Em visita do ministro do Desenvolvimento Agrário, CPT reforça as reivindicações dos povos contra a violência no campo e pela reforma agrária

Por Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional)

A visita é fruto de diálogos da CPT com o Ministério do Desenvolvimento Agrário na luta contra a violência no campo e pela reforma agrária. Foto: Albino Oliveira - Ascom/MDA
A visita é fruto de diálogos da CPT com o Ministério do Desenvolvimento Agrário na luta contra a violência no campo e pela reforma agrária. Foto: Albino Oliveira – Ascom/MDA

Na tarde da última quinta-feira (05), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) recebeu, em sua Secretaria Nacional, a visita do ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, acompanhado de uma comitiva na qual estavam presentes: o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), César Aldrighi; a diretora de obtenção de terras do Incra, Maíra Coraci Diniz, e o diretor do Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Agrários (DEMCA), Leador Machado.

Recebendo a equipe, estavam presentes os membros da Coordenação Nacional da CPT e da Campanha Contra a Violência no Campo; agentes pastorais dos estados de Goiás, Bahia, Ceará, Maranhão, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, além da equipe de documentalistas do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc) e equipe administrativa.

Visita ao Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc). Foto: Albino Oliveira - Ascom/MDA
Visita ao Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc). Foto: Albino Oliveira – Ascom/MDA

A visita é fruto de diálogos da CPT com o ministério nos últimos anos, quando a Pastoral promove ações de incidência com entrega dos dados do relatório Conflitos no Campo Brasil às principais instâncias do governo federal, como forma de exigir por políticas mais efetivas contra a violência no campo e pela reforma agrária.

De acordo com o ministro, o ministério tem desenvolvido ações de leitura da violência no campo brasileiro, levantamento dos conflitos, cadastro de acampamentos e obtenção de terras do agronegócio, entendendo que a desapropriação não é suficiente, além de entender que reforma agrária é acesso à terra, moradia, crédito, floresta produtiva, agroecologia, financiamento, mecanização e outros recursos para as populações do campo.

Entrega do Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro. Foto: Albino Oliveira - Ascom/MDA
Entrega do Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro. Foto: Albino Oliveira – Ascom/MDA

O momento também contou com a entrega do Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro, lançado durante o V Congresso da CPT em São Luís, no mês de julho de 2025. “O Atlas é um instrumento de provocação à reflexão sobre o recrudescimento dos conflitos e da violência no campo. O período de 2019-2023 é o que tem a maior concentração de conflitos, com o avanço da mineração, do agronegócio, das energias renováveis, em uma ação do capital que se amplia e se diversifica no campo”, afirmou o agente da CPT Bahia, Ruben Siqueira.

Link do Atlas dos Conflitos – https://cptnacional.org.br/documento/atlas-conflitos-campo-brasileiro/

Diante da avaliação positiva, por parte do ministério, a respeito da redução no número de assassinatos em 2024 (de 31 para 13 mortes no campo), o coordenador nacional Ronilson Costa destacou a realidade dos conflitos que se repetem, e a manutenção dos agentes que causam e que sofrem as ações de violência. Mesmo com número menor de conflitos, o alto índice de pessoas ameaçadas de morte e tentativas de assassinato em 2024 já se refletiram em 2025, quando foram registrados 26 assassinatos, o dobro da quantidade do ano anterior.

“Quando vemos essa realidade de recursos bilionários para o Plano Safra, bem acima do que os destinados para a agricultura familiar, nós nos perguntamos o porquê de maiores investimentos justamente para aqueles que mais causam os conflitos no campo, ou dos assassinatos de trabalhadores e lideranças que não tinham como se defender, e lutaram para ter acesso ao programa de defensores de Direitos Humanos, que infelizmente não chegou a tempo para garantir a vida dessas pessoas”, afirmou Ronilson, lembrando os levantamentos feitos em parceria com organizações internacionais que monitoram assassinatos, nos quais o Brasil ainda é um dos países mais violentos e perigosos para quem defende os direitos humanos e a natureza.

Ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira. Foto: Albino Oliveira - Ascom/MDA
Ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira. Foto: Albino Oliveira – Ascom/MDA

O ministro Paulo Teixeira ainda apontou os desafios e dificuldades enfrentadas na efetivação das políticas de reforma agrária no país, como o contexto jurídico ultraconservador, que tem o apoio do Parlamento, de Tribunais de Contas e instâncias do poder Judiciário, diante do qual o ministério também tem trabalhado com estratégias de enfrentamento neste mesmo campo. As principais alternativas têm sido a arrecadação de terras em situação de grilagem, ou terras em posse de grandes devedores e com casos comprovados de trabalho análogo à escravidão.

