Romaria da Terra do RS convoca reflexão sobre a ecologia integral e a terra sem males

Atividade no 17 de fevereiro na região das Missões transforma o feriado de Carnaval em um momento de fé e luta

Por Marcos Antônio Corbari | Brasil de Fato

Membros da comissão ampliada realizaram último encontro preparatório para a 48ª Romaria da Terra | Foto: Marcos Antônio Corbari

No dia 20 de janeiro, foi realizada a última reunião da comissão organizadora ampliada da 48ª Romaria da Terra do Rio Grande do Sul, que acontecerá na terça-feira de Carnaval, dia 17 de fevereiro, no Santuário do Caaró, município de Caibaté, na região das Missões. O encontro consolidou os encaminhamentos pastorais, organizativos e políticos de uma das mais importantes manifestações populares de fé e luta social do estado. Além de lideranças da diocese, estiveram presentes no encontro preparatório movimentos populares, pastorais sociais, sindicalistas e representantes dos poderes públicos locais.

Neste ano, a Romaria da Terra será marcada pela memória dos 400 anos da chegada dos padres Jesuítas ao estado, assumindo como tema “400 anos de evangelização missioneira: Terra sem males e ecologia integral” e o lema bíblico “Eu vi um novo céu e uma nova terra” (Ap 21,1). A escolha do tema expressa a intenção explícita de ir além de comemorações oficiais, propondo uma leitura crítica da história e reafirmando o compromisso da Igreja e dos movimentos populares com os povos originários, as populações camponesas, as comunidades tradicionais, a reforma agrária, a agroecologia e o cuidado com a Casa Comum.

O Santuário do Caaró, local do martírio dos padres jesuítas Roque González, Afonso Rodrigues e João de Castilho, foi escolhido não apenas por seu simbolismo religioso, mas também por ser território marcado pela resistência indígena. Foi em Caibaté que, em 1628, ocorreu parte do martírio missioneiro, e é também nessa região que se concentra a memória viva do povo Guarani e da luta histórica pela Terra Sem Males. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) inclusive faz parte do coletivo que organiza a Romaria da Terra e prepara para o mês de abril, no mesmo local, o Encontro Sepé Tiaraju, que vai reunir diferentes segmentos indígenas de todo o estado.

Terra sem males

De acordo com o informativo Voz da Terra, editado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) em ocasião das reflexões prévias que antecedem a Romaria da Terra, a espiritualidade guarani compreende a terra como espaço sagrado e condição essencial para o bem viver. “A terra sem males significa para o Guarani o paraíso terrestre, viver em harmonia com a natureza, num estado de perfeição”, afirma o texto, destacando que essa cosmovisão segue ameaçada pela desterritorialização e pela violência histórica sofrida pelos povos indígenas.

O bispo da Diocese de Santo Ângelo, Dom Liro Vendelino Meurer, ressalta que a Romaria acontece em um momento decisivo para a humanidade: “A ecologia integral é necessária porque tudo está interligado. Tudo é importante e necessário. Não há como ignorar todas as coisas criadas, isto é, o ser humano, a flora e a fauna. A vida humana, a saúde e o bem-estar em geral dependem do cuidado com a casa comum. Ou mudamos, convertendo-nos com nossas atitudes individuais e coletivas ou provocaremos um colapso planetário”.

Para o Irmão Celso João Schneider, está claro que é necessário “deixar de lado os festejos triunfalistas e que as ações turísticas fiquem num segundo plano”. Ele destaca que é momento de destacar os valores vivenciados durante os 160 de convívio entre os Guarani e Jesuítas (entre 1626 e 1768). Neste sentido, é relembrado no informativo da CPT a frase do saudoso bispo angelopolitano, Dom Estanislau Kreutz, que lança luz sobre a epopeia missioneira: “Mais importante do que admirar e venerar as pedras e as ruínas que sobraram, é perguntar-nos o que esta experiência cristã-comunitária de 160 anos tem a ensinar para a nossa sociedade?”.

