COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

Cercada pela plantação de cana, família camponesa, que vive há décadas em sítio no estado de Pernambuco, aguarda ansiosa por rede de energia elétrica - uma luta antiga.

 

(Fonte: CPT Nordeste 2 | Imagens: Renata Albuquerque)

No dia 09 de setembro, ao saberem que a equipe da Companhia Energética de Pernambuco (CELPE) responsável pela instalação de energia elétrica chegaria ao sítio da família de dona Maria Francisca e seu Severino José, suas netas entusiasmaram-se: “Graças a Deus! Teremos luz”. A alegria tomou conta de toda família, afinal, nunca tiveram acesso ao direito fundamental à energia elétrica em casa: um sítio de dois hectares de terra farta de alimentos, cercado por 22 mil hectares de cana-de-açúcar da Usina Petribú, localizado no Engenho Tiúma, município de São Lourenço da Mata, em Pernambuco. 

A alegria da família – em saber que poderiam a partir de então ter acesso a um direito básico garantido pelo Estado brasileiro -, logo se transformou em revolta e indignação. De acordo com dona Maria Francisca, 52, os funcionários da CELPE que chegavam ao Engenho Tiúma naquela data foram  expulsos do local por quatro seguranças armados da Usina Petribú.

A luta pela instalação da energia elétrica no sítio da família de dona Maria Francisca e seu Severino, 60, é antiga. A camponesa explica que a Usina Petribú sempre impediu a instalação de energia no sítio da família, sendo essa uma das várias estratégias da empresa para encurralar a família e impedir a permanência na terra, que é alvo de uma disputa judicial que perdura há vários anos. Além de bloquear o acesso à energia, a família já denunciou diversos episódios de intimidações, perseguições, queimada de cana nas proximidades da casa, destruição de lavouras, ameaças de expulsão, entre outras violências.

A trabalhadora rural e seu esposo, no entanto, estavam esperançosos de que desta vez seria finalmente possível a instalação da rede elétrica no sítio em que vivem. A família havia juntado a quantia de mil e duzentos reais  durante meses para comprar várias lâmpadas, fios, caixa de força e demais materiais e equipamentos necessários para a realização do tão aguardado sonho.

Seu Severino reservou todo o seu décimo terceiro salário para a compra dos materiais. Estavam felizes com a possibilidade de terem geladeira em casa, de ouvirem músicas sem se preocupar com a pilha do rádio, de construírem um banheiro mais estruturado e de "receber bem as visitas que chegam em casa", como falou seu Severino.

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Foi tanta a tristeza e indignação com a Usina Petribú que, quatro dias após o episódio, dia 13 de setembro, Severino sofreu um infarto. O trabalhador rural foi socorrido pela esposa e hospitalizado. Hoje, encontra-se em seu sítio, sem energia elétrica. Está acamado, não consegue andar e está totalmente dependente dos cuidados de Maria Francisca.

Em entrevista à CPT, a trabalhadora informou que a família não desistirá de lutar pelo direito à energia elétrica e que permanecerá no sítio onde vivem há mais de cinquenta anos. A assessoria jurídica da Pastoral e a família de Maria já estão em diálogo para que sejam tomadas as devidas providências sobre o caso.

Histórico

A família de dona Maria Francisca e Seu Severino José experimentam o gosto amargo da violência da Usina Petribú há várias décadas. Tentam na Justiça garantir o direito de permanecer no sítio onde os pais de dela viveram e onde a trabalhadora mora desde que nasceu, há 52 anos.

Enquanto resistem em dois hectares de terra, Maria, Severino, filhas e netos/as já sofreram diversas violências promovidas pela Petribú. O conflito ficou conhecido nacional e internacionalmente através de diversas denúncias, realizadas pela família com o apoio da CPT, e pela participação no documentário “Acercadacana”, dirigido pelo cineasta Felipe Peres Calheiros.

 De acordo com informações de antigos moradores, a Usina São José – pertencente ao grupo Petribú -, a partir da década de 1990, passou a coagir, através de seus capangas, cerca de 600  sitiantes que viviam há décadas nos engenhos da região para que saíssem de suas terras. As famílias, que por medo das constantes ameaças da usina, saíram de seus sítios inconformadas. Os familiares de Maria Francisca, no entanto, permaneceram resistindo no local.

Deu-se início, então, a um extenso processo judicial que perdura até os dias atuais. Com seu sítio cada vez mais invadido por cana, a família de Maria Francisca e Severino sofre até os dias atuais com a truculência e ameaça do grupo Petribú que, apesar de possuir mais de 22 mil hectares, continua pressionando a expulsão da família das terras.

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