V Encontro Estadual das Mulheres do Cerrado fortalece redes de cuidado, resistência e autonomia

Nesta edição, mulheres de comunidades do campo de Goiás tiveram oportunidade de trocar saberes e experiências práticas também com mulheres do Piauí e Tocantins

Texto e Fotos: Marília da Silva (Comunicação CPT Goiás)

Entre os dias 3 e 5 de dezembro de 2025, cerca de 60 mulheres de diferentes comunidades de Goiás e outros territórios do Cerrado participaram do V Encontro Estadual das Mulheres do Cerrado, realizado no Centro Pastoral Dom Fernando. A atividade reuniu mulheres acampadas e assentadas da reforma agrária, quilombolas, agricultoras familiares e integrantes de comunidades tradicionais se reuniram para partilhar experiências, fortalecer a organização coletiva e reafirmar o protagonismo feminino na defesa da vida, dos territórios e dos bens comuns.

Com o lema “Somos as que vieram antes, as que estão agora e as que virão, tecendo com coragem e ternura, o fio da nossa liberdade”, o encontro foi marcado por momentos de mística, escuta e construção coletiva. Logo no primeiro dia, as falas de mulheres de diferentes realidades deram visibilidade às múltiplas formas de resistência presentes nos territórios, conectando histórias de luta pela terra, pela água, pelas sementes e pela permanência digna no campo e no Cerrado.

Oficinas e outras atividades de formação

A troca de saberes ganhou centralidade nas atividades do encontro, especialmente no carrossel de experiências sobre plantas medicinais, garrafadas ginecológicas e práticas de cuidado a partir dos conhecimentos tradicionais. As partilhas evidenciaram como o saber das mulheres fortalece práticas de saúde, autonomia e resistência cotidiana, reafirmando o cuidado como dimensão política da luta.

No segundo dia, os debates se voltaram ao enfrentamento da violência contra as mulheres, abordando estratégias coletivas de apoio, denúncia e proteção nos territórios. A reflexão a partir da apresentação do “violentômetro” e os trabalhos em grupo reforçaram que a coragem das mulheres nasce da organização, da espiritualidade, da ancestralidade e do apoio mútuo. O cuidado integral — envolvendo corpo, saúde mental, espiritualidade e memória ancestral — também esteve no centro das reflexões.

O evento também incluiu o lançamento do folder de formação “Mulheres em Movimento”, que traz, em resumo, os pontos discutidos e as reflexões realizadas com mulheres do campo nos encontros de formação realizados nos últimos anos. A publicação deve servir como material de formação para atividades realizadas nas comunidades.

Feira e organização para a produção

A Feira das Mulheres do Cerrado, realizada no período da tarde na Praça da Juventude, no Jardim das Oliveiras, deu visibilidade à produção das mulheres, reunindo alimentos, remédios caseiros, artesanatos e outros produtos, fortalecendo a geração de renda e a valorização do trabalho feminino. A noite festiva e cultural reafirmou a alegria, a arte e a celebração como partes essenciais da resistência.

No último dia, o debate sobre a Caderneta Agroecológica e as estratégias de geração de renda, produção e comercialização apontou caminhos concretos para o fortalecimento da autonomia financeira e da organização coletiva das mulheres. A avaliação final destacou o encontro como um espaço fundamental de fortalecimento político, espiritual e organizativo, reafirmando que, quando as mulheres do Cerrado se reúnem, a esperança floresce e a resistência se fortalece.

Gênero e Biodiversidade

O encontro, acolhido por mulheres do Cerrado de Goiás, também recebeu a participação de camponesas dos estados do Tocantins e Piauí. Os três estados integram o projeto “Gênero e Biodiversidade: Falas das Mulheres do Cerrado”, uma realização da Comissão Pastoral da Terra, por meio da Articulação do Cerrado, com apoio do Fundo de Parcerias para Ecossistemas Críticos – CEPF e do Instituto Internacional de Educação do Brasil – IEB. O V Encontro refletiu a potência e o conhecimento partilhado durante todo o ano nas atividades formativas promovidas pelo projeto, desde a importância e construção coletiva de protocolos de proteção, aos saberes ancestrais do Cerrado para produção agroecológica e comercialização para autonomia e geração de renda para as mulheres cerradeiras.

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