COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

Em artigo publicado na Coluna Vozes das Mulheres, no site da CPT na Bahia, Juliana Magalhães traz uma análise sobre os livros e as armas ao se deparar com uma loja de tiro esportivo ao lado de uma livraria. "Foi como voltar a outubro de 2018 e perceber que ainda não saímos de lá. No entanto, estamos muito pior. Se ano passado a maior guerra era de narrativas, em pouquíssimo tempo, ela já assumiu formas bastante concretas". Confira na íntegra:

Artigo por Juliana Magalhães* publicado na Coluna Vozes das Mulheres - CPT Bahia

Imagem: Elvis Marques / CPT Nacional

Há duas semanas, estava caminhando pelo shopping de Juazeiro (BA) e uma loja nova me chamou a atenção. Além da surpresa do empreendimento, o que mais atraiu meus olhos foi a sua localização. Acabou de abrir, lado a lado, parede com parede da livraria uma loja de tiro esportivo.

É apenas uma loja esportiva, eu sei, e não estou aqui para julgar quem pratica. Mas, em um país em que o presidente se elegeu ensinando crianças a fazer arminhas com a mão e, após tomar posse, tem feito uma verdadeira caçada contra a educação e a ciência, é muito simbólico ver livros e armas dividindo o mesmo espaço.

Foi como voltar a outubro de 2018 e perceber que ainda não saímos de lá. No entanto, estamos muito pior. Se ano passado a maior guerra era de narrativas, em pouquíssimo tempo, ela já assumiu formas bastante concretas.

Desde janeiro, Jair Bolsonaro editou vários decretos e enviou um projeto de lei ao Congresso propondo alterações na regulamentação da posse e porte de armas.  Na quarta-feira (21), a Câmara dos Deputados aprovou a flexibilização da posse estendida de armas de fogo em propriedades rurais. De acordo com a proposta, será permitido andar armado em toda a área do imóvel rural e não apenas na sede, como é atualmente. Cabe lembrar, que em 2018, os dados da Comissão Pastoral da Terra mostram que quase um milhão de pessoas estavam envolvidas em conflitos no campo.

Se uma face do projeto bolsonarista é fortalecer a indústria das armas, a outra, com certeza, é a acabar com a educação gratuita e de qualidade. Só das Universidades e Institutos Federais, o Ministério da Educação bloqueou 30% das verbas. Na nossa região, já acompanhamos o drama de funcionários terceirizados que foram demitidos, serviços restringidos, projetos caindo das pernas e sonhos de estudantes prestes a ser interrompidos.

Quase todo dia sai uma notícia de que Universidade A, X ou Z pode fechar as portas em breve. Enquanto isso, o ministro da Educação segue com sua carreira promissora de virar meme dançando com guarda-chuva, fazendo conta errada com bombons, etc.

Enquanto tomava um café e observava as duas lojas como se estivesse em um museu, percebi que a maioria das pessoas que passavam aparentavam curiosidade com a loja nova. Vi crianças e até senhoras pararem em frente ao vidro e fazer o gesto da arminha com a mão. “A novidade era o máximo”, me veio à mente o verso de Gil.

Além das ações concretas do Governo Federal, a grande preocupação é como a violência, a intolerância e o ódio estão naturalizados, respaldados, por quem “está à frente” do país. Na minha casa, o único brinquedo terminantemente proibido era arma. Nem aquela de água, minha mãe deixava eu, meus irmãos e sobrinhos brincarem. Pode ter sido até exagero, mas desde cedo ficou a lição que violência não é brincadeira.

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Ver pessoas de diversas idades reproduzindo simbolicamente os gestos de violência deve nos assustar, nos manter em estado de alerta. As representações do mundo social estão sempre em disputa e todo dia travamos lutas simbólicas. O time das armas parece está ganhando estas batalhas, mas sempre há chances de virar o jogo.

No último sábado (17), voltei ao shopping para assistir a pré-estreia de Bacurau. A obra de arte pernambucana que está arrematando corações no Brasil e no mundo é um retrato da conjuntura atual que merece muito ser assistida. Antes da sessão, entrei na livraria e, para minha surpresa, me deparei com a estante principal repleta de livros (ficção, biografia e análise) sobre democracia, política e lutas populares.

Por vários meses, esta estante permanencia sempre dividida entre estes livros e títulos olavistas, relacionados à extrema-direita e afins. Parece que esse time não gosta mesmo de livros (nem dos que contam os fatos ao seu modo!), tem alergia à educação e a qualquer coisa que chegue perto de um pensamento racional.

Os livros, a educação popular, a formação, o trabalho de base são as nossas “armas”. Mas como será que as estamos utilizando? Ou melhor, estamos usando? Qual foi a última vez que levamos nossos livros para passear depois do segundo turno das eleições?

*Juliana Magalhães é agente da CPT Bahia, jornalista e mestra em Extensão Rural

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