Levantamento indica 21 assassinatos de pessoas LGBT na zona rural brasileira em 2025, sendo mais da metade de pessoas trans

Por Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional),
com informações do Grupo Gay da Bahia e
O Grupo Gay da Bahia (GGB), mais antiga organização LGBT+ da América Latina, divulgou no último dia 18 seu relatório anual sobre mortes violentas de LGBT+ no Brasil referente ao ano de 2025. Mesmo com a redução nos números em relação ao ano anterior (291), o país continua sendo liderança mundial em assassinatos de pessoas LGBT+, com 257 mortes violentas, seguido do México com 40 homicídios e os Estados Unidos, 10. Os dados refletem a omissão e subnotificação crônica do Estado brasileiro, que ainda não implementa sistematicamente o registro de crimes de ódio motivados por LGBTfobia.
O release com os dados completos pode ser acessado neste link.
Dentre as mortes, mesmo não sendo ligadas diretamente à disputa por terra e território, 21 ocorreram em ambiente rural, incluindo lavouras, matas, lagoas, beiras de estrada e outros locais do campo. Pessoas trans são a maioria das vítimas, sendo 10 mulheres trans, uma travesti e um homem trans, além de 9 homens gays. A faixa média de idade é de 31 anos.

Os estados de Pernambuco e de Mato Grosso lideram os números, com 3 assassinatos cada, seguidos da Bahia, Ceará, Espírito Santo e São Paulo, com 2 vítimas em cada unidade da federação. Em relação às regiões, o Nordeste lidera com 9 mortes, seguido do Sudeste (5), Centro-Oeste (4) e Norte, com três vítimas. A pesquisa, realizada há mais de 45 anos de forma independente e voluntária, baseia-se em notícias veiculadas na mídia, redes sociais, blogs e correspondências enviadas ao GGB.
As violências contra pessoas LGBT+ incluem algumas características, como a relação intrafamiliar – casos envolvendo familiares próximos ou conviventes do lar (vizinho, namorado etc.), reforçando que o perigo não se limita ao espaço público -, motivação LGBTfóbica explícita – quando as vítimas foram alvo de homicídios motivados por rejeição à sua orientação sexual ou identidade de gênero, e a baixa elucidação – a taxa de esclarecimento desses casos é ainda menor do que a média geral, reforçando a seletividade institucional e a negligência do sistema de justiça.


