COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

Em fevereiro deste ano, a revista estadunidense The New Yorker publicou perfil jornalístico de Jeane Bellini, que compõe a coordenação nacional da CPT. O perfil, publicado originalmente em inglês, foi traduzido na íntegra para o português. O texto reconta a trajetória de Bellini e sua atuação na CPT.

Texto: Elizabeth Barber/The New Yorker
Foto: Gabriela Portilho/The New Yorker

Tradução: Xavier Plassat
Revisão da tradução: Jeane Bellini e Carolina Motoki

Texto original, em inglês: A nun's journey in the Amazon

 

Como você faz a diferença em uma luta

que pode nunca acabar?

 

Jean Bellini é uma freira que acredita que Deus nos fez livres e que usamos mal a nossa liberdade. Nós a usamos para criar colonialismo, capitalismo e outros sistemas que exploram os pobres e beneficiam os ricos; nós a usamos para construir um mundo em que algumas pessoas têm demais e outras, nada. Agora, estamos com um dilema. Quando coisas terríveis acontecem, Bellini às vezes ouve as pessoas dizerem que pode dar tudo certo "se Deus quiser". Ela pensa: eu não colocaria esse fardo em Deus. Ele nos fez livres, e não é Seu trabalho nos salvar.

Bellini acredita que Deus dá a todos uma vocação. A dela é ajudar os outros a se ajudarem. Em 1976, aos trinta e três anos, decidiu mudar-se do norte de Nova York para o Brasil, onde sua congregação, de Rochester, tinha um pequeno posto avançado. Ela tinha sido informada que a ditadura militar do Brasil havia decidido abrir espaço na floresta amazônica a todo tipo de empreendimentos comerciais: uma fazenda de gado pertencente à Volkswagen, uma plantação de borracha para a Goodyear. O problema era que muitas pessoas, de grupos indígenas a pequenos agricultores posseiros, já viviam na Amazônia. Eles estavam sendo expulsos de suas terras e a floresta estava sendo destruída.

Ao chegar ao Brasil, em 1500, o catolicismo foi cruel com os povos que ali encontrou. Os colonos portugueses reivindicaram um imprimatur religioso, para batizar as pessoas que eles escravizavam e vender a floresta por partes. "A partir do momento em que Colombo pôs os pés no Novo Mundo, cruz e espada passaram a não ser mais distinguíveis", escreveu Penny Lernoux, jornalista investigativa católica, em seu livro "O Grito do Povo". Quando o Brasil declarou sua independência de Portugal, em 1822, a Igreja latino-americana era "a força política mais conservadora do continente". Em 1964, quando os militares do Brasil assumiram o poder, os bispos do país cumprimentaram calorosamente os generais. “Olhe atrás de um ditador; lá está um bispo”, escreveu Lernoux.

No entanto, quando Bellini chegou, encontrou uma Igreja brasileira fraturada e que estava, em muitas de suas paróquias, revisando seu pensamento. A Comissão Pastoral da Terra (CPT), um novo grupo católico fundado por bispos, organizava os sem-terra do Brasil para reivindicar a terra que lhes era negada; sua missão era documentar todos os conflitos fundiários e, sempre que possível, oferecer orientação. O trabalho da CPT não terminou quando, em 1985, a ditadura militar brasileira acabou e deu lugar a uma sucessão de frágeis governos democráticos. No outono de 2018, os eleitores elegeram o presidente Jair Bolsonaro, um político populista, um ex-militar, determinado a saquear a Amazônia. Cerca de um milhão de quilômetros quadrados da floresta amazônica se enquadram no território brasileiro; como Jon Lee Anderson escreveu recentemente, nesta revista, sua “destruição se tornou para Bolsonaro uma espécie de objetivo político perverso”. Ele enfraqueceu as agências reguladoras, buscou nova legislação para priorizar a mineração e a exploração petrolífera, e acusou ambientalistas de neocolonialismo. Os povos indígenas, ele disse, são uma "catapora" sobre a floresta tropical.

Essa retórica é um convite para os aproveitadores violarem a lei. Desde que Bolsonaro assumiu o cargo, milhares de incêndios, muitos deles causados ​​por garimpeiros, desmataram e devastaram a Amazônia. A CPT documentou trinta mortes em conflitos pela terra, no ano passado. A entidade começou a realizar oficinas de segurança, aconselhando os voluntários que trabalham em ambientes de conflito a se comunicarem por meio do Signal, serviço de mensagens criptografadas, e a escolherem cuidadosamente quem for cuidar da manutenção de seus automóveis. A situação é tão terrível que, no outono passado, cento e oitenta e cinco bispos se reuniram por 21 dias, no Vaticano, para um sínodo sobre a região amazônica. Lá, eles declararam que prestar apoio às pessoas expulsas de seu chão é um "requisito de fé". A Igreja, em 2020, está determinada a ser não-colonial. As comunidades que chamam a floresta de sua casa, escreveram os bispos, “sabem cuidar da Amazônia, como amá-la e protegê-la”, e é tarefa da Igreja “acompanhá-las, caminhar com elas e não impor a elas uma maneira particular de ser.”

