COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

Entender como as nascentes são formadas e como a interferência no ciclo das águas compromete a disponibilidade desse recurso permite a criação de redes de conscientização que possibilitam a elaboração de estratégias e práticas para a recuperação e manutenção desse bem comum. 

Amanda Costa

Fonte: Cartilha da CPT Goiás - Recuperação e Preservação de Nascentes de água: Fonte de Vida. 2009.

A água é um elemento essencial para a existência de toda forma de vida. Preservar esse bem natural e proteger a biodiversidade é fundamental para a construção de relações humanas com mais equilíbrio com o meio ambiente. Salvar as nascentes que hoje se encontram em risco assegura uma boa qualidade das águas, fortalece a produção de alimentos saudáveis e garante a vida dos rios, indispensáveis para a manutenção da vida não só no campo, mas também nas cidades. 

Nos últimos anos, o modelo do agronegócio implantado tem gerado uma grande destruição do Cerrado, de forma a não preservar a sua riqueza e respeitar as suas fragilidades, sem cumprir o que também está previsto em lei. "Muitos atribuem a devastação do Cerrado às mudanças climáticas, e isso não é totalmente verdade. As mudanças climáticas existem, podemos perceber alterações na temperatura da Terra, diminuição no fluxos e quantidade de chuvas e o desaparecimento de nascentes, mas o grande problema não está no aquecimento global, e sim nas formas de ocupação dessa região, que ainda acontece de forma muito desordenada, causando prejuízos a esse bioma", pontua Roberto Malheiros, pesquisador do Instituto do Trópico Subúmido (ITS). 

As nascentes estão desaparecendo não pela falta de chuvas, mas sim pela ação indevida do homem. Neste modelo econômico, a enxada e o machado foram substituídos por tratores, motosserras e veneno, comprometendo as vegetações e consequentemente as nascentes de águas no Cerrado. É no Cerrado que se abrigam a maior quantidade de nascentes perenes, que vão manter os rios com suas águas durante todo o ano. Com o desmatamento, ocorre a impermeabilização ou compactação do solo, que sem uma cobertura florestal, tem sua capacidade de retenção de água da chuva reduzida, dificultando o abastecimento do lençol freático. Esse processo diminui a água armazenada, reduzindo com isso, as nascentes, ribeirões, rios e bacias hidrográficas.

Entender como as nascentes são formadas e como a interferência no ciclo das águas compromete a disponibilidade desse recurso permite a criação de redes de conscientização que possibilitam a elaboração de estratégias e práticas para a recuperação e manutenção desse bem comum. 

Portanto, o que são as Nascentes?

Tecnicamente entende-se por nascente o afloramento do lençol freático, que vai dar origem a uma fonte de água de acúmulo (represa), ou cursos de água. Também são conhecidas como minas d’água, fio d’água, olho d’água, são áreas onde ocorre o afloramento das águas subterrâneas e que dão início à formação de pequenos riachos que, por sua vez, darão origem aos rios. 

Popularmente nascente é um ponto de onde a água jorra através da superfície do solo. Devido à água ter um valor inestimável e de ser essencial a vida de todos os seres vivos, as nascentes devem ser tratadas com bastante precaução (PINTO, 2003). A importância das nascentes é atestada pela legislação ambiental brasileira desde 1965,  quando foi considerada uma Área de Preservação Permanente (APP). A Lei n° 12.651 (BRASIL, 2012) as protege estabelecendo as áreas de Preservação Permanente em seu entorno. 

De onde vem a água que alimenta as nascentes? 

Para entender de onde vem essa água, primeiro é preciso saber que a água existente no planeta não aumenta nem diminui. Ela se movimenta em ciclos, modificando seu estado. Este caminho percorrido é chamado de ciclo hidrológico. A água evaporada do solo, dos mares, dos lagos e rios, é transpirada pelos animais e plantas e por ação do calor e do vento, se transformam em nuvem. Essas nuvens dão origem à precipitação, popularmente conhecida como chuva. Uma parte dessa chuva se infiltra no solo, outra escorre sobre a terra retornando para os lagos, rios e mares. A água da chuva que se infiltra no solo abastece o lençol freático que se acumula em função de estar sobre uma camada impermeável.

Conhecendo os ciclos da água

A água que os seres vivos utilizam para sua subsistência, percorre um longo e complexo caminho até estar disponível a todos. Esta movimentação ou caminho que ela percorre é cientificamente conhecido como ciclo da água. O ciclo das águas possuem várias etapas e sofre influência direta das atividades humanas nas suas ações de convivência e subsistência com o meio-ambiente, podendo estes, alterá-los de forma benéfica ou prejudicial.

O banho que tomamos, a água que bebemos e que sacia a sede dos animais, até mesmo a água que irriga as plantas, se usada de maneira correta, mantém o equilíbrio da natureza. Entretanto, sendo usada de forma incorreta, causa alterações prejudiciais e às vezes irreversíveis no equilíbrio da natureza. 

A água que alimenta as nascentes vem do lençol freático, localizado abaixo do solo cultivável. Cada vez que desmatamos e promovemos a impermeabilização e compactação do solo por construção de cidades ou mesmo práticas incorretas de cultivos nas áreas rurais, estes fatores interrompem o ciclo hidrológico. Para garantir a quantidade e qualidade da água das nascentes devemos manter a vegetação natural no entorno delas, ou seja, nos cursos de água e encostas e tomar alguns cuidados no uso e preparo do solo para diminuir a velocidade das enxurradas e aumentar a infiltração no solo, garantindo a alimentação dos lençóis freáticos que suprem as nascentes.

Tipos de Nascentes

Nascente sem acúmulo inicial – quando o afloramento de água ocorre em um terreno com declínio. Este tipo de nascente geralmente tem afloramento pontual com significativo volume de água formando cursos de água.

Nascente com acúmulo inicial – quando o afloramento de água ocorre em terreno plano e impermeável formando um lago. Este tipo de nascente tem afloramento difuso, ou seja, possui um grande número de pequenas nascentes espalhadas por todo o terreno. Ocorrem principalmente nos brejos e matas localizadas em depressões.