Camponeses maranhenses ameaçados por grileiros de terra obtêm vitória na Vara Agrária Estadual

Em visita de inspeção judicial da Vara Agrária de Imperatriz, a comunidade Pau Amarelo mostra, à frente, o local onde no passado havia roça. Foto: TJMA
Em visita de inspeção judicial da Vara Agrária de Imperatriz, a comunidade Pau Amarelo mostra, à frente, o local onde no passado havia roça. Foto: TJMA

As 20 famílias da comunidade Pau Amarelo, território Bem Feito, Formosa da Serra Negra/MA, obtiveram sentença da Vara Agrária de Imperatriz determinando reintegração de posse contra grileiros de terra.

O problema iniciou em 2014, quando um grileiro da região começou a ameaçar de expulsão a comunidade, dizendo-se proprietário das terras. A comunidade Pau Amarelo/território Bem Feito tem um século de ancestralidade comprovada, havendo cemitério antigo em que está enterrado seu fundador, Luís Bem Feito, que chegou no início do século XX ao local e faleceu nos anos 1950.

Cemitério da comunidade, onde está enterrado o fundador, Luís Bem Feito.

De janeiro de 2016 a dezembro de 2024, a CPT registrou 46 ocorrências de conflitos por terra e 26 ameaças de morte em Pau Amarelo. Os anos de 2019 (com 13) e 2022 (com 12) foram os que mais concentraram ocorrências de conflito por terra. Quanto às ameaças de morte, houve 6 em 2018, 7 em 2019, 3 em 2020, 1 em 2021 e 9 em 2022. (Ver quadro abaixo).

Os anos de 2019 e 2022 foram os que mais concentraram ocorrências de conflito por terra na comunidade Pau Amarelo. Tabela: Dados do relatório Conflitos no Campo Brasil / CPT
Os anos de 2019 e 2022 foram os que mais concentraram ocorrências de conflito por terra na comunidade Pau Amarelo. Tabela: Dados do relatório Conflitos no Campo Brasil / CPT

Em outubro de 2018, o carro que transportava dois agentes e um assessor jurídico da CPT sofreu uma tentativa de emboscada na estrada vicinal de acesso à comunidade. Na ocasião, um pistoleiro portando um revólver calibre 38, foi preso em flagrante por uma equipe da Polícia Civil que foi acionada.

Diante desse cenário de violências, em dezembro de 2018 o Ministério Público denunciou 5 pessoas pelos crimes de esbulho possessório, dano qualificado, associação criminosa e constrangimento Ilegal. Em fevereiro de 2019, o juízo estadual da Comarca de Grajaú-MA aplicou medidas cautelares aos acusados. O processo criminal está em fase de conclusão para sentença.

Visita de inspeção judicial da Vara Agrária na comunidade. Foto: TJMA
Visita de inspeção judicial da Vara Agrária na comunidade. Foto: TJMA

Paralelo a isso, surgiu um novo foco de tensões após um empresário de Barra do Corda adquirir mais de 600 hectares do grileiro em 2016. Em 2022, ele ameaçou de morte 9 camponeses de Pau Amarelo.

Três camponeses (2 homens e 1 mulher) permanecem no Programa Estadual de Proteção a Defensores de Direitos Humanos (PEPDDH/MA). Apesar de apenas três inclusões, o Programa de Proteção e a CPT entendem que toda a comunidade vive em situação de ameaça.

O conflito possessório desdobrou-se em 5 ações judiciais, sendo uma criminal (Comarca de Grajaú) e quatro possessórias (Vara Agrária de Imperatriz).

Quanto às possessórias, após inspeção judicial realizada em 12.09.2025 e apresentação das alegações finais pelas partes, o juiz titular da Vara Agrária de Imperatriz, Delvan Tavares Oliveira, sentenciou em 11.02.2026, reconhecendo a tradicionalidade da comunidade Pau Amarelo, o esbulho possessório cometido por fazendeiros e garantiu a posse de 645 hectares reivindicados pelos camponeses.

Açude e curral feitos por famílias da comunidade. Foto: TJMA

Na sentença, o juiz destacou:

“Com efeito, a historicidade do Povoado Bem Feito e, especialmente, a da Comunidade Pau Amarelo, comprovam a efetiva e regular posse dos autores sobre o território reclamado.

Os elementos de prova amealhados, sobretudo durante a inspeção judicial, demonstram o exercício de posse comunitária, antiga e contínua por aproximadamente sete décadas, com utilização da terra para atividades de agricultura e pecuária de subsistências, que remonta à época de Luiz Ribeiro do Santos (Luiz Bem Feito), fundador do Povoado Bem Feito.”

A sentença está em período de prazo para recurso. Caso não haja apelação, transitará em julgado até maio ou junho deste ano.

Por Comissão Pastoral da Terra Regional Maranhão e
Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH)

Edição: Rafael Silva – assessor jurídico da CPT-MA

Confira também:

30.01.2023 – GRILEIROS AMEAÇAM CAMPONESES NO TERRITÓRIO TRADICIONAL PAU AMARELO/BEM FEITO (MA)

11.10.2024 – 1° ENCONTRO DOS POVOS INDÍGENAS E COMUNIDADES TRADICIONAIS DA REGIÃO SUL DO MA REÚNE LIDERANÇAS DE 11 TERRITÓRIOS 

17.02.2025 – CPT REALIZA 2° ENCONTRO COM COMUNIDADES TRADICIONAIS DO SUL DO MARANHÃO PARA CONSTRUIR ESTRATÉGIAS DE LUTA E DE PROTEÇÃO COLETIVA DE ENFRENTAMENTO AO MATOPIBA

2 comentários

  1. Pra mim essas reuniões quei teve foi muito importante porque depois da última reunião qui teve ninguém ameaçou mais os povo da comunidade nem nas nossas casa nem nas estradas e nem nas rosas

  2. Primeiramente quero agradecer a Deus, como filha mais nova de um dos homens que lutou sofreu e batalhou incansavelmente pela melhor qualidade de vida, estava presente em todos os momentos e vir o quanto todos lutaram, mais se n fosse o agir de Deus a vitória n seria alcançada, como um obreiro me disse uma vez, tem males que só sair com oração e jejum, e a resposta que tanto buscávamos saiu a terra e nossa, Deus disse na sua palavra que aqueles que nele crê teria uma vida com abundância, e a palavra do senhor está se cumprindo, sou grata a Deus pela resposta, e vamos continuar firme na fé, tudo repito tudo é graças a Deus, sem ele nada seria possível 🤍🤍🤍

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