Em uma manhã de domingo, em agosto, Bellini, que tem setenta e seis anos, estava em seu quarto em Goiânia, Brasil, preparando sua mala de rodinhas para pegar um voo rumo a Amazônia. Ela tem cerca de um metro e cinquenta de altura, cabelos brancos encaracolados e rosto estreito, sem rugas. Ela é atualmente um membro da coordenação executiva da CPT. Em Manaus, capital do Amazonas, a CPT acabava de contratar novos agentes. Em 2018, foram mais de mil conflitos por terra no Brasil, quase metade deles na Amazônia; a CPT tem um time de cerca de 700 pessoas, formado em maioria por voluntários, mas até recentemente havia apenas um agente em Manaus. Bellini estava indo lá para ver como estavam indo os novos contratados. Ela selecionou três travesseiros para suas costas ruins: um para o avião e dois para a cama de solteiro em que dormiria, em um seminário local. Depois ela foi à cozinha tomar o café da manhã.

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Bellini vive com a irmã Maureen Finn e a irmã Joana Mendes, que pertencem à sua congregação, as Irmãs de São José de Rochester. A congregação tem nove mulheres no Brasil. Construiu esta casa em 2012. Possui painéis solares, uma sala de oração com dobraduras de papel japonesas pendentes e uma pequena biblioteca contendo livros dos teólogos da libertação da América Latina e do Dalai Lama. Entre elas, há muita conversa sobre Bolsonaro.

"Ele disse uma coisa realmente nojenta ontem", disse Finn, abrindo um jornal na mesa da cozinha. "Eu nem consigo repetir."

Ele disse que "As pessoas deveriam poluir menos, cagando menos", disse Bellini. Ela tirou da geladeira um grande prato de iogurte misturado com leite - um experimento para alongar o tempo de vida de um dos produtos mais caros.

Aos domingos, Bellini participa da missa na igreja Nossa Senhora da Terra, um edifício octogonal dedicado a uma figura simbólica dos pobres do campo no Brasil, representada em imagens como uma mulher de queixo altivo e pele escura que não se parece com as representações clássicas da Virgem Maria. Estacionamos em frente a um salão de beleza, atravessamos a rua e deslizamos para a segunda fila de bancos. Um homem toca violão enquanto os membros da congregação batem palmas e balançam. Quando a música ficou realmente animada, Bellini começou a bater o pé. Neste momento o padre desceu do altar para fazer sua homilia, em português.

Depois, no carro, Bellini resumiu o que o padre havia dito: Deus não vai ajuda você, então ajudem-se uns aos outros; você pode não ver os resultados do seu trabalho antes de morrer, mas é significativo de qualquer maneira, porque as pessoas nascidas depois de você são tão importantes quanto você. Este foi um credo que Bellini aprovou. Era dia dos pais no Brasil e as lojas estavam fechadas; os sinais de cor vermelha e dourada da Assembleia de Deus - a denominação pentecostal em que Bolsonaro foi batizado antes de assumir seu mandato presidencial, embora ele ainda seja católico - se destacam em meio a canteiros de obras abandonados e prédios de concreto. Nos últimos anos, o catolicismo brasileiro está em declínio e o pentecostalismo em ascensão. "Eles se concentram em 'Nossa condição é pecaminosa e precisamos de redenção'", argumentou Bellini sobre a Assembleia de Deus. Usando óculos escuros sobre os óculos comuns, ela trocou de marcha, com esforço. Ela contou como, logo após Bolsonaro assumir o cargo e começar a cortar os serviços sociais, um conhecido que participa da Assembleia de Deus sugeriu que as dificuldades que disso resultavam, e também as queimadas na Amazônia e as famílias tiradas de seus lugares, eram "sinais do fim dos tempos".

"Siga estas regras e você será salvo", continuou Bellini, resumindo as perspectivas da Assembleia. "Isso mantém os pobres no lugar deles." Se as coisas fossem de seu jeito, aqueles a quem foi negada sua porção na Terra perceberiam que essa situação não é o plano de Deus. Eles se uniriam e criariam o mundo justo e igual que Deus deseja. Da esquerda, um carro roubou a prioridade e adentrou repentinamente em nossa pista, nos cortando o caminho. Bellini assobiou em frustração e lançou um olhar duro.

*

A paisagem do Km 152 da Rodovia BR-174 é elegante no seu tom verde. A umidade aqui é implacável. O governador do Estado do Amazonas concedeu o primeiro título a esta área no verão de 1970. Naquela época, a floresta ao norte de Manaus era habitada pelo povo indígena Waimiri-Atroari. O Estado brasileiro, sob a direção do Exército, decidiu removê-los, para que outros pudessem usar a floresta para gerar lucro; nos conflitos subsequentes com o governo, membros desse povo morreram aos milhares. Mas o novo proprietário desta terra, na verdade, não morou nela; nem o seu sucessor, nem o próximo, nem o próximo, nem o próximo. Ela permaneceu com floresta e pouco desenvolvida. Em 1999, um homem chamado Valdomiro Machado e alguns companheiros chegaram lá em uma canoa com motor. O local lhes pareceu um lugar bom para viver. Machado e os outros homens chamaram suas famílias para se juntarem a eles. Chegaram pela água e chamaram a área “Terra Santa”.

