Polícia de Goiás reprime ocupação das Mulheres Sem Terra, que reivindicam área de usina flagrada com trabalho escravo
Em jornada de luta, mulheres do MST ocupam em área da Companhia Bioenergética Brasileira, empresa envolvida em crimes trabalhistas, ambientais e devedora da União, mas polícia estadual força saída do local
por Marilia da Silva / CPT Goiás

No último dia 9 de março, cerca de 400 mulheres e 200 homens do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam uma área da Usina da Companhia Bioenergética Brasileira (CBB), no município de Vila Boa de Goiás.
A mobilização reuniu militantes de estados da região Centro-Oeste — Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul —, além de Rondônia, e integrou a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, que neste ano teve como lema “Reforma Agrária Popular: Enfrentar as violências, Ocupar e Organizar”.
A área ocupada possui cerca de 8 mil hectares e, segundo o movimento, acumula um passivo de mais de R$ 300 milhões em dívidas tributárias, trabalhistas e ambientais. Parte das terras encontra-se em processo de adjudicação, ou seja, está sendo repassada ao patrimônio da União para quitar débitos com o Estado.
Além das dívidas, a usina também acumula denúncias relacionadas a crimes ambientais e violações trabalhistas. Em 2023, uma operação do Ministério Público do Trabalho resgatou 108 trabalhadores em condições análogas à escravidão em uma fazenda da empresa. Também há registros de embargos ambientais em milhares de hectares por desmatamento irregular em áreas sensíveis do Cerrado.
Para o MST, que já ocupou a mesma área em 2023, a destinação dessas terras ao Programa Nacional de Reforma Agrária poderia ajudar a solucionar a situação de centenas de famílias Sem Terra que aguardam acesso à terra na região.
Polícia de Goiás força saída da área da CBB

Horas depois da entrada das mulheres do MST na área da CBB, um contingente da Polícia Militar do Estado de Goiás chegou ao local para exigir a retirada do acampamento. Pessoas presentes relataram truculência por parte dos policiais. Para garantir a proteção das famílias, o grupo decidiu deixar a área.
“Infelizmente, mais uma vez, nós não conseguimos permanecer neste local”, declarou Iracilda Silva, porta-voz das mulheres na ação. Em postagem nas redes sociais, o movimento afirmou repudiar a postura do governo Caiado, que opta pelo uso da força policial contra famílias, em vez do diálogo. “É inaceitável que o aparato de segurança pública seja utilizado como guarda privada de terras que serviram à exploração escravagista”, diz a publicação.
O objetivo da mobilização era garantir espaço para moradia e trabalho a famílias que lutam por seu direito a terra. “Aquela área não está cumprindo sua função social, como exige nossa Constituição. A terra poderia estar sendo utilizada para a produção de alimentos saudáveis por famílias camponesas”, questiona Iracilda.
Após a saída da área, as famílias seguiram para a praça central de Vila Boa de Goiás, onde realizaram um ato público e distribuíram cerca de 5 mil quilos de alimentos à população da cidade, reforçando a denúncia sobre a concentração de terras e o papel da Reforma Agrária na produção de comida para o povo.
As mulheres que participaram da jornada também criticam a lentidão do governo federal no avanço da política de Reforma Agrária. “Estamos no último ano deste mandato. Passamos três anos e meio esperando. Infelizmente, as poucas terras destinadas para assentamento foram para acampamentos muito antigos. Muitas famílias seguem aguardando”, afirmou a porta-voz.
Mesmo diante da desocupação, o MST afirma que continuará pressionando o poder público para que áreas endividadas com a União sejam destinadas à Reforma Agrária e para que famílias camponesas tenham acesso à terra, trabalho e condições dignas de produção no campo.


