Conflitos no Campo 2025: Mesmo com aparente redução nos registros, ataques com agrotóxicos às comunidades continuam alarmantes

O menor número de conflitos no campo em 2025 envolvendo agrotóxicos pode indicar intimidação das comunidades vítimas do agronegócio. Foto: CPT NE 2
O menor número de conflitos no campo em 2025 envolvendo agrotóxicos pode indicar intimidação das comunidades vítimas do agronegócio. Foto: CPT NE 2

Mesmo com a aparente redução nos registros de contaminação por agrotóxicos nos conflitos no campo em 2025, além da instalação do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara) pelo presidente Lula, os ataques às comunidades continuam alarmantes. Nos últimos 10 anos, são 630 ocorrências de conflitos no campo envolvendo a contaminação por agrotóxicos, e 122 registros de violências contra as pessoas.

Conflitos por Terra

Um dos principais destaques é a redução de mais da metade dos registros de contaminação por agrotóxicos, passando de 276 conflitos em 2024 para 127 ocorrências em 2025.

Contudo, de acordo com a Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama), principal fonte de registros de ocorrências de contaminação por agrotóxicos da CPT no estado, o cenário não é otimista, mas “um alerta que pode demonstrar um contexto agudo de subnotificação, medo e o aperfeiçoamento de táticas de intimidação e ocultação pelo agronegócio”, afirma no relatório Balanço de 2025: Mapa do Veneno consolida rastro da guerra química em 110 comunidades no Maranhão.

Os registros de contaminação por agrotóxicos estiveram presentes em 14 estados. Os principais são o Maranhão, que continua ocupando o primeiro lugar, com 91 ocorrências, seguido do Pará (11) e Piauí (4). Os estados do Acre, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul aparecem cada um com 3 conflitos por terra nesta modalidade.

No Maranhão, as comunidades mais atacadas estão nos municípios de Brejo (18 registros), Timbiras (11), Viana (11), São Benedito do Rio Preto (10) e Bacabal (7). No Pará, o destaque é para o município de São Félix do Xingu (7), e no Piauí, em comunidades do município de Gilbués.

Povo Akroá Gamella denuncia a pulverização de agrotóxicos em 2025. O veneno atingiu indígenas, inclusive crianças e pessoas idosas, além das casas, árvores e plantações dos quintais e fontes de água. Foto: registro da comunidade
Povo Akroá Gamella denuncia a pulverização de agrotóxicos em 2025. O veneno atingiu indígenas, inclusive crianças e pessoas idosas, além das casas, árvores e plantações dos quintais e fontes de água. Foto: registro da comunidade

Os maiores causadores de conflitos neste tipo são fazendeiros (117) e empresários (5), seguidos de grileiros e do governo federal. Também há casos nos quais não se conseguiram identificar os causadores da contaminação, reforçando este cenário de intimidação e ocultação. Muitos ataques, principalmente os ocasionados por drones, ocorreram no período noturno e nos finais de semana, o que dificultou o registro por parte das comunidades e agentes.

Dentre as maiores vítimas, os posseiros estão presentes em 66 ocorrências, seguidos de indígenas (18), quilombolas (16), assentados (9) e pequenos proprietários (7). Outras categorias que também sofrem das violências pela ocupação e a posse da terra são sem terra, extrativistas, seringueiros, ribeirinhos e outros trabalhadores rurais.

Relembre alguns casos de 2025:

15.01.2025 – CHUVA DE VENENO: Comunidade Tradicional Curva, em São Mateus (MA), é atingida por agrotóxicos através de drone

14.05.2025 – Agrotóxico: chuva de veneno destrói plantações e afeta a subsistência e a saúde de famílias em São Félix do Xingu/PA

Conflitos por Água

Mesmo com a redução de 40 para 17 conflitos pela água envolvendo a contaminação por agrotóxicos, as violências registradas em 2025 atingiram mais de 1.600 famílias em 8 estados, com destaque para o Pará e Piauí (cada um com 4 conflitos), Maranhão, Rondônia e Goiás, com 2 conflitos cada.

Os maiores agentes causadores dos conflitos foram fazendeiros, seguidos de empresários e mineradoras. Dentre as vítimas, destacam-se indígenas, posseiros, assentados e sem terra.

Violências contra a Pessoa

Em 7 registros de conflitos no campo, a contaminação por agrotóxicos em 2025 atingiu 169 famílias nos estados do Maranhão e Ceará, com destaque para as comunidades de Lagoa da Casca, em Quixeré (CE), e o Território Indígena Taquaritiua, do povo Akroá-Gamella, em Viana (MA). O estado do Ceará, até então o primeiro e único estado brasileiro que proibia a pulverização de agrotóxicos aérea por aviões, teve o uso de veneno por drones liberado pelo governo do Estado, alterando a histórica Lei Zé Maria do Tomé.