As seis famílias, todas de agricultores de terras pequenas, vindo de diferentes estados do Brasil, haviam se encontrado numa igreja da Assembleia de Deus nos arredores de Manaus, onde pararam enquanto procuravam novas terras para cultivar. Na Terra Santa, o grupo derrubou a floresta apenas o suficiente para construir suas pequenas casas, semear couve e abobrinha e, finalmente, criar algum gado. À medida que a sombra recuava, os mosquitos também. Eles construíram seu próprio templo da Assembleia de Deus. Como ninguém veio expulsá-los da terra, mais posseiros apareceram. Logo, cerca de quarenta famílias moravam ali.

Um dos novos entre os que chegaram era um homem com nome João. Em 2008, três anos depois de sua instalação, ele anunciou aos outros posseiros que havia adquirido o título legal da Terra Santa. Machado tinha um lote próximo à água; segundo ele, esse lote era ao mesmo tempo conveniente e bem bonito. Para adquirir esse seu lote, Machado diz que João ofereceu cerca de quinze mil dólares e um caminhão usado; Machado recusou ambas as propostas. Em seguida, João conseguiu uma ordem judicial para despejar Machado. Pouco tempo depois, ele apareceu com alguns policiais e uma escavadeira; destruíram a casa de Machado, onde ele criava sete filhos. (João diz que Machado e outros vizinhos rejeitaram a oferta que lhes fez de dar-lhes títulos gratuitos). Machado, que tem setenta e três anos, deixou a Terra Santa para Manaus, onde vive de aposentadoria. Alguns de seus vizinhos o seguiram até a cidade. João adquiriu as terras deles, abriu uma serraria na Terra Santa e, mais tarde, um negócio de construção em Manaus.

No início da manhã de uma terça-feira, Bellini subiu no banco de trás de um Fiat cupê para fazer a viagem de Manaus a Terra Santa. Com ela estavam dois novos agentes da CPT: Maria Agostinha de Souza, freira, de cabelos cacheados, estava ao volante do Fiat; Maiká Schwade, um geógrafo loiro que fez seu trabalho de doutorado sobre os conflitos de terra da região, seguiu em seu próprio carro. Manaus funciona como uma estação de apoio para quem viaja para a Amazônia. Enquanto os carros se aproximavam do norte, Bellini abriu a janela. Ela contemplava as placas de shoppings e de um Motel ‘I Love You’. Bellini via campos de cana-de-açúcar, restaurantes abandonados à beira da estrada, caminhões-tanques de óleo e, depois, nada mais além da floresta, na qual, duas horas depois, pegamos uma curva à direita. A estrada de terra estava tão picada pela erosão das chuvas e das rodas de caminhões que Souza, que até então, tranquilamente, orava em voz alta, parou para se concentrar na direção do carro. Atrás, Bellini balançava alegremente. Era incrível, ela disse, o quanto os posseiros haviam feito com a terra, adornada com cercas para o gado e com estufas para a pimenta. Então Souza passou por um depósito de madeira e todos franziram as sobrancelhas.

Souza virou numa clareira e estacionou ao lado de uma casa de madeira de dois andares. Bellini, vestindo uma blusa com estampa de palmeiras, calça bege capri e sandálias, manobrou para cumprimentar Hebrain, que morava lá com sua esposa, Regina, e seu bebê. Regina sorria e cuidava de uma lenha para seu fogão ao ar livre. Ela usava um vestido estampado e pintara as unhas dos pés de verde neon. A temperatura era de quase 38 graus. Os insetos pousavam nas paredes da casa, batiam as asas e depois desapareciam. A floresta estava barulhenta com criaturas invisíveis. Os agentes da CPT seguiram Hebrain, que usava uma camiseta regata e shorts de futebol, por um caminho arborizado e enlameado para ver seus plantios de pepino. Parando na frente das roças, ele sacudiu as formigas dos chinelos.

Bellini e Maiká Schwade visitam a casa do pai de Hebrain, um dos muitos agricultores ameaçados em Terra Santa, Brasil. Fotografia de Gabriela Portilho para The New Yorker

Bellini recuou enquanto Souza e Schwade conversavam com Hebrain sobre João, que, explicou Hebrain, continuava vindo para ordenar que saíssem da terra. Hebrain havia crescido ali; logo abaixo da rodovia, seu pai tem pastagens suficientes para 25 cabeças de gado e uma casa com uma varanda pintada de amarelo.

Bellini cruzou os braços. "Como você está se defendendo?" ela perguntou ao Hebrain, em português.

"Confiando em Deus", ele respondeu. Seu sorriso revelou aparelho amarelo cor de banana.

