COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

Comunidades da região Norte do Mato Grosso acompanhadas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) realizaram, nos dias 8 e 9 de setembro, um intercâmbio no PDS Nova Conquista II, no município de Novo Mundo, a cerca de 800 quilômetros de Cuiabá.

 

(Texto: Josep Iborra Plans – da Articulação das CPT’s da Amazônia | Imagens: Comunicação do MAB)

Participaram do evento oito grupos formados por cerca de 400 famílias dos municípios de Novo Mundo, Nova Guarita, Terra Nova do Norte e Nova Canaã. Nesta região, muito ambicionada pelo agronegócio, algumas destas famílias de pequenos agricultores contam com mais de treze anos de luta pela conquista de suas terras, e muitas ainda enfrentam uma vida dura embaixo da lona preta, acampados em barracos à beira de estradas.  

A Comissão Pastoral da Terra no Mato Grosso (CPT-MT) há anos acompanha os conflitos agrários na região e sempre apoiou estes grupos denunciando as agressões sofridas e os assessorando junto aos órgãos públicos e o Judiciário, especialmente na demanda pela terra, mas também por saúde, escola, energia, transporte e outras reivindicações.

A maioria destas famílias de agricultores eram posseiras, que já tiveram casas e plantações destruídas e que foram despejadas das áreas que ocupavam, seja por ações judiciais ou por pistoleiros a mando de grandes grileiros.

Muitas pessoas relataram terem sofrido momentos terríveis de violência, intimidações e ameaças, despejos e expulsões, com armas de fogo apontadas para a cabeça, até para crianças, casas destruídas e queimadas, espancamentos e até assassinatos de companheiros e companheiras de luta.

Exemplos dessa violência no campo mato-grossense são muitos: Raimundo Vieira, que foi assassinado quando colhia arroz na Gleba Gama; o trabalhador conhecido como Campeão, morto na Gleba Belo Horizonte; e outra agricultora conhecida como Emma Preta, que foi assassinada na Fazenda 3 Irmãos, no município de Novo Mundo. 

Entretanto, essas famílias não têm deixado de resistir e enfrentar os poderosos que grilaram e ainda grilam grandes áreas de terras públicas, se apossam injustamente das Terras da União, e sem cuidado com o meio ambiente. Foi graças à união entre os diversos grupos do campo e as suas mobilizações em conjunto, com apoio da CPT e de outras entidades, que muitas famílias já conseguiram serem assentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

PDS Nova Conquista II

O lugar onde ocorreu o Intercâmbio dos Grupos acompanhados pela CPT, o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Nova Conquista II, é um lugar emblemático, um assentamento de 96 famílias no meio de uma área grilada pelo agronegócio, resultante da conquista da união de dois acampamentos de famílias que já tinham sofrido dois despejos e que, finalmente, viu avançar suas reivindicações.

O PDS foi criado ainda neste ano de 2018 por uma decisão favorável da Justiça Federal de Sinop, reconhecendo que a área era de propriedade da União e que deveria ser destinada para a reforma agrária, antecipando tutela de posse de 2 mil hectares para o Incra, de um total do imenso latifúndio de 9.658 hectares da Fazenda Recanto.

SAIBA MAIS: Intercâmbio entre camponeses e camponesas busca um novo mundo no MT

Nota Pública sobre a possibilidade de despejo de 96 famílias do Assentamento Nova Conquista II (MT)

A decisão da Justiça Federal permitiu a criação do assentamento, onde foram divididos os lotes e hoje moram as famílias. Ao total, são 96 famílias morando e trabalhando em lotes de em média 18 hectares de terra, construindo as casas e começando a plantar suas lavouras. Contudo, ainda enfrentam uma decisão em liminar do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª região, que pode vir a despejar as famílias a qualquer instante, assim como a presença ameaçadora de pistoleiros nas antigas sedes da fazenda.

Porém, hoje, as famílias já começaram a plantar mudas de árvores, pois a área foi encontrada extremamente desmatada, e também iniciam, em plena época da seca, lavouras de mandioca, hortas e produção de alimentos com sementes crioulas, recuperando as áreas e as nascentes degradadas pelo uso intensivo de veneno pelos grileiros, e preparando as terras para o período de chuvas para o plantio.

Intercâmbio dos grupos

A organização interna das comunidades e a articulação com outros grupos foi o cerne do intercâmbio, que teve como lema: “A força da transformação está na organização e resistência do Povo de Deus!!”, que foi realizado inspirado e fundamentado nos relatos bíblicos da luta do Povo de Deus na Terra e pela permanência na Terra, nos gritos proféticos de Amós, o  profeta/agricultor que na sociedade do Antigo Testamento clamava por direito e justiça: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca.” (Amós, 5,24)

Os espaços do encontro, embaixo de algumas poucas áreas remanescentes de florestas, e as plenárias da juventude, mulheres e a ciranda das crianças, assim como a cozinha comunitária, tudo foi preparado em mutirão pela comunidade. E praticamente toda a alimentação do evento foi doada pelas famílias.

As mulheres e os/as jovens se reuniram em espaços separados, nos quais trocaram inquietudes, mas também buscaram se articular. Acesso à Justiça e direitos na luta pela e na terra e papel dos órgãos públicos foram alguns dos temas debatidos.

Também as propostas de agroecologia, de organização para produção e geração de renda, foram temas de formação. As conclusões do intercâmbio apontaram  a necessidade de agregar mais ativamente os/as participantes na organização de cada grupo, e de retomar as reuniões mensais das coordenação dos mesmos, com objetivo de acessar a terra, resistir na luta e conseguir novas conquistas, superando as limitações e fortalecendo as lutas, com formação, organização dos acampamentos, coordenação colegiada dos grupos com reuniões agendadas, troca de experiências e infraestrutura organizativa.

A cultura popular, com música, e uma animada festa cultural e torneios futebol, de vôlei, gincanas e brincadeiras também tiveram uma parte importante no intercâmbio, consolidando uma relação de ajuda mútua e conquista de dignidade na vida e da identidade camponesa dos/as participantes.

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