Erradicar o trabalho escravo é nossa prioridade. E continuará sendo!

O ano 2026 começa como terminou o ano 2025: com a paralisia das operações de combate ao trabalho escravo, deixando sem atendimento grande número de pessoas atualmente em situação de trabalho escravo.

Este é o dramático resultado do confronto protagonizado no ano passado pelo Ministro do Trabalho, ao se arrogar um direito de intervenção direta na atuação autônoma da inspeção do trabalho, anulando autos de infração lavrados e já confirmados em segunda – e exclusiva – instância de recurso, chamando para si, por meio da chamadaavocação’, questões que não lhe competem, e colocando sob investigação agentes públicos apenas por terem cumprido regularmente seu ofício. 

Tudo isso feito sem a mínima transparência, pelo contrário, fomentando um clima de segredo, de ameaça e de insegurança voltado contra a própria categoria dos Auditores Fiscais do Trabalho – AFT que, neste dia, pretendemos homenagear. 

Nunca visto nos anais recentes da República e expressamente proibido pela histórica Sentença da Corte Interamericana no Caso Brasil Verde, tal retrocesso criou situação gravíssima e gerou um impasse preocupante.

A repetição e a persistência da interferência ministerial – apesar das ações contrárias interpostas no Judiciário – comprometem não somente a legitimidade da atuação da Auditoria Fiscal do Trabalho como colocam em xeque a credibilidade, a consistência e a continuidade da política nacional de combate ao trabalho escravo, inclusive em dois de seus componentes mais emblemáticos: uma fiscalização imune às pressões políticas ou às chantagens econômicas, e um cadastro garantindo a transparência do processo de erradicação do trabalho escravo (a Lista Suja).   

Neste contexto difícil, prestamos, sim, destacada homenagem ao trabalho realizado pela fiscalização e seus parceiros ao longo do ano passado.

Em 2025, ano em que a Inspeção do Trabalho passou a integrar 900 novos Auditores Fiscais, foram resgatadas 3.000 pessoas, parte do total de 3.152 pessoas encontradas em condição análoga à de escravo.1 

Com isso, chega a 11.595 o número total de pessoas escravizadas nos últimos 4 anos, sendo que 78% delas foram encontradas em atividades rurais: 5 mil em lavouras (inclusive 1,5 mil em canaviais), 779 em pedreiras e na mineração, 677 na pecuária, 586 em obras de construção rural e 563 em carvoarias. A Amazônia registrou apenas 16% desse total. 

Por si só o setor da construção responde por 935 pessoas escravizadas em 2025 (30% do total nacional), sendo 586 no campo (uma única usina de etanol do Mato Grosso) e 349 fora do campo (em 41 canteiros de obra de 11 estados, sendo, apenas na Paraíba, 20 canteiros de obra e 232 pessoas).  

Só no ano passado, 2.126 pessoas (70% do total) foram encontradas em condição análoga à de escravo em apenas 5 estados de 3 regiões onde o agronegócio tem notável peso: Mato Grosso (627 pessoas) e Goiás (243), no Centro-Oeste; Bahia (481), no Nordeste; Minas Gerais (402) e São Paulo (373), no Sudeste. Na Amazônia Legal foram identificadas 950 pessoas submetidas a trabalho escravo. Com exceção de Amapá e Alagoas, houve registro de trabalho escravo em todos os estados do Brasil.

Não foi solucionada até hoje a dramática situação da empregada doméstica Sônia Maria de Jesus: ela continuou refém do seu escravizador, desembargador de justiça em Florianópolis (SC), corporativamente protegido por um Judiciário cúmplice. O caso foi levado ao Relator Especial da ONU sobre formas contemporâneas de escravidão e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Sônia é uma entre as 200 pessoas encontradas em trabalho escravo doméstico no país desde 2017 – 34 delas somente em 2025 – com a narrativa esfarrapada e perversa de que era tratada “como se fosse da família”. 

Assim como Sônia, geralmente são mulheres negras, como são negras também em sua maioria as pessoas escravizadas hoje no Brasil.

Muitos aproveitadores continuam lucrando com a miséria alheia. Para muitas pessoas, empurradas pela precisão, o trabalho escravo continua tendo ar de ‘normalidade’. Sempre que deixamos de denunciar essa violência, contribuímos para que ela se torne mais invisível, como hoje acontece em vários estados da Amazônia. 

Nosso silêncio acaba colaborando com o crime.

Sim, trabalho escravo é crime, resultado de múltiplas violações de direitos, todas com caráter estrutural e histórico: direito à terra e à identidade, à educação de qualidade, à saúde e a um ambiente saudável. À dignidade sem discriminação.

Abrindo o olho e denunciando, agiremos para eliminar o trabalho escravo ainda escondido em nosso meio. 

Denuncie!

Semana e Dia Nacional do Combate ao Trabalho Escravo – 28 de janeiro de 2026

Campanha Nacional de Olho Aberto Para Não Virar Escravo

  1.  Fonte: Dados apurados pela Campanha da CPT. Disponíveis no Panorama do Trabalho Escravo, atualizado em 30/12/2025. ↩︎

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