3ª Romaria das Águas do Amazonas mobiliza população e movimentos pela defesa dos rios e contra a privatização das fontes de águas

Na manhã do Dia Mundial da Água, 22 de março, organizações, movimentos sociais e moradores de Manaus (AM) se reuniram em mobilização pelos rios da capital amazonense, na terceira edição da Romaria das Águas. Com cantos, faixas e momentos de espiritualidade, o ato reforçou a defesa da água como direito fundamental e bem comum, presente desde as fontes que cortam a cidade de Manaus e da Amazônia, passando pelos Rios Amazonas (Solimões) e Rio Negro com seus inúmeros afluentes, incluindo riachos, córregos, igarapés, lagos que dão vida a nossa Amazônia/Brasil, ao Ser Humano, Natureza e toda sua biodiversidade.
Organizada pelo Fórum das Águas do Amazonas, do qual faz parte a CPT, com participação da Companhia de Jesus por meio de obras como o Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), a barqueata seguiu do Porto da Ceasa até o Encontro das Águas, onde os rios Negro e Solimões caminham lado a lado por cerca de 6 km sem se misturar, até formar o Rio Amazonas. Durante a mobilização, a educadora social Mercy Soares afirmou: “Se a água é sujeito de direito, ela precisa ser defendida. Quem fala por ela somos nós”.
Também marcaram presença: o coordenador-geral da Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana (Aratrama), Alberto Jorge; frei Paulo Xavier, da Arquidiocese de Manaus; reverendo Iuri Lima, da Comunidade Anglicana de Manaus (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil); a coordenadora-geral do Instituto de Assistência à Criança e ao Adolescente (Iacas), Amanda Cristina, dentre outras representações.

Com o tema “Água, fonte de vida e bem comum: nossos rios não estão à venda!”, a mobilização incluiu momentos de espiritualidade, manifestações culturais e falas de representantes das 16 entidades que integram o Fórum. A programação também denunciou ameaças como exploração econômica e propostas de privatização dos recursos hídricos, além de chamar atenção para o acesso desigual à água e ao saneamento.
Entre os pontos abordados, esteve a recente revogação do Decreto nº 12.600/2025, que previa a inclusão de trechos de rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização. A medida foi suspensa após pressão de povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas.

Infelizmente, os desafios no enfrentamento à destruição de nossa água são inúmeros, provocados pelo agronegócio da soja no Sul do Amazonas e AMACRO, nos estados do Pará, Maranhão, Tocantins, Amapá e países do entorno, mineradoras/mineração de ouro e outros minerais, madeireiras, grandes fazendas de gado branco e búfalos, pesca predatória, grilagens de terras, distrito industrial de Manaus, trabalho escravo, além da destruição dos territórios dos povos tradicionais: extrativistas, pescadores, trabalhadores rurais, caboclos, quilombolas e povos originários.
Esses grandes empresários destroem nossas riquezas naturais, saqueando o que retiram dela, deixando míseros royalties, levando nosso povo da cidade e do campo ao relento sofredor. É necessário o empenho contínuo em defesa de nossa gente e do seu “mundo circundante”, enquanto obra criadora e dádiva da Trindade Santa e dos Divinos de suas e nossas manifestações culturais religiosas. “O que e a quem Deus promete não falta”.

Segundo o padre e pesquisador Sandoval Rocha, membro da coordenação do Fórum, a iniciativa expressa a resistência das populações amazônicas frente a modelos econômicos considerados predatórios. Ele alertou que atividades minerárias, industriais e agropecuárias têm provocado impactos diretos nas águas, no solo e na biodiversidade, afetando comunidades inteiras.
A presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (ADUA), Ana Lúcia Silva Gomes, reforçou que a Romaria representa um momento de união em torno da defesa ambiental. Ela destacou que a dinâmica das águas é fundamental para a vida na região, influenciando tanto comunidades ribeirinhas quanto moradores urbanos.
Apesar de concentrar uma das maiores reservas de água do planeta, a Amazônia enfrenta desafios significativos relacionados ao acesso à água potável e ao saneamento básico. Dados do Ranking do Saneamento 2025 indicam que cidades da região, incluindo Manaus, estão entre as piores colocadas do país nesse quesito.
Além disso, fatores como desmatamento, queimadas e mudanças climáticas têm alterado o ciclo hidrológico, intensificando eventos extremos. Em 2024, o Amazonas registrou a maior seca de sua história, evidenciando a vulnerabilidade ambiental da região.

“Nós, que vivemos em Manaus e na Amazônia, entendemos que a água define nossa existência, somos metade gente e metade água. Ir ao encontro desses grandes rios para agradecer e, ao mesmo tempo, denunciar a ameaça da privatização é um ato político e de amor”, afirmou a professora Ivânia Vieira, representante do Fórum das Águas.
Encerrada por volta do meio-dia, a Romaria das Águas reafirmou o compromisso das organizações participantes com a defesa dos rios amazônicos e com a conscientização da sociedade sobre a importância da água como bem público e essencial à vida.

Com informações do portal AM1 e Jesuítas Brasil
Por Manuel do Carmo da Silva Campos – Comunicação da CPT Regional Amazonas, Pastoral da Terra da Arquidiocese de Manaus, Comissão de Defesa dos Direitos Humanos de Parintins e Amazonas, Movimento dos Padres em Novas Dimensões e Movimentos dos Trabalhadores(as) Cristãos(ãs) do Amazonas
Edição: Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional)


