Bota Velha: área de assentamento ameaçada por condomínio privado é reocupada no Abril Vermelho em Murici (AL)
Lara Tapety | CPT-AL
Foto: Tarcísio Barbosa | Terra Livre

A luta pela terra voltou a se intensificar em Murici, na Zona da Mata de Alagoas. No último dia 17 de abril, data que marca os 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, organizações e movimentos do campo reocuparam a área de cerca de 50 hectares do Bota Velha, que havia sido alvo de aprovação na Câmara Municipal para transformação em zona urbana e implantação de um condomínio privado.
A ação integra a jornada do Abril Vermelho, que, todos os anos, resgata a memória do massacre, denuncia a impunidade histórica e reafirma a luta pela reforma agrária no Brasil.
A reocupação ocorre poucos meses após a Câmara de Murici aprovar, em sessão extraordinária durante o recesso parlamentar, o projeto que inclui a área em disputa no perímetro urbano, desconsiderando o conflito agrário e os questionamentos apresentados por famílias camponesas e pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Acordo provisório
Segundo o coordenador da CPT na região, Jailson Tenório, após o ato na área foi estabelecido um novo acordo com o Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas (Iteral). O órgão solicitou o prazo de uma semana para buscar uma solução para o impasse.



Como parte do acordo, ficou definido que apenas a CPT permanecerá no local, enquanto as demais organizações e movimentos se retiram temporariamente. Caso não haja resposta concreta do Estado dentro do prazo, a mobilização será retomada com o retorno das organizações para fortalecer a ocupação.
Mesmo com a saída parcial, as bandeiras seguem fincadas na área, simbolizando a unidade dos movimentos e a permanência da luta.
Mobilização estadual fortalece a jornada de luta
A reocupação em Murici se soma a uma série de ações realizadas em Alagoas durante o Abril Vermelho. Na manhã do dia 15 de abril, centenas de famílias Sem Terra ocuparam a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, no Centro de Maceió, cobrando o avanço das políticas de reforma agrária no estado.
Cerca de 400 trabalhadores e trabalhadoras rurais participaram da ação, denunciando a lentidão nos processos de assentamento e reivindicando condições para produzir e viver no campo com dignidade.
Em carta divulgada durante a ocupação, os movimentos reforçaram a centralidade da reforma agrária para o desenvolvimento do estado: a produção de alimentos saudáveis, o fortalecimento das comunidades rurais e a garantia de condições mínimas para quem vive da terra.
Memória, denúncia e permanência da luta
Ao completar três décadas do massacre que vitimou 21 trabalhadores rurais no Pará, o Abril Vermelho segue como um marco político e simbólico da luta pela terra no Brasil. Além de fazer memória, as ações realizadas em Alagoas evidenciam a permanência dos conflitos e a atualidade das reivindicações.
No caso de Bota Velha, a reocupação da área reafirma a resistência das famílias camponesas diante de decisões institucionais que ameaçam a integridade de um território conquistado após duas décadas de luta.
Entre acordos provisórios e incertezas, a mobilização segue como instrumento de pressão e visibilidade. Para os movimentos, a mensagem permanece direta: terra é para quem nela trabalha, e a reforma agrária segue sendo condição para justiça social no campo.
Entenda o conflito em Bota Velha
O conflito em Bota Velha começou em 1999, com a ocupação da área por famílias camponesas que enfrentaram despejos e ameaças por mais de duas décadas. Em 2022, o Governo de Alagoas desapropriou os 513 hectares para a reforma agrária, onde hoje vivem cerca de cem famílias.
A disputa foi reaberta com questionamentos sobre cerca de 50 hectares, baseados em registros cartoriais posteriores à desapropriação. Para a CPT, há indícios de irregularidades, já que o Estado pagou pela área total.
Em dezembro de 2025, a Câmara de Murici aprovou a inclusão da área em disputa na expansão urbana, abrindo caminho para um condomínio privado, mesmo com o conflito ainda em andamento.


