“Nossos rios não estão à venda!” 3ª Romaria das Águas do Amazonas acontece neste domingo (22), com barqueata até o Encontro das Águas

Cerca de 16 organizações do movimento popular realizam manifestação político-cultural em defesa da água para a vida dos povos amazônidas

A Romaria das Águas do Amazonas traz o tema “Água, fonte de vida e bem comum” e o lema “Que a justiça corra como um rio e a vida floresça”. Arte: Fórum das Águas
A Romaria das Águas do Amazonas traz o tema “Água, fonte de vida e bem comum” e o lema “Que a justiça corra como um rio e a vida floresça”. Arte: Fórum das Águas

O Fórum das Águas do Amazonas, composto por 16 organizações da sociedade civil, realiza no dia 22 de março, domingo, a terceira edição da Romaria das Águas. O evento celebra o Dia Mundial da Água e marca a luta dos povos das cidades e da floresta pelo acesso à água e pela preservação dos recursos hídricos da Amazônia. A ação envolverá diversas organizações da sociedade civil, movimentos socioambientais e religiosos, além de múltiplas pastorais da Arquidiocese de Manaus.

Com o tema “Água, fonte de vida e bem comum: nossos rios não estão à venda!” e lema “Que a justiça corra como um rio e a vida floresça” (cf. Am 5,24), a Romaria das Águas irá realizar uma barqueata, com início às 8h no Porto da Ceasa, local de concentração dos participantes, e segue para o Encontro das Águas, confluência de cerca de 7km entre os rios Negro e Solimões.

A programação contará com místicas em dois momentos (um no Porto da Ceasa e outro no Encontro das Águas). Representantes de organizações integrantes do Fórum se pronunciam e os participantes são convidados a integrar performances em defesa da água como bem público. Haverá momentos de espiritualidade. A Romaria das Águas segue o percurso Porto da Ceasa-Encontro das Águas- Porto da Ceasa, com encerramento às 12h.

Após a concentração, a Romaria das Águas do Amazonas segue em barqueata para o Encontro das Águas, confluência de cerca de 7 km entre os rios Negro e Solimões. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Após a concentração, a Romaria das Águas do Amazonas segue em barqueata para o Encontro das Águas, confluência de cerca de 7 km entre os rios Negro e Solimões. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Nossos rios não estão à venda!

Unidos pela preservação da fonte de vida na Amazônia, representantes de movimentos sociais e ambientais buscam, por meio da Romaria, promover a sensibilização da sociedade para as questões que permeiam o tema da água e cobrar das instituições e das autoridades medidas que garantam o acesso à água em condições de consumo e à sustentabilidade das fontes hídricas no Amazonas.

Além da celebração do Dia Mundial da Água, a Romaria também é uma denúncia de projetos que ameaçam os recursos hídricos na Amazônia. O tema da edição deste ano alerta para os riscos da privatização dos rios. Foi a força da mobilização dos povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas que pressionou o governo federal a revogar, no dia 23/2, o Decreto nº 12.600/2025, que incluía trechos dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND) e permitia a privatização e dragagem dos rios por gigantes do agronegócio.

Confira a CARTA DA ARTICULAÇÃO DAS CPT’S DA AMAZÔNIA EM APOIO À OCUPAÇÃO DOS POVOS DO BAIXO E MÉDIO TAPAJÓS

Vidas humanas sob ameaça

“A Romaria das Águas repercute as falas e os gritos das populações amazônicas que estão sendo agredidas pelo capitalismo predatório, poluidor e devastador da natureza”, afirma o Padre e pesquisador Sandoval Rocha, jesuíta, membro da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas. Para o sacerdote, “o modus operandi dos empreendimentos minerários, industriais, agrícolas e petrolíferos violenta as águas, os solos e a biodiversidade, levando muitas populações à exaustão e ao desespero.”

Rocha adverte que a privatização dos recursos hídricos ameaça as vidas humanas, sobretudo aquelas mais vulneráveis em uma operação explícita contra os direitos humanos. “O grito da Romaria das Águas é um grito de dor e um grito de esperança, pois, enquanto houver manifestações como esta também há coletivos, organizações, lideranças e cidadãos que lutam por um mundo melhor, mais democrático e mais sustentável”, disse.

Dinâmica das águas comanda a vida na Amazônia

A presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amzonas ADUA-seção sindical), profª Ana Lúcia Silva Gomes, vê a Romaria das Águas como um gesto concreto na soma das lutas na defesa dos recursos hidricos. “O ANDES E A ADUA têm preocupação muito grande com a questão ambiental. Temos um grupo de trabalho na nossa estrutura que trata desse tema. Quanto à Romaria das Águas, trata-se de um movimento de referência e de um momento especial, é espiritual e é político.”

Ana Lúcia Silva Gomes chama atenção à condição dos habitantes da Amazônia: “nós vivemos em um Estado que é comandado pelas águas. Os amazônidas vivem da dinâmica das águas, da cheia, da enchente, da vazante e da seca dos rios. Esse movimento diz respeito a vida dos ribeirinhos e da nossa vida que vivemos na cidade, da vida de outras espécies. Então, água é um tema de relevância para toda a sociedade. Devemos nos preocupar e querer saber o que está acontecendo com nossos recursos aquáticos e de que modo a interferência humana afeta as demais formas de vida. Para nós, da ADUA, a Romaria das Águas é um dos gestos concretos de luta, da busca de unidade na defesa desse bem comum”.

Desafios da água na realidade amazônica

Apesar de abrigar a maior reserva de água subterrânea do mundo, a Amazônia enfrenta uma realidade precária de acesso à água, de saneamento básico e de impactos das mudanças climáticas. O relatório do Instituto Trata Brasil, Ranking do Saneamento 2025, mostra que nove das 20 cidades brasileiras com os piores índices de saneamento estão na Amazônia Legal. Manaus está entre esses municípios, ocupando a 87ª posição das cem cidades que integram o ranking.

O desmatamento e as queimadas na Amazônia estão contribuindo para as mudanças climáticas e impactando nas dinâmicas das águas na região. O fenômeno dos rios voadores, mananciais aéreos responsáveis por grande parte das chuvas na América do Sul, está perdendo sua potência pela diminuição da cobertura florestal, o que alterar o regime pluviométrico das regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil. Além disso, as mudanças climáticas estão provocando eventos extremos, como a seca de 2024 no Amazonas, a maior de sua história, quando o rio Negro registrou 12,70m, a menor marca em 122 anos.

De acordo com o relatório Conflitos no Campo Brasil – 2024, do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc/CPT), foram registradas 10 ocorrências de conflitos pela Água no estado do Amazonas, atingindo 1.918 famílias. A maior parte dos conflitos têm a ver com uso e preservação da água, com situações de não cumprimento de procedimentos legais, pesca predatória, destruição e/ou poluição da água e contaminação por agrotóxico.

Publicado originalmente no portal BNC Amazonas
Edição: Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional)

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26.03.2025 – ROMARIAS DAS ÁGUAS ALERTAM PARA A PRESERVAÇÃO E AÇÃO EM DEFESA DO BEM MAIS PRECIOSO À VIDA

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