O grupo tomou um pouco de água e voltou para os veículos. Depois de alguns minutos de carro, o comboio chegou a uma casa de cor azul vivo, pertencente a Luis, um agricultor de oitenta anos que tem uma antena parabólica alta instalada no quintal; a antena surgia do chão tal um ponto de exclamação. Luis tirou as galinhas da varanda e conversou com Souza e Schwade. Ele tinha uma convocação para julgamento em breve, disse ele, mas não conseguia identificar na papelada se ele era o réu. Não, explicou Schwade – tratava-se de um caso movido contra João.

O filho de Luis, Benedito, morava com a esposa, Camila, em uma casa logo atrás da propriedade. Lá, Camila serviu o almoço. Bellini espiou dentro das panelas de metal. Ela pulou o prato de carne, mas colocou alguns ovos e arroz em um prato.

"Uma coisa é ouvir sobre uma situação", disse Schwade a Bellini, enquanto comia. "Outra coisa é vir ao local e vê-la."

"Você compreende muito mais se você visita", disse Bellini.

*

A palavra de Bellini para falar do seu trabalho é "acompanhamento". O termo, que é antigo, dá aos católicos uma maneira de servir as pessoas que sofrem ou de servir ao lado dessas pessoas, inclusive aquelas que não compartilham totalmente sua fé. Em 2013, o Papa Francisco descreveu o acompanhamento como uma maneira alternativa de estar com uma pessoa – em uma época “que paradoxalmente sofre de anonimato e ao mesmo tempo fica obcecada com os detalhes da vida dos outros, descaradamente entregue à mórbida curiosidade”: é uma maneira de manifestar "a proximidade de Cristo e seu olhar pessoal". A Igreja, escreveu ele, deveria "formar todos – sacerdotes, religiosos e leigos – nessa ‘arte de acompanhar’, que nos ensina a tirar nossas sandálias frente ao solo sagrado do outro".

Alguém que acompanha, como Bellini faz, deve perguntar à pessoa acompanhada o que pode lhe ser útil, em vez de querer resolver o problema dela. A pessoa acompanhada é a protagonista; essa é a sua jornada e ela sabe como fazer. Isso faz sentido para alguém, religioso ou não, que acredita que os outros são, nas palavras de Francisco, "mistérios que ninguém pode conhecer completamente de fora". Pode fazer menos sentido para quem acredita que existe uma maneira certa de fazer algo: uma maneira certa, por exemplo, de obter o título de uma terra. Mas praticar acompanhamento não é resolver problemas. Trata-se de trabalhar como Deus faz – caminhar com um mundo imperfeito, que se transforma, sutil e lentamente, naquilo que Ele sonhou.

A primeira pessoa que Bellini acompanhou foi sua mãe, Mary, que tinha cinquenta anos e estava morrendo de um câncer. Bellini tinha 26 anos. “O que havia de tão especial nela eram seus olhos”, ela lembra. “A maneira como ela olhava para nós – a maneira como ela fazia cada um de nós sentir que éramos especiais. Ela tinha oito filhos e, quando segurava um filho no colo, ela dizia-lhe ‘amor da minha vida’”. No momento da morte de sua mãe, Bellini estava participando de um grupo ecumênico de oração. O grupo disse a ela que, se ela orasse muito, sua mãe poderia ser curada. “Ela tinha um câncer! Eu estudei biologia”, disse Bellini. "Você fica doente. Em algumas famílias, eles podem dizer: ‘Por que ela? Ela tem uma família!'. Bem, por que ela deveria escapar, quando milhões de pessoas em todo o mundo estão morrendo de fome, de doenças curáveis? Faz parte da condição humana. A violência existe no mundo. Sempre existiu. Mesmo na Bíblia. Jesus morreu na cruz – Deus, o Pai, não veio e não derrubou a cruz.”

Bellini nunca esperou que Deus salvasse sua mãe; ao mesmo tempo, ela sentiu que Deus estava com Mary quando ela morreu, e com Bellini e sua família depois. Ainda assim, acreditar que Deus não ajudará não é se conformar com a ideia que Deus não ajuda. As irmãs da congregação de Bellini fazem retiros anuais, que implicam em viajar para algum lugar e passar um tempo de reflexão silenciosa. Durante uma década após a morte da mãe, Bellini achou difícil ficar sozinha com seus pensamentos. Olhando para trás, ela pensa que estava com raiva de Deus. Ela tinha feito seus votos apenas alguns anos antes. Talvez assustada por essa sua raiva, ela vivenciou isso como uma terrível tristeza.

Quando pessoas enlutadas chegam a Bellini e perguntam "Por que, Deus?" ela pensa nesse momento de sua vida e se guarda de dizer-lhes como viver isso. Ela não diz que todos nós somos igualmente ameaçados pelo sofrimento, independente de aparentarmos alguma proteção contra isso, ou que todos nós podemos perder pessoas que amamos ou que todos temos que morrer. Ela acredita que, embora seja algo inevitável, sofrer é algo pessoal. Quem é ela para dizer a alguém como se sentir sobre qualquer coisa? Porém, uma coisa é acompanhar um moribundo ou uma pessoa aflita, e outra é acompanhar alguém que vem enfrentando uma burocracia complicada: que enfrenta todo tipo de sistema, toda forma de ilação e de ganância humana que fazem do mundo o que ele é hoje.