“É desafiador viver a pele de uma pessoa trans em nossos territórios. Ainda mais com a violência estrutural fruto do patriarcado, que paira por sobre nossas cabeças. É tamanha a dificuldade de pedir socorro quando a nossa dor não é compreendida como importante ou a nossa existência não seja validada”, afirma Anna Giulia Almeida, mulher trans, filha de uma família assentada da reforma agrária na região do Pontal do Paranapanema (SP).
Um dos casos emblemáticos mostrados no relatório é o de uma mulher trans não identificada de 16 anos, assassinada a tiros em uma área rural no município de Primavera (PE). O corpo foi encontrado em uma região de mata, sem informações sobre autoria, motivação ou circunstâncias do crime. A ausência do nome da vítima, do seu nome social ou do pronome com o qual ela se identificava constitui uma forma de violência simbólica. “Apagar o nome é apagar a existência social do sujeito. Quando a morte vira apenas número, perde-se a história, a trajetória e o direito à memória. Em contextos rurais, essa invisibilidade é ainda mais profunda, revelando camadas adicionais de exclusão territorial e institucional”, afirma o relatório do GGB.
Vias públicas e terrenos baldios são cenários frequentes para execuções sobretudo de pessoas trans, muitas vezes associadas ao trabalho sexual e à marginalização espacial. Os requintes de crueldade (como uso de armas perfurocortantes, torturas, pauladas, esquartejamento, estrangulamento) também simbolizam o tipo de crime de ódio que caracteriza estas ocorrências.
Para o Mestre Alberto Schimitz, Coordenador do Centro de Documentação Prof. Luiz Mott de Curitiba (CEDOC), o grande desafio é a subnotificação e a invisibilidade das causas da violência. Para transformar essa análise em ferramenta de prevenção, ele aponta que seria fundamental qualificar a coleta de dados (para que os registros policiais e notícias busquem informações sobre contexto psicossocial com ética e respeito), o cruzamento com dados de saúde, como os registros de CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e serviços especializados em saúde LGBT+ e o foco na prevenção ao auto-extermínio.
Os desafios no registro dos conflitos envolvendo pessoas trans nas lutas do campo
Para a agente pastoral e documentalista da CPT Regional Maranhão, Silmara Moraes, registrar os conflitos que atravessam a vida da população trans nos territórios exige cuidado, escuta sensível e responsabilidade. “A ‘falta de denúncia’ e a subnotificação refletem o medo dessas pessoas de se exporem, de terem suas subjetividades negadas e suas falas invalidadas. Muitos conflitos que envolvem pessoas trans e outras pessoas LGBTs revelam violências potencializadas pela reprodução de estruturas como o racismo, a transfobia e a misoginia”, relata Silmara.
Este desafio se reflete nos conflitos registrados pela Pastoral: entre os anos de 2017 e 2024, foram identificados apenas 12 conflitos com as vítimas identificadas enquanto pessoas LGBT, nas ocorrências de violência contra a pessoa. Entre as vítimas, estão sem terra, indígenas e quilombolas de diversas identidades de gênero (tanto homens gays e mulheres lésbicas quanto mulheres trans e pessoas não binárias), nos estados do Pará, Rio de Janeiro, Ceará, Rondônia e Mato Grosso do Sul.
Dentre as violências sofridas, estão a prisão, humilhação, ameaça de morte e assassinato. Os principais causadores das violências são grileiros, fazendeiros, empresários e policiais militares.
“O desafio de registrar essas situações está em não reforçar estigmas — nem sobre a população trans, nem sobre as comunidades —, mas em compreender os conflitos como expressão de desigualdades maiores, produzidas por um Estado ausente e por uma sociedade que ainda falha em garantir direitos básicos, proteção e dignidade”, afirma Silmara, que também integra o Grupo de Trabalho (GT) Diversidades da CPT.
Caminhadas ainda tímidas do Estado brasileiro
No mês de abril de 2025, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) lançou o Manual do Programa Bem Viver+. O documento reúne um conjunto de estratégias de enfrentamento à violência contra pessoas LGBTQIA+ que vivem em territórios do campo, das águas e das florestas, com ações de proteção, promoção e defesa dos direitos. O manual está disponível neste link.
O programa, lançado em 11 de dezembro de 2024 numa parceria conjunta do MDHC, Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e da Igualdade Racial (MIR) junto a territórios indígenas, quilombolas, ribeirinhos, camponeses, ciganos, caiçaras, entre outros, prevê a realização de rodas de conversa com jovens indígenas, oitivas em territórios, oficinas de autoproteção e educação popular, além de encontros, seminários e campanhas contra a violência em dez estados e no Distrito Federal: Amazonas, Bahia, Ceará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Rio Grande do Sul, Roraima e São Paulo, territórios em que há algum índice de violência grave contra pessoas LGBTQIA+.
De início, já se percebe a falta da participação de ministérios como da Justiça e Segurança Pública, do Desenvolvimento Agrário e de autarquias como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o que estaria bem sintonizado com um programa de enfrentamento a violência no campo. O orçamento destinado ao programa, de cerca de R$ 8,5 milhões, também é uma lacuna que precisa ser melhor explicada. A portaria prevê que “as despesas do Programa Bem Viver+ correrão de acordo com a disponibilidade orçamentária do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, do Ministério dos Povos Indígenas e do Ministério da Igualdade Racial”, que já são pastas de orçamentos já reduzidos em relação a outros investimentos.
Desde 2024, o programa formou 34 defensoras e defensores de direitos humanos que atuam como agentes de promoção e defesa nos territórios em que vivem, prevenindo violências e fortalecendo a proteção social. Estima-se que mais de 1,5 mil indígenas foram beneficiadas com as formações. Também foram entregues 75 computadores do Programa Computadores para Inclusão, do Ministério das Comunicações (MCom) para seis aldeias do Mato Grosso do Sul.
O Bem Viver+ busca transformar os territórios em espaços livres de homofobia e transfobia, mas um dos principais desafios está em saber onde a violência está acontecendo, para que a política pública possa ser monitorada e bem aplicada. O país conta com um Comitê de Monitoramento da Estratégia Nacional de Enfrentamento à Violência contra Pessoas LGBTQIA+, mas os índices de violência no campo contra esta população são complexos de serem mensurados.
“Por isso, o trabalho de acolher, sistematizar, registrar e divulgar os conflitos ocorridos nos territórios precisa ser feito a partir da escuta, do diálogo e da construção coletiva, reconhecendo que as comunidades também estão em processo de aprendizado. É fundamental que esse processo contribua para que a visibilidade trans se traduza em denúncias acolhidas, apoiadas e assumidas por todas e todos que lutam por territórios, corpos e mentes livres”, pontua Silmara Moraes.
Unificar as lutas e ocupar os espaços: estratégias de resistência
Em movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com mais de 40 anos de existência, pessoas LGBT+ já participam ativamente das lutas no campo, mas o debate ganhou força coletiva apenas na última década. Foi no Congresso Nacional do MST, em 2014, que corpos diversos ocuparam a mística nacional de forma intencional e politizada.

A partir desse processo, o MST passou a afirmar, de forma cada vez mais explícita, que não há Reforma Agrária Popular possível sem a inclusão de todos os sujeitos que constroem a terra e o projeto político do movimento. O posicionamento foi reforçado durante o 14º Encontro Nacional do MST, realizado na Bahia, nos últimos dias 19 a 23 de janeiro de 2026.
“Ocupar os espaços é nossa tarefa primordial, além de provar que nossa luta não se resume a nós, mas ao justo, bom e certo que queremos alcançar para toda a nossa sociedade”, afirma Anna Giulia Almeida, que também integra o setor de Saúde e o Coletivo de Juventude do MST.
“No Brasil, as LGBTs morrem pela violência, que também se apresenta através da fome, da falta de acesso à terra, à possibilidade de viver no campo. Temos afirmado que é necessário unificar as nossas lutas, contra o machismo e o patriarcado, nossa luta é pela liberdade sexual e de todas as opressões de gênero”, defendeu Elaine Rodrigues, da coordenação do Movimento dos Atingidos e Atingidas por Barragens (MAB).

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