Mulheres defensoras dos Direitos Humanos são homenageadas no VI Prêmio Frei Henri des Roziers; Agente histórica da CPT recebe título de Doutora Honoris Causa

No último dia 11 de abril, foi realizada a 6ª edição do Prêmio Frei Henri des Roziers de Direitos Humanos, promovida pela Comissão de Direitos Humanos da OAB – Subseção Xinguara. Com a presença de cerca de 170 pessoas – sendo 100 homens e 70 mulheres -, a atividade reuniu autoridades, representantes de movimentos sociais, defensores e defensoras de direitos humanos, estudantes e professores da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA) e a comunidade em geral.
As lembranças do Frei Henri já haviam começado na noite anterior anterior (dia 10), com uma Celebração em Ação de Graças pela missão do Frei, bem como pelos 50 anos da CPT, na presença solidária e profética junto aos povos do campo, das águas e das florestas. A celebração, realizada na Comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Xinguara, foi conduzida pelo padre Danilo Lago, da CPT do Alto Xingu.

Com o tema “Defensores dos Povos da Terra, das Águas e da Floresta”, a edição de 2026 do prêmio destacou a atuação de defensoras e defensores dos povos da terra, das águas e das florestas, sendo três mulheres homenageadas: Jaqueline Damasceno, representante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a professora Luzia Canuto de Oliveira Pereira e a líder indígena Cacica Kátia Akrãtikatêjê. As homenageadas receberam a comenda e realizaram falas ressaltando a importância da luta coletiva e da defesa dos territórios.




6º Prêmio Frei Henri de Roziers de Direitos Humanos teve três mulheres homenageadas: Jaqueline Damasceno, representante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a professora Luzia Canuto de Oliveira Pereira e a líder indígena Cacica Kátia Akrãtikatêjê
A programação contou ainda com palestra magna e lançamento do livro “Assassinatos e Impunidade no Campo no Pará”, do advogado e agente da CPT em Marabá, José Batista Afonso, e do professor Airton Pereira, contribuindo para o debate sobre a violência no campo e a necessidade de responsabilização.
A atividade fortaleceu a articulação entre instituições, movimentos sociais e universidade, ampliando a visibilidade das lutas por direitos humanos na região. O evento também reafirmou o compromisso com a memória, justiça e defesa dos territórios. Após a solenidade, foi realizado um jantar na área externa do prédio, em parceria com os movimentos sociais e apoio da Comissão Pastoral da Terra.

Agente histórica da CPT atuando ao lado do Frei Henri des Roziers, Ana de Souza Pinto (Aninha) recebeu o título de Doutora Honoris Causa
Antes da realização do prêmio, às 16 horas, ocorreu uma cerimônia para outorga do título de Doutora Honoris Causa à agente histórica da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Xinguara, a socióloga Ana de Souza Pinto, em reconhecimento à sua trajetória de luta em defesa dos direitos humanos e dos trabalhadores e trabalhadoras do campo. A cerimônia aconteceu no auditório da Escola Jordame Corrêa Queiroz Filho (EETEPA), no município de Xinguara. A decisão pela comenda ocorreu em setembro de 2025 (confira aqui).
Aninha da CPT, como é conhecida na região, recebeu o título oferecido pela Universidade do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), pelos trabalhos prestados, especialmente na Região do Araguaia Paraense, na mediação de conflitos agrários, defesa dos direitos humanos e no combate ao trabalho análogo ao trabalho escravo junto aos camponeses. O sul e o sudeste do Pará são notabilizados como as regiões mais violentas do País com relação à luta pela terra.

Ana Souza Pinto
Paulista do interior, nascida em Socorro (SP), Aninha chegou ao município de Luciara (MT), em 1975, onde realizou seu trabalho pastoral na Prelazia de São Félix do Araguaia até o ano de 1983, quando foi morar em Conceição do Araguaia (PA). Ali, continuou seu incansável e corajoso trabalho ao lado de grupos de mulheres camponesas, comunidades eclesiais de base, delegacias sindicais e grupos de produção agroecológica.
Em 1999, Aninha se mudou para Xinguara (PA) onde, junto ao Frei Henri des Roziers, organizou o escritório da CPT para o trabalho junto às camponesas e camponeses da região. Foi ali também, com Frei Henri, que dedicou-se ao fortalecimento da Campanha da CPT de combate ao trabalho escravo. Sempre a serviço dos empobrecidos da terra e da luta por justiça, Aninha protegeu os arquivos da CPT que guardam a história e a memória de pessoas anônimas que, por décadas, confiaram nas agentes e nos agentes de pastoral para ouvir seus gritos e suas esperanças. Hoje, Aninha é também memória viva.

Agente pastoral da CPT Regional Araguaia-Tocantins e membro da coordenação da Campanha “De Olho Aberto para Não Virar Escravo”, o frei Xavier Plassat é companheiro de trabalho e amigo de Aninha desde longas datas. Em seu discurso, Xavier destacou o caráter militante da agente pastoral, que também é capaz de fazer críticas contundentes àqueles que se utilizam do Evangelho para manipular e legitimar dominações e injustiças, impondo idolatria aonde Jesus pregou um verdadeiro Evangelho da revolução.
“Muito do que eu sou, confesso que eu aprendi com você, Aninha. (…) Em sua pessoa, tudo se conecta: a apaixonada e teimosa construção de um outro mundo possível – horizonte de todas as suas lutas e, de modo especial, entre as mulheres; a sua força para seguir em frente, superando fracassos ou frustrações, “guardando o pessimismo para dias melhores”, como diz frei Betto; o seu compromisso diário de vida e de amor ao lado dos pequenos do Reino de Deus, ouvindo seus causos e abraçando suas causas. Por isso, Aninha, esta sua grande família, tanto a dominicana, quanto a da Pastoral da Terra, quanto a sem fronteiras das tantas conexões aqui presentes e que fazem jus à palavra Universidade, toda essa gente lhe é tão grata. Obrigado querida Aninha por você ser o que é! E parabéns para você ser essa Doutora Honoris Causa e também: Dignitatis Causa, e Amoris Causa!”, celebrou o frei Xavier.
A cerimônia também expôs uma dimensão muitas vezes silenciada: a própria universidade como resultado dessas lutas. O reitor da Unifesspa, Francisco Ribeiro da Costa, reforçou essa origem: “A universidade não nasceu de um decreto. Ela nasceu da luta social, em uma região marcada por conflitos profundos. Não foi a universidade que concedeu uma honra. Foi a universidade que recebeu a honra de ter Aninha como doutora.”
A fala de Aninha, durante a cerimônia, deixou claro que a homenagem ultrapassa o plano individual: “Esse é um reconhecimento coletivo. Pertence aos mártires da luta pela terra, aos povos indígenas e aos trabalhadores do campo, das águas e das florestas.”
Edição: Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional),
com informações da equipe CPT Xinguara/PA e Unifesspa
Fotos: prof. Airton dos Reis eOAB Xinguara
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