*

Na manhã seguinte, Bellini entrou novamente no Fiat de Souza, para viajar para uma reunião de posseiros em Rio Preto da Eva, cerca de 140 quilômetros ao norte de Manaus. Mais de cem famílias estavam ali, angustiadas com um projeto estatal de agronegócio que pretendia expulsá-las de seus sítios para realocá-las em pequenos lotes urbanos, onde não teriam como manter seus plantios. Souza estacionou perto de uma clareira no meio das árvores, disposta em forma de pequeno auditório ao ar livre. Duas dúzias de agricultores estavam sentados em cima de suas motos ou de bancos de madeira novos e limpos, formando um meio círculo. Um dos homens escolheu seu assento e logo plantou seu facão na madeira, guardando-o ali durante toda a reunião.

Uma freira que trabalhava como voluntária na CPT dirigiu-se ao grupo. Ela explicou que até o papa estava preocupado com situações como a deles, e por isso foi que ele chamou todos os bispos para Roma para falar sobre a Amazônia. "Espero que vocês não desistam", disse ela.

Uma mulher, jovem e com alguns dentes faltando na frente, cuidava de sua criança, cansada. Ela havia visitado há pouco tempo a área para onde os agricultores teriam que se mudar. Bellini queria que ela falasse a todos sobre isso. "As mulheres também podem falar", disse ela, levantando-se um pouco da cadeira, imitando o gesto de se levantar.

A mulher recusou. Em vez disso, um líder comunitário chamado Douglas se levantou. Segundo ele, parecia que alguns de seus vizinhos haviam visitado a terra antes dos outros, esperando assim garantir para si os melhores lotes.

"Vocês têm que ficar unidos aqui", disse ele. "Vocês não podem se dividir."

Douglas sentou-se e, em seguida, seus vizinhos se levantaram um a um para dizer que, sim, eles foram ver as novas residências, mas eles não estavam tramando nada de ruim – eles só queriam saber o que esperar. E, continuando, disseram que o novo bairro era exatamente como temiam: impróprio, sem terras para cultivar suas plantações, nem um posto de saúde, nem uma boa estrada pela qual seus filhos pudessem ir para a escola.

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Quando chegou a vez de Bellini, ela ficou sentada enquanto falava, em português. Os agricultores, disse ela, deveriam considerar se filiar à associação local, liderada por Douglas, para poder ter uma representação coletiva junto ao governo. Eles poderiam realizar outra reunião e, naquele momento, convidar um funcionário local do governo. Ela falou gentilmente, movendo as mãos e batendo nas moscas que pousavam nos tornozelos. Alguns agricultores pareciam cansados e se reclinavam para frente sobre o guidão. O ponto mais importante, ela disse, era que eles precisavam trabalhar juntos. Seria fácil para os funcionários do governo enganar a comunidade, desde que alguns deles concordassem com suas novas propostas; os demais aldeões não teriam como defender mais nada. O resultado seria melhor para todos se os agricultores se recusassem a aceitar qualquer coisa que não fosse assegurar a justiça para todos os moradores do povoado e se todos concordassem em resistir ao desempoderamento que se tornava a regra para quem não tivesse como pagar a solução do seu problema. Quando terminou, afastou do seu cabelo uma pequena aranha.

Bellini entrou no convento em 1966, aos 23 anos. Cinco anos antes, o papa João XXIII havia pedido às ordens religiosas americanas que enviassem dez por cento de seus membros à América Latina; o papa fez isso porque o Vaticano, como o governo dos Estados Unidos, via a União Soviética e seu comunismo ateu como uma ameaça. Durante esses mesmos anos, no entanto, os teólogos da Igreja latino-americana começaram a reconsiderar o marxismo. Em 1968, os líderes e pensadores católicos da região se encontraram em Medellín, Colômbia. Avaliaram que o status quo, do qual a Igreja havia sido uma defensora ímpar, deixara a maioria da população do mundo debaixo da opressão e que o catolicismo deveria estar do lado de sua libertação. Os teólogos da libertação, como vieram a ser conhecidos, estavam propondo uma nova compreensão do pecado. O pecado não era apenas individual; podia ser social, sistêmico e estrutural. Era a desigualdade que existia antes da missa e permanecia depois; era a distribuição do cenário internacional entre países hegemônicos e países explorados; era o neocolonialismo e o neoliberalismo. A absolvição, escreveu em 1971 o padre peruano Gustavo Gutiérrez, deveria resultar de "uma revolução social".