Organizadores percorreram o trajeto da caminhada da Romaria, passando pela mata que envolver o santuário | Foto: Marcos Antônio Corbari

Essa abordagem dialoga com a própria origem da Romaria da Terra no RS, iniciada em 1978 a partir da memória de Sepé Tiaraju, líder guarani assassinado na defesa do território dos Sete Povos das Missões. A CPT reafirma que a Romaria nasce da ótica dos oprimidos e da fidelidade ao Evangelho. “Todo romeiro e romeira da terra tem lado”, afirma o frei capuchinho Wilson Dallagnol. “E nossa história precisa ser marcada pelo “pedido de perdão” pela opressão, pela conversão contínua de nossas atitudes discriminatórias“, completa.

Resistências do campo

A 48ª Romaria da Terra também dará visibilidade às experiências concretas de resistência no campo, como a agroecologia, a preservação das sementes crioulas, a agricultura camponesa e a organização das mulheres do campo. “Não basta denunciar: é preciso mostrar o que se faz na prática para ajudar na conscientização sobre outro jeito de cultivar a terra”, afirma Dom Liro, apontando a agricultura de matriz familiar e camponesa como caminho para garantir alimento saudável e justiça socioambiental.

Outro ponto central nas reflexões que conduzem os romeiros e romeiras até Caaró é apontado pelo Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e outros coletivos que reforçam que o feminismo camponês popular é parte central dessa construção, articulando a luta por direitos, o enfrentamento à violência de gênero e a defesa da soberania alimentar. “Existimos porque lutamos”, afirma Lisiane Cunha, da coordenação regional do MMC Missões, ressaltando que a organização coletiva das mulheres é fundamental para a defesa da vida no campo.

Frei Dallagnol afirma ainda que a mística da Romaria da Terra articula fé e política, espiritualidade e luta social. Inspirada na narrativa bíblica do Êxodo, a caminhada dos romeiros e romeiras simboliza a busca coletiva por libertação, justiça e dignidade. “A terra é dom de Deus, mas também é direito dos povos”, reforça, defendendo a reforma agrária, a demarcação das terras indígenas e a conversão ecológica como compromissos inegociáveis.

Ao final, a Romaria faz presente o chamado do saudoso Papa Francisco quando esteve reunido com os movimentos sociais e populares, já reafirmado também pelo atual pontífice, Papa Leão XIV, que convoca o povo a caminhar de braços dados, em busca da utopia do Reino, reconhecendo que todos são moradores de uma única Casa Comum e têm direito à direitos, terra, teto e trabalho.

As atividades têm previsão de início as 7h da manhã do feriado de Carnaval, com a acolhida aos romeiros e romeiras, estendendo-se até por volta das 15h30 com o final do rito de envio. Os organizadores orientam que os deslocamentos sejam planejados para chegar ao local com antecedência. Visitações ao Sítio Arqueológico de São Miguel das Missões (distante 24 km do Caaró) devem ser agendadas para o dia anterior à Romaria ou para o horário posterior ao seu encerramento.

A CPT lembra ainda que a Romaria da Terra não visa lucro, é uma atividade coletiva, desenvolvida através do exercício da partilha. Por isso, convida a todas e todos que puderem contribuir com doações para o pagamento das despesas são convidados a utilizar o pix 02.375.913/0016-02 (CNPJ da Comissão Pastoral da Terra).

Programação da 48ª Romaria da Terra do RS

Onde: Santuário do Caaró – Caibaté (RS)

Quando: 17 de fevereiro de 2026

  • 7h – Acolhida dos romeiros e romeiras, com café da manhã
  • 8h30 – Abertura da Romaria
  • 9h – Caminhada pelo bosque e celebração eucarística
  • 12h – Partilha dos alimentos, visita às tendas e tribuna popular
  • 15h – Celebração de envio
Serviço
  • Levar garrafa ou caneca (água potável disponível à vontade no local);
  • Trazer alimentos e sementes crioulas para partilha;
  • Levar boné, chapéu e proteção para sol e chuva;
  • Encerramento previsto para 15h30;
  • Acesso por asfalto, com estacionamento para ônibus próximo ao Santuário;
  • Se possível levar sua cadeira, prato e talheres;
  • Se necessário, utilizar protetor solar e repelente;
  • Organize-se para não produzir lixo, mas se o fizer, recolha e armazene nos locais adequados;
  • Não serão permitidos vendedores ambulantes, apenas feirantes agroecológicos inscritos previamente.

Contribuições: Comissão Pastoral da Terra regional RS (CPT) – Pix: CNPJ 02.375.913/0016-02

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