Debates sobre unidade, formação política e agroflorestas marcam 34ª Assembleia Estadual da CPT Alagoas
Por Lara Tapety | CPT/AL
Fotos: Lara Tapety | CPT/AL

Com mística, orações, cantos e reflexões sobre a realidade do campo e do mundo, a 34ª Assembleia Estadual da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Alagoas reuniu camponesas, camponeses e agentes pastorais do dia 24 ao 26 de março. O encontro foi marcado por formação, análise de conjuntura e planejamento das prioridades da organização e das famílias por ela acompanhadas nas regiões do Litoral, Sertão e Zona da Mata.
Mística abre assembleia e reafirma compromisso com a dignidade no campo
O primeiro dia teve início após o almoço, com a mística de abertura conduzida pela juventude, reunindo símbolos da terra, da resistência e da caminhada coletiva dos povos do campo.
Na acolhida aos participantes, o coordenador nacional da CPT, Carlos Lima, destacou o sentido estratégico e pastoral do encontro. “Estamos dando início à nossa 34ª Assembleia Estadual da CPT Alagoas. Um momento de muita mística, de muita resistência e, sobretudo, de planejar os nossos próximos passos na luta pela terra e pela dignidade no campo.”
A mesa contou com a presença de convidados que acompanham a luta pela reforma agrária no estado, fortalecendo o diálogo entre movimentos sociais e instituições públicas.
Unidade e autocrítica fortalecem a caminhada dos movimentos
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Representando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o dirigente Bento ressaltou a importância da unidade histórica entre MST e CPT e da avaliação permanente para fortalecer os processos organizativos. “Temos 42 anos de MST e a gente precisa continuar seguindo juntos, porque entendemos que a nossa causa é uma causa comum.”
Ele também provocou os participantes sobre a responsabilidade coletiva na construção do movimento.“Quem é o movimento? O movimento somos nós. Nós que fazemos o movimento. Então a gente precisa se avaliar também como parte desse processo.”
Segundo o dirigente, a organização interna e a autocrítica são fundamentais para ampliar a mobilização e pressionar o poder público na garantia de direitos para as famílias camponesas.
União política amplia força da reforma agrária
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Durante sua saudação, o diretor-presidente do Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas (Iteral), Jaime Messias, destacou que o fortalecimento das políticas públicas voltadas ao acesso à terra depende diretamente da união entre os movimentos sociais. “É justo que vocês lutem por um pedacinho de terra, é justo que os governantes também ajudem. E eu, modesta parte, procuro fazer minha parte: ajudar aqueles que não têm.”
Ele reafirmou o compromisso institucional com a pauta da reforma agrária e ressaltou que a articulação política é essencial para ampliar conquistas no campo.
Formação política provoca reflexão sobre estudo, violência e consciência social
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Também durante o momento de saudações, o agente pastoral Plácido Júnior trouxe reflexões formativas sobre a importância do estudo para a permanência no campo e para o fortalecimento da consciência política das famílias camponesas.
Ao questionar a ideia tradicional de que estudar significa deixar a terra, ele defendeu o conhecimento como instrumento de libertação e resistência.
As reflexões abordaram ainda a necessidade de compreender os processos produtivos — como, por que e para quem se produz — e provocaram os participantes sobre a responsabilidade coletiva no enfrentamento à violência contra as mulheres, compreendida como expressão de relações de poder presentes na sociedade.
Plácido também relacionou a realidade das comunidades camponesas às crises internacionais e às disputas geopolíticas que impactam a soberania dos povos, alertando para a importância da consciência política, especialmente em ano eleitoral.
Fazendo memória ao legado do Padre Tiago Thorlby, enfatizou que o foco da ação cristã deve ser a resolução dos problemas “aqui na terra”, pois o “céu já está garantido”.
Unidade das lutas é condição para avançar na reforma agrária
Após as saudações, Carlos Lima retomou a palavra para agradecer a presença dos convidados e reforçar que a unidade entre os diversos movimentos de luta pela terra — como CPT, MST, MLST e MSTB — é condição indispensável para garantir avanços na reforma agrária em Alagoas.
O momento marcou oficialmente a abertura da assembleia e deu continuidade à programação formativa.
Análise de conjuntura aprofunda debate sobre narrativas e disputas políticas
Na sequência, Carlos Lima conduziu a análise de conjuntura, aprofundando temas relacionados ao cenário nacional e internacional e seus impactos na vida das famílias camponesas.
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Entre os pontos destacados estiveram os processos de desinformação e a disputa de narrativas no debate público.
“Uma mentira dita várias vezes se torna verdade”, afirmou ao refletir sobre a construção de narrativas que influenciam a percepção social sobre a reforma agrária e os movimentos populares.