O catolicismo de Bellini, de certa forma, tem navegado longe do Vaticano – uma instituição hierárquica centralizada, intrinsecamente resistente a mudanças – desde os anos 1980, quando este sancionou os teólogos da libertação por serem marxistas sacrílegos. Sob Francisco, o Vaticano mudou de uma maneira que é encorajadora para Bellini, mas permanece em geral teimosamente ortodoxa, especialmente quando se trata das mulheres. Bellini já esteve em Roma uma vez, como turista; ela gostou dos museus de arte, mas não ligou para a Basílica de São Pedro, que ela achou indiferente e distante do Deus que ela conhecia. Ela não usa cruz, porque não concorda com o modo como este símbolo foi cooptado por bancos e por traficantes de droga no Brasil, como marca de poder e riqueza; ela não reza antes das refeições, a menos que alguém o sugira, porque ela não topa com orações mecânicas. Quando perguntei a Bellini se ela acredita no Céu e no Inferno, ela disse que não: ela acredita que tais conceitos são explicações limitadas para um quebra-cabeça que está bem além do nosso entendimento. Bellini sustenta que todos – homem ou mulher, ordenado ou leigo – possuem uma parcela igual daquilo que o teólogo da libertação brasileiro Leonardo Boff chamou de "carisma" – um presente, escreveu Boff, através do qual se pode estar "a serviço de Deus e do próximo." "Os diferentes papéis são porque você recebeu um presente para viver daquela maneira", disse Bellini. "Não é que você seja melhor."

O objetivo "não é gerar progresso no mundo", concluiu. É ajudar as pessoas a "se tornarem mais independentes, melhor dizer: interdependentes". Foto: Gabriela Portilho para The New Yorker

Agentes de pastoral como Bellini, que vivenciam esse acompanhamento, são incentivados a viver como os pobres, no que ela descreve como um “ministério da presença”, que “comunica confiança, solidariedade, apoio, compartilhamento de dificuldades e possibilidades”. Durante anos, ela morou em uma casa de barro com teto de palha, usando um balde para tomar banho; quando era mais nova, ela ia de bicicleta de povoado em povoado. Na CPT, ela pratica uma forma de pedagogia de inspiração marxista idealizada por Paulo Freire, um filósofo brasileiro. “Antes de partilhar seu conhecimento com pessoas que não sabem ler e de destacar que você é mais esperto ou sabe mais, a primeira coisa é fazê-los falar sobre o que sabem e qual é a experiência deles, e então você estabelece um relacionamento de troca, não de domínio”, explicou ela. Certa vez, ela percebeu que um agricultor parecia ter laranjas de sobra; com confiança, ela o orientou a vendê-las no mercado local. "Se tenho muitas laranjas, dou-as a pessoas que não têm laranjas. São um presente gratuito de Deus”, disse ele para ela. Essa foi uma lição para Bellini: ela não podia só dizer às pessoas como resolver seus problemas.

Talvez, ela pensou, Douglas estivesse certo. Talvez alguns dos agricultores de Rio Preto da Eva estivessem protegendo suas apostas com o governo. Se sim, quem poderia culpá-los? As intermináveis ​​reuniões comunitárias que Bellini defendia poderiam não protegê-los de terem que mudar de suas terras. Em um e-mail, perguntei-lhe se ela já havia tido a tentação de resolver os problemas diretamente: na Terra Santa, por exemplo, ela poderia encaminhar a documentação adequada e ir falar pessoalmente com os próprios funcionários do governo. A revolução social não iria ser assim realizada com muito mais eficiência?

A história brasileira, ela respondeu, “está repleta de histórias de pessoas e organizações bem-intencionadas que vieram de fora da realidade vivida pelas comunidades e grupos e tentaram ajudar, usando sua experiência de outras terras e aplicando-a naqueles com quem vinham conviver por algum tempo ":

“Uns foram desastres desde o início, outros começaram bem, mas com o tempo ficou claro que o projeto era deles, todo o processo, do diagnóstico à execução, e as pessoas “atendidas” recebiam sua intervenção, às vezes com gratidão, MAS as pessoas continuavam a ser carentes e um tanto passivas. E, quando o forasteiro saía, o projeto morria.’

Seu objetivo "não é gerar progresso no mundo", concluiu. É ajudar as pessoas a "se tornarem mais independentes, melhor dizer: interdependentes".

Alguns anos atrás, quando Bellini comemorou seu quinquagésimo aniversário como irmã, ela organizou uma apresentação em PowerPoint para compartilhar com sua congregação, lá em Rochester. Ela incorporou algumas citações dos escritos de Pierre Teilhard de Chardin, um francês, padre e paleontólogo. Chardin acreditava que a evolução era teleológica: para nos elevarmos ao que ele chamava de "Ponto Ômega", devemos "convergir". Fazemos isso, escreveu Chardin, em parte por causa do nosso "sentido cósmico" – "a afinidade mais ou menos confusa que nos liga psicologicamente ao Tudo que nos envolve" e que "deve ter nascido assim que o homem se viu diante da floresta, do mar e das estrelas."

Como Chardin, Bellini acredita que a convergência é um processo lento. Leva tempo para andar pela Amazônia de bicicleta, ou mesmo de carro; requer paciência para ajudar as pessoas a se ajudarem e a si mesmas, em vez de interceder diretamente em seu nome. "O problema com a teologia da libertação", disse-me Andrew Chesnut, professor da Universidade Commonwealth de Virginia e especialista em cristianismo no Brasil, "é que, se você está tentando construir uma sociedade mais cristã, onde todos nos tratemos como irmãos e irmãs, e formos iguais, esse é um projeto de longo prazo.” A fé de Bellini pode ser vista com mais evidência na sua paciência.

