COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

 

 

Cerca de 600 camponeses, camponesas e quilombolas participaram, no último dia 19 de setembro, da 3º Festa Camponesa de Silvânia, município de Goiás. O encontro teve como lema “Comunidades Camponesas: Espaço de vida em Defesa do Cerrado”. Confira o documento final na íntegra: 

 

Quando a última árvore tiver caído,
quando o último rio tiver secado,
quando o último peixe for pescado,
vocês vão entender que dinheiro não se come”.

As comunidades camponesas de Silvânia, município de Goiás, reunidas na III Festa Camponesa, no dia 19 de setembro de 2015, com o lema “Comunidades Camponesas: Espaço de vida em Defesa do Cerrado”, querem conclamar toda a sociedade a se envolver na grande campanha em Defesa dos povos, da terra, da água e da biodiversidade do nosso bioma Cerrado.

Nos reunimos na Comunidade de Quilombo para celebrar e trocar experiências sobre a nossa vida na roça, nosso jeito de plantar, colher, de cuidar da natureza, preservar nossos rios e vivenciar a partilha, a solidariedade e a vida em Comunidade.

Nossos irmãos e irmãs indígenas nos ensinam que a terra é mãe, somos seus filhos e por isso precisamos respeitar a vida que brota dela. Nos entristece que os filhos, a terra, a água, as florestas, os animais estão morrendo. Precisamos defender a vida que brota da terra e que está sendo ameaçada pelo modelo de desenvolvimento que devasta a terra e acaba com o bem precioso que são nossas águas e expulsa as famílias do campo.

O uso intensivo de agrotóxicos nas grandes monoculturas, como a soja e a cana, causam doenças e morte, acabando com as nossas fruteiras e poluindo nossas águas. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos. Cada habitante consome 5,2 litros de agrotóxicos. Pequenos agricultores também usam agrotóxicos, por isso precisamos nos conscientizar e não usar mais os venenos. Temos que investir na diversificação da produção, cultivar a terra, e conservar a natureza com a prática da agroecologia. Resgatar as sementes crioulas para produzir e ser autônomo das grandes empresas que produzem sementes.  A agricultura camponesa familiar, que produz comida para a população, precisa ser valorizada com políticas públicas que invistam em saúde, educação, ampliação do acesso e crédito subsidiado.

Isso deve começar desde cedo, com uma educação voltada à prática da agroecologia, fortalecendo as comunidades camponesas e que garanta a permanência do jovem na roça. Para isso precisamos que a grade curricular, nas nossas escolas, seja voltada para a realidade do campo. Precisamos que seja implementado o ensino médio nas escolas rurais. Por isso, solicitamos da Secretaria da Educação de nosso Município a discussão e o debate desta política. Educação é um direito fundamental. E esse direito não pode ser tirado de nossos filhos e filhas, pois a Educação tem que ser a partir de nossa realidade.

Estamos perplexos com a exploração das águas de nossos rios e córregos da região. Observamos a cada dia suas águas reduzindo por causa da exploração de areia, através das dragas e drenos. Nascentes estão sendo enterradas para a produção de soja. Erosões nos barrancos, poluição dos rios, eliminação de peixes, depreciação da qualidade do solo, são os principais problemas encontrados nos rios e córregos da região de Silvânia. Exigimos que o Ministério Público de Goiás (MP-GO) intervenha com a proibição da exploração dos rios pelas dragas. Mas apenas isso não basta. Precisamos de uma fiscalização eficiente e de um projeto de revitalização dos rios, recuperação e preservação de nascentes. A água é um bem fundamental e direito dos povos do Cerrado, por isso conclamamos também toda a população de nosso município a defender os nossos rios e demais fontes de água.

Outro problema que nos preocupa é a quantidade de lixo que é jogado nas estradas vicinais e na rodovia estadual GO-010. Esse lixo vem das cidades próximas, e muitas vezes trazido pelos próprios caminhões que transportam areia retira dos rios. Solicitamos por parte do MP-GO e dos órgãos competentes a devida fiscalização e punição para quem comete este tipo de crime. A falta de segurança nesta rodovia também nos preocupa, pois muitas vidas foram ceifadas. E inúmeros animais morrem todos os dias na pista. Queremos que o governo estadual cumpra a promessa da duplicação da rodovia e a instalação de meios para que os animais possam circular, como a instalação de galerias.

Permanecer na terra e no território é primordial para a vida dos camponeses e camponesas. Sem terra e/ou sem território não tem como plantar, cuidar, e valorizar este espaço. Não tem como continuar o sonho de Deus. Por isso reafirmamos a luta dos Quilombolas dos Almeida, em nosso município, e exigimos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a titulação do território quilombola.

Valorizar a vida em comunidade, nossa cultura, nosso modo de vida, preservar o Cerrado é continuar a obra criadora de Deus. Por isso seguimos vencendo a escuridão e trabalhando para gerar vida nos assentamentos, na comunidade quilombola, nas pequenas propriedades, nas nossas comunidades. Afirmamos nosso compromisso com o sonho de Deus, de gerar vida e vida em abundância, preservando nosso “Cerrado, Berço das águas”.

 

Silvânia, 19 de setembro de 2015.

As/os participantes da III Festa Camponesa de Silvânia - Goiás

 

 

 

 

 

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