria energia criando autonomia, incluindo as pessoas e sem ter que tirá-las dos territórios”, afirmou Roselita Vitor Albuquerque, agricultora assentada do Polo da Borborema e integrante da Coordenação da ASA Brasil.

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