*

Bellini não é uma pessoa naturalmente paciente. Quando criança, ela mandava nos seus seis irmãos e irmãs mais novos na granja de marrecos em Long Island, onde todos cresceram; em casa, em Goiânia, às vezes ela corta e pisa no barro da rotatória em vez de contorná-la. Em Manaus, na noite anterior à reunião dos agentes da CPT que deveria começar às 8 da manhã, ela me enviou uma mensagem pelo WhatsApp instruindo-me a encontrá-la no saguão do meu hotel às sete e meia, para podermos compartilhar um Uber para uma corrida de aproximadamente dez minutos até à arquidiocese. Às seis e quarenta e dois da manhã seguinte, ela me enviou um artigo sobre incêndios na Amazônia. Às sete e quatro, ela escreveu: "Vejo você em 25 minutos". Às sete e meia: “Bom dia. Estou esperando você na área de recepção. "Às sete e trinta e um: "Devemos sair em breve".

Quando cheguei ao saguão, ela estava esperando em uma cadeira rígida, com o telefone na mão, vestindo capris rosa-choque e um olhar de reprovação vaga, que rapidamente se suavizou com a preocupação de eu ter tomado café da manhã. Entramos em um Uber às sete e trinta e seis e chegamos à arquidiocese antes que o café fosse preparado.

O auditório onde a reunião era realizada zumbia com ar condicionado; no palco, com os pés mal tocando o chão, Bellini estava sentada ao lado de seis homens, incluindo Schwade, dois bispos, um padre e um professor. Todo mundo usava jeans e camiseta, de modo que agricultores, líderes indígenas e bispos eram indistinguíveis. Quando chegou a vez de Bellini falar, ela falou tranquilamente sobre as gafes burocráticas que podem atrasar a resolução de conflitos de terra na Amazônia. O problema, explicou ela, é que, antes que alguém possa começar a tentar resolver um conflito, a CPT precisa analisar todas as diferentes agências governamentais para descobrir qual delas é responsável pelo caso: agências diferentes cobrem diferentes jurisdições e categorias de pessoas. Ela estava calma e bem pé-no-chão. Quando seu tempo acabou, desceu as escadas com os outros participantes, sentou-se na plateia e colocou os óculos.

Um novo grupo de palestrantes, todos de comunidades em conflito, subiu no palco. Valdomiro Machado, da Terra Santa, era um deles. Ele usava um relógio e uma camisa de colarinho de mangas curtas e era extremamente magro – enquanto estava em pé, o microfone em suas mãos parecia um haltere.

"Vou falar pelo estado – o estado democrático da lei – porque todos devem lutar por ele", começou Machado. "Não apenas pelos seus próprios direitos, mas pelos direitos de toda a população."

Bellini ficou um pouco preocupada enquanto o observava. "Ele está falando em geral", ela me disse em voz baixa. "Ele não está falando sobre a Terra Santa." Ela queria que ele fosse específico, para que as autoridades estaduais e federais que, segundo ela tinha sido informada, estavam na plateia, ouvissem fatos que pudessem usar.

"O que falta no Brasil é a aplicação da lei", continuou Machado, caminhando pelo palco. Ele sorriu no canto da boca, como se quisesse que todos soubessem que era OK rir desta piada cósmica sobre a democracia brasileira. Então, por dez minutos, ele contou à plateia sobre a Terra Santa. Bellini relaxou ao meu lado. "Ninguém quer lutar para defender a classe pobre", concluiu. "Somos nós que temos que lutar por isso." Bellini aplaudiu.

Depois de um intervalo para comer fatias de melancia e bolo, alguns funcionários do governo subiram ao palco. Um jovem de uma agência estatal usava uma camisa rosa de botão e tinha uma expressão de polidez automatizada. Schwade perguntou a ele o que havia acontecido com um pedido de informações que ele lhe havia enviado; o funcionário disse que não fazia ideia.

"Esse cara é apenas um burocrata", Bellini sussurrou para mim, em voz alta.

Outra pessoa, uma funcionária do governo federal, equipada com fartos acessórios, pegou o microfone. Ela olhava para cima e para baixo do seu notebook enquanto respondia, longamente, aos representantes das áreas de conflito. Bellini considerava com curiosidade essa funcionária.

"Vamos ver o que ela faz", Bellini sussurrou. "Ela pode falar e não fazer nada."

Eu perguntei a Bellini se poderíamos almoçar com Machado, então fomos juntos a um restaurante buffet, e Bellini traduziu para mim. Machado vinha a painéis como esse o tempo todo, disse ele. Ele foi a reuniões, audiências e conferências. Mas ele ainda não podia voltar para casa. Às vezes, ele se perguntava qual era o sentido daquilo. Ele tocou uma mensagem de voz do WhatsApp que acabara de receber da Terra Santa, na qual um vizinho explicou que alguém havia acabado de colocar areia no terreno antigo de Machado; parecia um canteiro de obras.