Com esse debate, foi encerrada a programação do primeiro dia da assembleia.
Agrofloresta fortalece autonomia produtiva e cuidado com a natureza
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O segundo dia foi dedicado à formação sobre Sistemas Agroflorestais, conduzida por Plácido Júnior, com momentos teóricos e atividades práticas.
Durante a partilha, foram apresentadas experiências de recuperação ambiental e fortalecimento da produção camponesa por meio da agroecologia.
“Tem lugares que as nascentes voltaram. Não tinha uma nascente na propriedade. Começou a plantar no sistema agroflorestal, a água volta.”
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Também foram compartilhadas técnicas de produção de inoculantes naturais, destacando a autonomia produtiva das famílias e o cuidado com os bens comuns.
Planejamento por região e plenária final consolidam prioridades da caminhada
No terceiro e último dia da assembleia, as camponesas e os camponeses se reuniram em grupos por região — Litoral, Sertão e Zona da Mata — para debater os principais desafios enfrentados nos territórios e construir, de forma coletiva, as prioridades e caminhos de ação para o próximo período.
A partir das realidades vividas em cada região, os participantes sistematizaram suas demandas em cartazes, que foram apresentados ao conjunto da assembleia, fortalecendo a partilha de experiências e a construção coletiva das lutas.
No Sertão, entre os principais desafios apontados estão a conquista da terra, a necessidade de maior participação da juventude e a organização das mulheres. Como prioridades, destacaram a luta por energia elétrica nas áreas, acesso a crédito para produção de alimentos e a conclusão de moradias nos assentamentos.
Na Zona da Mata, os desafios passam pela conquista de maquinários, pelo fortalecimento da união entre as comunidades e pela ampliação da presença da CPT em algumas áreas.
Já no Litoral, foram apontados desafios como a baixa participação em reuniões, a necessidade de fortalecer a juventude e a cobrança por políticas públicas voltadas ao esporte e às crianças. Entre as prioridades, destacam-se a regularização de terras — como no acampamento Domingas —, a luta contra o desmatamento e a cobrança por infraestrutura nos assentamentos, como estradas, pontes e calçamentos.
Após esse momento de partilha, os grupos retornaram para aprofundar o debate, definindo ações concretas para enfrentar os desafios levantados.
Durante a plenária, a agente pastoral da CPT, Alexsandra, reforçou a importância do compromisso coletivo e da participação ativa das comunidades nas mobilizações. Ela destacou que os direitos não chegam sem luta e que é necessário transformar as demandas em ações práticas e incidência direta junto aos órgãos públicos. “Não adianta a gente dizer que é preciso isso e não dizer o que a gente vai fazer para isso.”.
Avaliação destaca aprendizado e compromisso com a prática
Ao final da assembleia, os participantes realizaram uma avaliação coletiva do encontro, destacando a importância do espaço como momento de formação, troca de experiências e fortalecimento das relações entre as comunidades.
Para Josegleide (Jô), do assentamento Padre Alex, no litoral, a assembleia foi marcada pela participação ativa dos presentes e pelo aprendizado construído ao longo dos dias. “Foi uma assembleia muito boa. […] Teve menos pessoas e mais participação. […] Agora a gente tenta o quê? Botar na prática algumas coisas que a gente falou.”

Ela também ressaltou a importância do encontro como espaço de reencontro entre as comunidades e apontou a necessidade de fortalecer ações com mulheres, jovens e mobilizações nos territórios.
Já Cícero, do pré-assentamento Bota Velha, na Zona da Mata, trouxe um relato que revela o impacto concreto da assembleia na vida dos participantes. Ele contou que chegou a pensar em ir embora antes do fim, por conta das demandas do dia a dia, mas decidiu permanecer — e se surpreendeu com a experiência. “A gente acha que vai ser algo monótono… mas quando chega no encontro, vê que é totalmente proveitoso. Vou levar para a prática.”
Para ele, o encontro foi também um espaço de ampliação de horizontes, possibilitando o contato com realidades de outras regiões do estado. “A gente passa a conhecer novas pessoas […] do Sertão, do Litoral… e isso inspira a gente a novos encontros.”
Assembleia reafirma compromisso com a organização e a luta pela terra
Encerrando a 34ª Assembleia Estadual, o conjunto dos participantes reafirmou o compromisso com a organização das comunidades, a formação política e a construção coletiva de estratégias para enfrentar os desafios no campo.
Mais do que um momento de encontro, a assembleia se consolida como espaço de espiritualidade, articulação das lutas e fortalecimento da esperança.
A caminhada segue, com mais consciência, mais unidade e mais compromisso com a vida no campo.


