Da união das mulheres à Escola dos Ventos, comunidades rompem cercas e tecem teias no Nordeste*
Comunidades do Rio Grande do Norte, da Paraíba e de Pernambuco se unem na defesa da terra e dos territórios mostrando a força da comunhão e a organização popular
Edição: Ruben Siqueira (CPT/BA), Carlos Henrique Silva (Setor de Comunicação da CPT Nacional), Heloisa Sousa (Setor de Comunicação da CPT Nacional)

Tecer Teias – Intercâmbio entre grupo de mulheres (RN e PB)
A iniciativa envolve 14 grupos de mulheres agricultoras familiares no sertão do Rio Grande do Norte, moradoras de assentamentos rurais organizados a partir da década de 1990. A ação ocorre em diversos municípios da região, sendo fruto da luta pela terra e da resistência das mulheres frente às dificuldades sociais, políticas e climáticas do semiárido. Em 2021, esse trabalho inspirou a ampliação do trabalho com as mulheres em Cajazeiras, Alto Sertão da Paraíba e, hoje, o trabalho está sendo realizado com 10 grupos de mulheres. A experiência desenvolvem práticas coletivas de agroecologia e convivência com o Semiárido em assentamentos da Reforma Agrária, frutos da luta pela terra.
Rompendo as cercas dos latifúndios – Na década de 1990, o sertão potiguar era marcado pela concentração fundiária, com vastas extensões de terra sob o controle de poucos latifundiários. Diante dessa realidade, famílias camponesas — em sua maioria sem-terra e pequenos agricultores — se organizaram para lutar por seus direitos. Iniciaram ocupações de terras improdutivas, levantando barracos de lona nos acampamentos.
Mesmo sendo minoria numérica nos acampamentos, as mulheres camponesas tiveram papel essencial nessa fase da luta, enfrentando o machismo e os preconceitos sociais com coragem e determinação. Juntas, elas compartilharam experiências e se reconheceram em lutas comuns – contra o machismo, por terra, agroecologia e dignidade no semiárido.
Rompendo as cercas nas comunidades – Com a consolidação dos assentamentos, o número de mulheres aumentou, pois os maridos trouxeram suas famílias para morar nos novos territórios conquistados. No entanto, a participação das mulheres nas atividades comunitárias ainda era muito limitada. O excesso de tarefas domésticas, o cuidado com os quintais e com a família, além da resistência de muitos homens, dificultavam o engajamento feminino.

Foi nesse contexto que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) passou a incentivar a criação de grupos de mulheres nas comunidades. Por meio de visitas domiciliares e conversas pessoais, a equipe da CPT mostrou às mulheres a importância da organização coletiva e da troca de experiências.
A organização das mulheres – rompendo a cerca do isolamento e do conhecimento, com o apoio da CPT, os grupos de mulheres começaram a se reunir com mais frequência, discutindo temas do cotidiano e questões que impactam diretamente suas vidas, como violência doméstica, ausência de políticas públicas para as mulheres e a exclusão das decisões comunitárias.
Para apoiar esse processo, a Pastoral propôs um plano de estudos com seis encontros formativos, abordando temas como: divisão sexual do trabalho, reforma agrária, agricultura e agroecologia, Soberania alimentar e comercialização da produção. Esses encontros fortaleceram a organização das mulheres e abriram espaço para que elas participassem ativamente das decisões comunitárias e das lutas políticas.
Em 2022, num intercâmbio organizado com a ajuda da CPT, as mulheres do Oeste do Rio Grande do Norte começaram a se juntar com os grupos de mulheres do Alto Sertão da Paraíba. Essa troca não foi só uma visita, foi um passo importante para derrubar as cercas que separam os estados e para fortalecer a união das mulheres do Nordeste. Juntas, elas trocaram experiências, aprenderam umas com as outras e viram que os desafios são parecidos – e que, unidas, ficam mais fortes para enfrentar o machismo, lutar por terra, por agroecologia e por uma vida melhor no semiárido.
Esta é uma experiência que rompe as cercas do patriarcado e do latifúndio ao valorizar, estimular e encorajar a participação das mulheres na luta pela terra e na permanência com dignidade no território. E tece teias por meio do acompanhamento contínuo dos grupos, construindo uma articulação com outras comunidades e com os movimentos de mulheres da região, em defesa da agroecologia e da convivência com o semiárido.

A CPT esteve presente desde o início da luta pela terra, apoiando na organização dos acampamentos e, posteriormente, na criação dos assentamentos. Atuou diretamente na formação dos grupos de mulheres, na educação política, na geração de renda e na promoção da agroecologia. Para a Pastoral, compreender e fortalecer os grupos de mulheres é essencial para consolidar territórios de resistência e justiça social no semiárido. A experiência reforça a importância da auto-organização das mulheres como base para sua participação plena nas lutas por terra, dignidade e agroecologia. A auto-organização revelou-se fundamental no enfrentamento das opressões, mostrando que participar das decisões comunitárias e familiares é um direito, assim como ter voz nas lutas por direitos e justiça no campo.
“Com as reuniões e as formações no grupo de mulheres, aprendemos a nos libertar das opressões e das violências que a gente vivia. Aprendemos que não nascemos só para viver na cozinha, temos o direito de participar da luta por nossos direitos na comunidade e em todos os lugares. Aprendemos que as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos precisa ser dividido com o marido e isso se constrói conversado e também temos o direito de participar de todas as decisões na família”. (Samara Rejane dos Santos Alencar – Grupo de Mulheres Sementes da Terra – Assentamento Professor Maurício de Oliveira – Assú/RN).
Romper cercas – Escola dos Ventos (PE)

Em 2016, as comunidades de Sobradinho, Lagoa da Jurema, Quati, Pau Ferro, Barroca e Pontais, em Caetés (PE), começaram a sofrer os impactos da instalação de empreendimentos eólicos na região. Em 2017, a CPT organizou o primeiro encontro, reunindo 40 participantes de 16 comunidades, onde foram relatados danos severos à saúde, aos seus territórios, ao meio ambiente e aos animais.
Desde então, a Pastoral tem acompanhado as comunidades, promovendo encontros de formação, compartilhamento de experiências e articulações com outras organizações sociais, visando fortalecer a resistência comunitária às empresas e a luta pela reparação dos danos. As mulheres, mais presentes nas comunidades devido à migração masculina para trabalho em outras regiões, são as mais afetadas, sofrendo com a exposição prolongada ao ruído e a sobrecarga de trabalho
Fiel ao Evangelho, a CPT tem denunciado e documentado os abusos, informado às famílias sobre seus direitos e mobilizado parceiros. O trabalho de base, aliado à mística e espiritualidade, fortaleceu a resistência das comunidades, inspirando-se no legado dos mártires e na defesa dos povos oprimidos.
As comunidades aprenderam que a mística e a formação crítica são ferramentas essenciais para a resistência e que a união e a articulação coletiva são fundamentais para enfrentar o modelo opressor. Para a CPT, a importância do trabalho de base, da articulação com outras instituições e da denúncia pública se reafirma como formas de amplificar as vozes das comunidades e fortalecer a luta pela terra.
*experiências descritas na íntegra no “Caderno de Experiências”, utilizado nas tendas do V Congresso Nacional da CPT.
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