Após o almoço, Bellini foi de Uber de volta ao seminário em que estava hospedada e, na biblioteca, abriu seu laptop para escrever um e-mail para Schwade e Souza, em português. Ela ficou satisfeita por ter visto “um espírito e uma prática de equipe, cada um assumindo parte do todo, ninguém dominando ou monopolizando conversas; pelo contrário, interação mútua, ajuda e respeito", escreveu ela. “Vocês têm encorajado outros a não desistir. Todo mundo aprende, todo mundo ensina.” Então clicou em ‘enviar’, abriu o Netflix e assistiu a quinze minutos de um documentário sobre John Lennon antes de ir para a cama.

Sínodo para a Amazônia abriu o futuro

*

Dois rios se encontram nas proximidades de Manaus. Um, o Rio Negro, é escuro, e o outro, o Amazonas, pálido. Por quase seis quilômetros, os rios correm paralelamente, sem se misturar. No último dia de Bellini em Manaus, perguntei se ela iria ver o encontro das águas comigo e ela disse: "Claro!" – é o que ela diz para quase toda proposta que lhe for apresentada. Esperamos no saguão do hotel por um ônibus de turismo que viria nos pegar. O ônibus estava atrasado e Bellini apontou que a previsão era de chuva. Pedi desculpas, mas ela deu de ombros. "Se não der certo, faremos outra coisa", disse ela.

Quando o ônibus chegou, estava caindo muita chuva. Estávamos no trânsito quando Bellini falou sobre a primeira vez que viu o rio Amazonas, em 1978. Antes que pudesse entrar no barco, um ladrão roubou sua carteira. Ele correu para um táxi, com a carteira na mão; quando ele acelerou, ela correu atrás dele. Enquanto se afastava, o ladrão jogou a carteira intacta pela janela – uma escolha misteriosa, pensou Bellini, porque ele estava se safando e uma escolha que ela descreve não como a vontade de Deus, mas como uma casualidade. Ela acredita muito no acaso. Ela quer ser enterrada em qualquer cidade em que estiver quando morrer.

Em 2005, Dorothy Stang, uma freira do Ohio que defendia os pequenos agricultores brasileiros desde os anos sessenta, foi baleada seis vezes enquanto trabalhava na Amazônia. Nos anos noventa, Bellini e sua colega de quarto, irmã Joana Mendes, estavam em casa sozinhas quando um homem empregado por um fazendeiro bateu na porta dos fundos. Ele disse a Bellini que era melhor parar com aqueles posseiros, ou então. Bellini saiu para a varanda e olhou para ele. "Estamos fazendo o nosso trabalho", ela disse a ele. "Você pode fazer o seu." Bellini disse para ele voltar para a sua casa, e assim fez ele.

Não foi Bellini, mas Mendes, que me contou essa história; também foi Mendes quem me contou como, décadas antes, quando ela tinha onze anos, Bellini apareceu em sua aldeia – uma freira anticapitalista de bermuda, de bicicleta. “A presença dela foi notável para todos que a conheceram”, disse Mendes. Mendes havia se mudado com sua família para a cidadezinha alguns anos antes, depois que seu pai, um fazendeiro, começou a ter episódios epiléticos, forçando-os a abandonar sua fazenda. Quando Mendes completou dezoito anos, juntou-se às Irmãs de São José de Rochester como parte do primeiro grupo de irmãs brasileiras da congregação; ela agora acompanha o conselho de saúde pública de Goiânia, ajudando os pobres a terem acesso à quimioterapia e outros cuidados médicos.

Quando perguntei a Bellini se ela poderia me contar sobre alguém em particular a quem havia ajudado no Brasil, ela perguntou se podia tomar um tempo para pensar. Quando descemos do ônibus nas docas, a caminho dos rios, e ficamos parados sob um guarda-chuva esperando instruções, perguntei novamente. “Bem”, ela disse timidamente, “havia um casal...” Então, um guia turístico tatuado colocou pulseiras de papel em nossos pulsos e pegou a mão de Bellini para ajudá-la a descer a prancha molhada até o barco. Embarcamos e conversamos com o operador turístico, que queria saber se Bellini era minha avó. Bellini não voltou à questão sobre quem ela ajudara. Eu também não. Ela não pode descrever facilmente o que realizou no Brasil porque não considera as realizações como resultados específicos e discerníveis, decorrentes dos esforços de uma pessoa. "Quais foram os momentos em que Deus ajudou uma situação a avançar?", ela perguntou antes. "Não se trata de causa e efeito. Não é linear."

Bellini escolheu um assento na parte de trás. Por trinta minutos, flutuamos pelo rio Negro, passando por portos repletos de contêineres laranja. A chuva parou e, à nossa direita, o rio Amazonas apareceu, cor de cogumelo. Bellini colocou a cabeça pela janela. Ela queria ver mais claramente aonde os rios iam se fundir.