COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

Os conflitos fundiários têm sido o principal motivador da violência contra os Guarani do oeste do Paraná.

Por Adi Spezia – Assessoria de Comunicação do Cimi

Imagens: Povo Avá-Guarani 

Demilson Ovelar Mendes, do povo Avá-Guarani, foi assassinado a pauladas e pedradas no município de Guaíra, oeste do Paraná, na última quinta-feira, 14. Seu corpo foi encontrado no final da tarde em uma plantação de soja, a cinco quilômetros do tekoha lugar onde se é – Jevy, onde vivia com a mãe e três irmãos.

Tido pelos parentes como um rapaz tranquilo e de pouca fala, Demilson teria saído da aldeia rumo à Vila Eletrosul. De acordo com Ilson Gonçalves, cacique do tekoha Y Hovy, um dos 14 localizados em Guaíra, o jovem estaria num bar na Vila e, por volta das 17 horas, foi visto pela última vez conversando com dois rapazes de moto, os quais não foram identificados.

“Vimos as viaturas e uma ambulância passar em direção à plantação de soja, não imaginamos que se tratava do assassinato de um dos parentes”

A polícia encontrou o corpo a pouco quilômetros do bar, já sem vida e bastante machucado. “Perto das oito da noite vimos as viaturas e uma ambulância passar em direção à plantação de soja. Não imaginamos que se tratava do assassinato de um dos parentes”, conta o cacique.

Ele ainda relata que soube do assassinato apenas no feriado, já no dia 15, pela manhã, quando os agentes policiais o procuraram na aldeia para pedir ajuda na identificação do corpo. “Mandamos a foto dele para todos os parentes que tínhamos contato até que, por volta de meio dia, conseguimos identificar que era do Demilson”, conta o cacique Ilson.

Os Guarani não entendem o que motivou o jovem a sair de casa ao entardecer, já que é bastante comum injúrias e ameaças serem desferidas contra os Avá-Guarani por conta do contexto e reivindicação territorial. Moradores urbanos e rurais, por desinformação, temem perder suas casas quando o território for demarcado.

“Só o fato de ser indígena é motivo para sofrer violência física, moral ou verbal”

“O que é uma grande ilusão, nossos antepassados já viviam aqui. Só o fato de ser indígena é motivo para sofrer violência física, moral ou verbal”, denunciam os Avá-Guarani. Os Avá-Guarani relatam o aumento dos conflitos na região e atribuem ao fato de seu território não ter sido demarcado. Não raro, as investidas se traduzem em agravos físicos causando apreensão na comunidade.

Destruição do acampamento na retomada

Em protesto ao assassinato de Demilson, os Avá-Guarani fizeram no último domingo, 17, uma retomada no local onde aconteceu o assassinato de Demilson. Os indígenas montaram um acampamento com barracas de lona e estenderam faixas repudiando o assassinato.

Na manhã desta segunda-feira, 18, quatro homens invadiram o acampamento queimando as barracas e faixas. “Não conseguimos identificar os quatro homens, o ataque foi realizado enquanto um grupo havia se dirigido à aldeia para buscar mais coisas quando tudo aconteceu, mas dois índios do nosso grupo conseguiu chegar antes dos fazendeiros irem embora de moto”, relata Paulina Martines, liderança do tekoha Y’hohy.

“O fazendeiro apontou a arma em direção do peito e da cabeça de um dos indígenas dizendo que caso viesse a montar acampamento e colocar faixas outra vez, os matariam”

Os indígenas não conseguiram identificar os quatro homens que incendiaram a retomada. Crédito: Povo Avá-Guarani

Quando os dois indígenas citados se aproximavam do local do acampamento, avistando a fumaça, foram surpreendidos e ameaçados com arma de fogo. “Um dos fazendeiros se aproximou do parente e mandou tirar o capacete. Quando ele tirou, já apontou a arma em direção do peito e da cabeça de um deles dizendo que não era mais para fazer retomada no mesmo local. Caso viesse a montar acampamento e colocar faixas outra vez, os matariam”, conta Paulina.

O ocorrido foi registrado em um boletim de ocorrência na 13ª Delegacia Regional da Polícia Civil de Guaíra, onde os Guarani detalham as ameaças e também os agressores para que as autoridades possam prosseguir comas investigações.

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Papa Francisco recebe do Cimi o "Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil"

Acesse na íntegra: Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil - Dados 2015

Obrigados a viver sob violência e retaliação, os indígenas exigem que se faça uma investigação aprofundada, com o intuito de não deixar o crime impune. A violência e as constantes retaliações sofridas pelos Guarani são alvos de denúncias ao Ministério Público Federal (MPF).

Atentado recente

Há três semanas, o cacique conta que também sofreu um atentado: “um carro passou e disparou dezenas de tiros em direção à minha casa. Sofremos preconceito e violência constantemente. Por isso, os Guarani evitam sair sozinhos à noite”.

“Sofremos preconceito e violência constantemente. Por isso, os Guarani evitam sair sozinhos à noite”

Da mesma forma, em dezembro do ano passado, outro indígena Avá-Guarani, Donecildo Agueiro, do tekoha Tatury, foi vítima de um ataque a tiros, quando saiu de uma reunião com a Coordenação Técnica Regional da Fundação Nacional do Índio (Funai). Um dos disparos atingiu o jovem de 21 anos e o deixou tetraplégico.

O assassinato de Demilson e os ataques a Donecildo e Ilson são reflexos da omissão do Estado brasileiro em não dar seguimento à demarcação dos territórios indígenas. Conforme os dados do Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, sistematizado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), no último ano foram registrados 109 casos de “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio” antes 96 casos sistematizados em 2017. Nos nove primeiros meses deste ano, dados parciais do Cimi contabilizam 160 casos.

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