Em ano eleitoral, o que as juventudes da Amazônia têm a dizer? Encontro de Escuta reúne lideranças juvenis dos territórios

A Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM/Repam Brasil) realizou um Encontro de Escuta com Jovens da Amazônia, reunindo lideranças juvenis de diferentes territórios para dialogar sobre desafios locais, fortalecer a mobilização social e construir estratégias de comunicação e participação cidadã no contexto das campanhas Amazoniza-te e Eu Voto pela Amazônia, especialmente em ano eleitoral.
O encontro reuniu jovens indígenas, quilombolas, ribeirinhos e representantes de organizações sociais, pastorais e movimentos populares, criando um espaço de escuta, partilha de experiências e construção coletiva de propostas para fortalecer o protagonismo das juventudes na defesa dos territórios amazônicos.
Entre os participantes estiveram lideranças como Adriano Karipuna, de Porto Velho (RO), presidente do Instituto Tangarei Karipuna e representante da Associação do Povo Indígena Karipuna (APOIKA); Íris Fidelis, representante dos povos de terreiro de Porto Velho (RO); Tireniwa Suruí, da Aldeia Yetá, na Terra Indígena Sororó, do povo Suruí Aikewara; Larissa Rodrigues, da Articulação das CPT’s da Amazônia e do Coletivo de Juventude de Povos e Comunidades Tradicionais; Eudes Miranda, de São Miguel do Guaporé (RO), do povo Puruborá; e Antônio Elison, da Reserva Extrativista Ituxi, além de representantes de centros juvenis e organizações de base.
Para Larissa Rodrigues, este processo de escuta reafirma que não existe saída sem o protagonismo das juventudes e das mulheres, especialmente num ano em que a disputa eleitoral vai definir mais uma vez futuro dos territórios.
“As campanhas Amazoniza-te e Eu Voto pela Amazônia acertaram ao colocar a gente no centro da estratégia, fortalecendo a caminhada da CPT e dos povos para pautar as urnas contra o agronegócio, os grandes projetos, a violência no campo e essas falsas soluções do mercado. A Amazônia é território de luta e está em disputa agora; nossa missão nestas eleições é garantir que o projeto popular para o Brasil fortaleça a soberania, e que o nosso voto barre quem quer transformar a floresta em mercadoria”, destaca.
Pela CPT, também estiveram presentes Maria Petronila, da Coordenação Nacional, e Luís Xavier, da Coordenação da CPT Regional Amazonas (equipe de Canutama).
Além das juventudes, as mulheres também participarão de um espaço de diálogo, partilha e construção coletiva, nesta terça-feira (17) às 16h (horário de Brasília). O momento será de escuta de experiências, percepções e propostas das mulheres que vivem, cuidam e defendem a Amazônia todos os dias.
Escuta dos territórios e desafios vividos pelas juventudes da Amazônia
Durante o encontro, os jovens compartilharam as realidades vividas em suas comunidades, apontando desafios relacionados à falta de infraestrutura, acesso limitado à educação, saúde, internet e transporte, além das dificuldades de permanência e organização da juventude nos territórios.
Também foram destacados os impactos provocados por grandes empreendimentos, mineração, hidrovias, agronegócio e projetos de infraestrutura, que afetam diretamente os territórios e o modo de vida das comunidades amazônicas.
Os participantes alertaram ainda para situações de invasões de terras, avanço do desmatamento e conflitos territoriais, que impactam diretamente as comunidades e geram insegurança para jovens que permanecem e lutam em defesa de seus territórios.
Formação e comunicação como ferramentas de mobilização
Um dos pontos mais recorrentes nas falas foi a necessidade de investir na formação das juventudes, especialmente na área da comunicação comunitária e da educomunicação.
Entre as propostas apresentadas pelos jovens estão:
- Formação em produção audiovisual e comunicação digital
- Capacitação em edição de vídeos, produção de conteúdos e uso de ferramentas tecnológicas
- Apoio para aquisição de equipamentos de comunicação
- Fortalecimento de redes juvenis de comunicação nos territórios
As juventudes destacaram que a comunicação é uma ferramenta essencial para fortalecer narrativas próprias dos povos amazônicos e enfrentar a desinformação que muitas vezes circula sobre os territórios e suas realidades.