Em alguns registros, a contaminação também está ligada a outras violências contra a pessoa, como intimidação, ameaça de morte e tentativa de assassinato. A maior parte das violências foi causada por fazendeiros, enquanto posseiros, indígenas e trabalhadores rurais foram as maiores vítimas da contaminação por agrotóxicos em seus corpos.

Manifestações

Mesmo com as violências sofridas constantemente, 18 manifestações populares colocaram a luta contra os agrotóxicos em suas pautas de reivindicação em 2025. As manifestações incluíram protestos, marchas, atos públicos, bloqueios de rodovias e celebrações, sendo realizadas por povos indígenas, quilombolas, sem terra, posseiros e assentados, nos estados do Maranhão, Pará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Alagoas, Ceará, Paraíba, Tocantins e Paraná.

Um dos destaques no Pará foi durante a realização da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), quando uma manifestação pacífica em frente à Agrizone – área da Conferência dedicada ao agronegócio – chamou a atenção para o consumo abusivo de agrotóxicos no Brasil e seus impactos, principalmente no Cerrado.

As manifestações de luta também incluem outros conflitos que sempre estão ao lado da contaminação por agrotóxicos. Alguns exemplos são: ausência de demarcação de terras indígenas, demora nos processos de reforma agrária, monocultura, transgênicos, saúde, desmatamento e danos à água e ao meio ambiente.

Maior uso de drones na pulverização de agrotóxicos corrobora com os conflitos no campo em 2025

Os registros das comunidades não permitem distinguir em todos os casos a proporção de conflitos ocasionados pelo uso de aviões ou de drones, mas a utilização destes últimos equipamentos têm sido bastante procurada pelo agronegócio pela sua maior agilidade, facilidade de aquisição e maior rapidez e alcance na pulverização dos venenos.

De acordo com dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), constam até o momento 158.035 drones registrados no país, sendo 12.121 deles (quase 8%) registrados para “Pulverização e aplicação de outros insumos – Aeroagrícola”. Porém o setor da aviação agrícola estima que este número pode ser de até 25 mil unidades em operação. Já segundo levantamento do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), o número de aeronaves agrícolas no país em 2025 era de 2.722. Esta é a segunda maior frota do planeta, atrás somente dos Estados Unidos (com cerca de 3,6 mil aeronaves) e à frente de países como Canadá, Argentina, México e Nova Zelândia.

A utilização crescente e desregulamentada de drones para pulverização de agrotóxicos se reflete no alto índice de contaminação das comunidades, registrada no relatório Conflitos no Campo 2025. Gráfico: ANAC
A utilização crescente e desregulamentada de drones para pulverização de agrotóxicos se reflete no alto índice de contaminação das comunidades, registrada no relatório Conflitos no Campo 2025. Gráfico: ANAC

Em relação ao peso máximo de decolagem, os drones podem transportar de 25 kg a 100 kg (ou 100 litros de agrotóxicos líquidos) de carga. Este último modelo, lançado recentemente, tem sido bastante procurado como o “maior drone agrícola do mundo”, em atividades apresentadas como “Aplicação de Veneno”, “Aplicação em Lavouras” e “Aplicação de Defensivos Agrícolas”.

O crescimento na aquisição dos drones acontece “sem uma regulação efetiva, e sem que a capacidade fiscalizatória da aplicação desta nova tecnologia esteja desenvolvida, o que pode estar ampliando, silenciosamente, a utilização de agrotóxicos no território nacional”, afirma a Nota Técnica Uso de drones para pulverização de agrotóxicos no Brasil.

A publicação foi escrita pelo pesquisador e professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande Sul (UFRGS), Emiliano Maldonado, e pelo engenheiro ambiental Eduardo Raguse, sendo publicada em março deste ano pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e Fundação Heirich Böll.

Confira e baixe aqui a Nota Técnica “Uso de drones para pulverização de agrotóxicos no Brasil”.

Campanha contra os Agrotóxicos

A CPT faz parte da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, que completa 15 anos de atuação em 2026, junto com diversos movimentos sociais do campo e da cidade, organizações sindicais e estudantis, entidades científicas de ensino e pesquisa, conselhos profissionais, ONGs, grupos de consumo responsável, entre muitas outras articulações.

A campanha tem como objetivo denunciar os efeitos dos agrotóxicos e do agronegócio, e anunciar a agroecologia como caminho para um desenvolvimento justo e saudável da sociedade.

Conheça mais sobre a Campanha contra os Agrotóxicos clicando aqui.

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