COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

“É preciso ter uma igreja encarnada na vida do povo, que dialogue, ouça e sinta a dor e o clamor de seus povos, para depois agir”. Essas frases acima refletem algumas das expectativas, pós Sínodo para a Amazônia, de Darlene Braga, coordenadora da Articulação das CPT’s da Amazônia e agente da Comissão Pastoral da Terra no estado do Acre. Ela, assim como diversos outros e outras agentes de pastoral, participou do processo de escuta do povo em preparação para a assembleia sinodal, que ocorre entre os dias 6 e 27 deste mês de outubro. E em breve ela segue para a Itália, a convite da entidade francesa de cooperação, CCFD-Terre Solidaire, onde participará de diversas atividades, e poderá relatar aos participantes como é a vida na Amazônia, seus desafios e alegrias, e como foi esse rico processo de escuta das comunidades. Confira o artigo:

Artigo por Darlene Braga* | Imagens: Thomas Bauer - CPT Bahia 

Quando criança, por um bom período, tive a triste e boa experiência de conviver diariamente com os que tinham muito e os que tinham pouco dentro e fora da igreja. Esta experiência foi marcante e decisiva para determinar a minha vida e atuação pastoral. Estas experiências são muito comuns junto aos povos da Amazônia.

O Sínodo para mim é um momento histórico e privilegiado da igreja para com a Amazônia. Histórico porque a igreja tem a oportunidade de se diferenciar claramente das novas potências colonizadoras, ouvindo os povos para exercer o seu papel profético. Privilegiado porque discute os problemas de uma região que é saqueada, há tempos, para fins econômicos de alguns grupos. O Papa Francisco nos convida a ter uma conversão Ecológica e Pastoral, o que consta no Instrumentum laboris. Este Instrumento é constituído por três partes:

A primeira é Ver-escutar, que nos chama a ver e ouvir a voz dos povos da Amazônia, seus gostos, seus saberes, seus sabores. E tem como finalidade ver a realidade dos povos e de seus territórios, um vasto e permanente processo de escuta e de discernimento de novos caminhos para uma Ecologia Integral.

A segunda parte é sobre a Ecologia Integral – Orienta os rumos. O clamor da terra e dos pobres, presente nesta segunda parte, aborda toda a problemática ecológica e pastoral. Nossa “Casa Comum” está sendo destruída, saqueada e vendida. Os grandes projetos se consolidaram nesta região, e a Amazônia está sendo mercantilizada para grupos que só visam lucros e não se preocupam com as milhares formas de vida que ali existem. Não é levado em consideração o direito das comunidades de consulta prévia: O que os povos que vivem nestes territórios querem? O que eles sonham? O que eles precisam? Nada disso é perguntado.

Para finalizar, o Instrumento nos traz uma igreja profética na Amazônia – quais são os nossos desafios e as nossas esperanças para essa igreja amazônica?

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Os momentos de escutas para o Sínodo duraram cerca de um ano [isso foi um dos processos iniciais do Sínodo para a Amazônia, quando diversas pessoas, como os povos e as comunidades do campo, foram ouvidas sobre suas realidades, para que isso depois pudesse subsidiar a assembleia sinodal no Vaticano]. Como parte desse processo, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) também realizou inúmeras escutas das populações tradicionais. Ouvir dizer, por exemplo: “Dona Darlene, o Papa vai nos ouvir? Ele realmente vai nos ouvir?”, questionavam. São estas escutas que temos que levar em consideração, como vivem os povos e o que querem. Nossa igreja tem que buscar novos caminhos. Quais são estes caminhos para além de estar ao lado do povo? Reconhecer seus desejos, ser samaritana e profética, e sendo fiel às pessoas e à vida.

"Nossa 'Casa Comum' está sendo destruída, saqueada e vendida", afirma Darlene Braga, agente da CPT no Acre. Crédito: Thomas Bauer / CPT Bahia

Espero que realmente neste sínodo possamos discutir a Vida. Uma vida plena para as pessoas, para a Amazônia como fonte de vida, e vida em abundância, em especial aos que mais necessitam. É preciso estar atentos e atentas às vidas ameaçadas pelos malefícios dos projetos do agronegócio. É preciso discutir o que ocorre nos territórios das populações tradicionais, assim como as belezas e também as ameaças. É preciso discutir a violência no campo e na cidade, que tem destruído nossas vidas.

Por fim, quero dizer que sonhamos, e esse sonho é com uma igreja com o rosto amazônico!

A Amazônia clama por respostas e ações concretas, por ações que realmente reflitam na vida do povo.

Essas respostas e ações têm que ser, em especial, após Sínodo. Não podemos deixar cair no esquecimento o que nos comprometemos e o que nos propomos neste período desde que o Papa Francisco anunciou o Sínodo, em 2017, até a data de sua realização. É preciso ter uma igreja encarnada na vida do povo, que dialogue, ouça e sinta a dor e o clamor de seus povos, para depois agir.  

*Agente da Comissão Pastoral da Terra no Acre (CPT-AC) e coordenadora da Articulação das CPT’s da Amazônia, projeto da Pastoral da Terra que reúne seus nove Regionais presentes na Amazônia Legal brasileira.

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