Alex de Souza Maciel, jovem quilombola do Território do Rio Alto Itacuruçá, em Abaetetuba/PA, destacou a importância do encontro neste momento pós-COP 30, de avanços do capital na Amazônia, seja na privatização dos rios, no agro-hidro-minério-negócio e nas políticas desenvolvimentistas.
“Nada melhor do que trazer essa juventude amazônida pra o embate e pra o debate, justamente no período eleitoral. A REPAM está de parabéns por essa iniciativa, e a gente precisa somar forças nessas campanhas, pensar estratégias de como enfrentar essa política de morte a partir também da comunicação popular, da juventude que está na base e no enfrentamento diário. Reunir essa juventude é essencial pra enfrentar a desinformação e trabalhar a formação. A gente pensa em continuar com os encontros, e juntar forças com essas vozes, pra que a gente possa caminhar na garantia dos direitos e ter vida digna de qualidade dentro dos territórios”, afirma Alex, que também atua como assessor e comunicador popular da Cáritas Regional Norte 2.
A comunidade de Alex faz parte da Associação dos Remanescentes de Quilombo das Ilhas de Abaetetuba (ARQUIA), que reúne 10 comunidades em um título coletivo.
Juventude e participação cidadã em ano eleitoral
O encontro também destacou a importância da participação da juventude na construção de uma consciência cidadã e política, especialmente no contexto das eleições.
As campanhas Amazoniza-te e Eu Voto pela Amazônia foram apresentadas como instrumentos estratégicos para incentivar o protagonismo juvenil, ampliar o debate público e fortalecer a mobilização em defesa da Amazônia.
Os jovens ressaltaram a necessidade de formar multiplicadores nos territórios, capazes de dialogar com suas comunidades e promover a participação democrática, contribuindo para a escolha de representantes comprometidos com a proteção dos povos, dos rios e da floresta.
Análise de discursos e desafios da agenda climática
Durante o encontro também foi destacada a importância de realizar uma análise crítica dos discursos relacionados à agenda climática. Os participantes apontaram que a questão climática tem ganhado grande visibilidade no cenário internacional, mas alertaram para a necessidade de atenção às propostas que vêm sendo implementadas nos territórios.
Entre as preocupações levantadas está o avanço de iniciativas relacionadas ao mercado de carbono, que em alguns casos têm sido apresentadas às comunidades sem diálogo adequado ou sem garantir a participação efetiva dos povos.
Segundo os jovens, existe o risco de que tais mecanismos possam limitar a autonomia das comunidades tradicionais sobre seus territórios, caso não respeitem os processos de decisão coletiva e os modos de vida dos povos da Amazônia.
Criação de um Grupo de Trabalho de Juventude
Como encaminhamento do encontro, foi acolhida pela REPAM a proposta de criação de um Grupo de Trabalho (GT) de Juventude e Comunicação, com o objetivo de organizar processos de formação, mapear iniciativas juvenis e fortalecer estratégias de mobilização nos territórios.
O GT deverá contribuir para a construção de materiais formativos, conteúdos de comunicação e ações de incidência política, fortalecendo a participação das juventudes nas campanhas e nos debates sobre o futuro da Amazônia.
A REPAM Brasil seguirá articulando esse processo junto às juventudes e lideranças dos territórios, reforçando o compromisso da rede com o protagonismo juvenil na defesa da Amazônia e na construção de caminhos de justiça socioambiental.
Matéria publicada no site da REPAM Brasil
Edição: Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional)
Confira também:
27.10.2025 – ÀS VÉSPERAS DA COP 30, REPAM RELANÇA A CAMPANHA AMAZONIZA-TE, EM DEFESA DA VIDA DA FLORESTA E DE SEUS POVOS
29.01.2026 – NOTA DE DEFESA EM FAVOR DO RIO TAPAJÓS
09.02.2026 – CARTA DA ARTICULAÇÃO DAS CPT’S DA AMAZÔNIA EM APOIO À OCUPAÇÃO DOS POVOS DO BAIXO E MÉDIO TAPAJÓS