Alternativas como estas, que não passam pela desapropriação ou expropriação de terras, foram questionadas por acabarem remunerando, a preços de mercado, grileiros e invasores de terras públicas. Também coordenador nacional, Carlos Lima destacou a própria demora na atuação do Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA) como parte de processos que se demoram devido a questões políticas, como foi o caso da substituição do antigo gestor do Incra em Alagoas, aliado do governo anterior, uma mudança que dependia da aprovação do então presidente da Câmara dos Deputados.

O coordenador nacional Ronilson Costa destacou a realidade dos conflitos que se repetem, e a manutenção dos agentes que causam as ações de violência, bem al'rm das resistências dos trabalhadores e trabalhadoras. Foto: Carlos Henrique Silva / CPT
O coordenador nacional Ronilson Costa destacou a realidade dos conflitos que se repetem, e a manutenção dos agentes que causam as ações de violência, bem al’rm das resistências dos trabalhadores e trabalhadoras. Foto: Carlos Henrique Silva / CPT

Ao final do encontro, o ministro do Desenvolvimento Agrário apontou algumas necessidades e propostas que já estão sendo desenvolvidas por parte do Governo Federal para o aperfeiçoamento dos instrumentos de luta em defesa das comunidades do campo:

  • Desenvolvimento de ações preventivas contra a violência no campo, para proteção e punição;
  • Necessidade de federalização do massacre de Pau D’Arco (PA) e do caso do assassinato de Fernando Araújo dos Santos;
  • Arrecadação de terras públicas ainda em 2026, com destaque para a Região Norte;
  • Enfrentamento às milícias relacionadas a polícias no campo, mesmo em governos ditos “progressistas”;
  • Elaboração de um projeto de lei visando a expropriação de terra para quem comete crime ambiental, do mesmo modo que já existe para condenados ao trabalho análogo à escravidão;
  • Articulação com os movimentos e organizações para construírem o III Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA).

“É preciso lembrar que a CPT colaborou com a Comissão Nacional de Enfrentamento à Violência no Campo, e a presença do Estado, a partir da atuação do DEMCA com a Dra. Cláudia Dadico, foi muito importante para evitar o agravamento dos conflitos. Queremos continuar colaborando nesta incidência, com a autonomia e o posicionamento que nós temos”, afirmou Carlos Lima.

Mesmo com número menor de conflitos em 2024, o alto índice de pessoas ameaçadas de morte e tentativas de assassinato já se refletiram em 2025, quando foram registrados 26 assassinatos, o dobro da quantidade do ano anterior. Foto: Albino Oliveira - Ascom/MDA
Mesmo com número menor de conflitos em 2024, o alto índice de pessoas ameaçadas de morte e tentativas de assassinato já se refletiram em 2025, quando foram registrados 26 assassinatos, o dobro da quantidade do ano anterior. Foto: Albino Oliveira – Ascom/MDA

Depoimentos:

“A violência tem se instalado onde há defesa da vida, por nós defendermos o projeto de vida do campo. Além da violência, temos o grande desafio das juventudes terem que se ausentar do campo para viver na cidade.” (Priscila Viana, da CPT Regional Espírito Santo – Rio de Janeiro)

“Acordos, como o da União Europeia-Mercosul, pressionam o Brasil a produzir e exportar commodities agrícolas, numa forma ultrapassada de produção e avanço do plantio sobre os territórios, assentamentos e pequenas propriedades da agricultura familiar.” (Ronilson Costa, da Coordenação Nacional)

“Este é um trabalho muito doloroso porque, muito além dos números que registramos, são violências que não conseguimos mensurar. O que podemos fazer, enquanto pessoas cidadãs e das organizações, para que essas mortes não aconteçam?” (Anna Karolynne, documentalista do Cedoc)

“Nas violências, principalmente nos assassinatos, por trás de cada morte registrada, o grande desafio é a impunidade e a dificuldade de punir os executores e mandantes.” (Cecília Gomes, da Coordenação Nacional)

“Vivenciamos uma situação preocupante em Rondônia, um estado que sempre está entre os primeiros em conflitos e assassinatos, com o Estado atuando para matar e não para defender as comunidades, e além disso com poucos assentamentos conquistados.” (Maria Petronila, da Coordenação Nacional)

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