Sessão Solene na Câmara dos Deputados marca os 50 anos de atuação da CPT

Durante a manhã desta terça-feira (26), o Plenário Ulysses Guimarães da Câmara dos Deputados, em Brasília/DF, recebeu a Sessão Solene de Homenagem à Comissão Pastoral da Terra (CPT), pelos seus 50 anos de atuação, um momento de reconhecimento da caminhada de meio século junto aos povos da terra, das águas e das florestas.
Presidindo a sessão, o deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), autor do requerimento, chamou para compor a mesa da Casa: o integrante da Coordenação Nacional da CPT, Ronilson Costa; além de Alessandra Miranda de Souza, da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da CNBB (Cepast/CNBB); Ceres Luisa Antunes Hadich, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); Frei Sérgio Görgen, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), e o Padre Severino Leite Diniz, agente e membro do Conselho da CPT São Paulo. Agentes da CPT/SP, da Campanha contra a Violência no Campo e da assessoria jurídica da CPT também estavam no plenário, junto com representantes dos movimentos sociais presentes.

Em sua fala, o deputado Nilto Tatto destacou a atuação histórica da CPT, não apenas acompanhando as lutas do povo do campo, mas estando ao lado, caminhando junto e sendo apoio para as comunidades que sofreram e sofrem violências nos acampamentos, assentamentos, aldeias indígenas, territórios quilombolas, seringais, beiras de rio e no meio da floresta.
“A CPT se fez ponte entre a fé e a luta, entre a espiritualidade e a política, entre o evangelho e a terra. Quantas vidas foram salvas pela CPT? Quantas denúncias de violência ela fez chegar à justiça? Quantas vezes ela gritou quando ninguém mais escutava os pequenos? A CPT não pediu licença para incomodar os poderosos, ela fez da profecia sua missão. Como militante da causa socioambiental e, hoje, como deputado federal, posso afirmar sem hesitação: o Brasil tem uma dívida histórica com a Comissão Pastoral da Terra”, afirmou o parlamentar, lembrando também o papel de “escola política” da Pastoral, na formação de militantes, educadores/as populares, advogados/as, pessoas religiosas e parlamentares com compromisso de transformação social, incluindo movimentos como o MST, que surgiu dentro da CPT.
Em nome da Câmara dos Deputados, Nilto agradeceu a agentes pastorais, bispos, padres, irmãs, educadores, advogados, agricultores, indígenas, quilombolas, pescadores e tantas outras pessoas que dão a vida à CPT e à luta pela terra e por dignidade no campo. “Saibam que vocês não estão sozinhos. Esta casa, muitas vezes insensível ao grito da terra, também abriga vozes que ocorram à luta do povo, e hoje essas vozes se levantam em homenagem à CPT”, concluiu o deputado.
Outros parlamentares presentes também subiram à tribuna para celebrar os 50 anos de jornada da Pastoral em seus discursos, a exemplo dos deputados Airton Faleiro (PT-PA), Marcon (PT-RS), Padre João (PT-MG) e Luiz Carlos Hauly (Podemos-PR).



Da esquerda para a direita, os deputados Marcon (PT-RS), Padre João (PT-MG) e Luiz Carlos Hauly (Podemos-PR). Crédito: Vinícius Loures / Câmara dos Deputados
Ronilson Costa, da Coordenação Nacional da CPT, destacou os desafios e as motivações que levaram à criação da Pastoral há 50 anos, em meio a um dos períodos mais difíceis da história brasileira, no recrudescimento da ditadura militar. “Junto com os povos, com essas comunidades esquecidas e abandonadas, a gente vai fazendo presença também numa atitude muito profética, erguendo suas vozes e lutando pelos direitos também com rebeldia, no sentido de que era necessário dizer não para toda essa estrutura planejada e estruturada que oprimia o povo. E chegamos aqui muito mais com o propósito de refletir sobre o quanto que precisa ser alcançado para garantir, de fato, uma verdadeira reforma agrária para que garanta a demarcação dos territórios dos povos originários, das comunidades quilombolas e tantas outras comunidades e outras vias campesinas que nós temos no nosso país”, destacou Ronilson.

O coordenador também lembrou da realização do V Congresso Nacional da CPT realizado no mês de julho, em São Luís do Maranhão, um estado profundamente marcado pelas desigualdades, exclusão e maus tratos aos povos do campo, o que se reflete na liderança dos números de conflitos no campo em 2024: foram 420 registros, sendo 282 deles provocados por pulverização aérea de agrotóxicos sobre a cabeça de homens, mulheres e crianças.
Já Alessandra Miranda, representando a Cepast/CNBB, trouxe em sua fala agradecimentos da parte dos bispos D. José Ionilton Lisboa (presidente da CPT) e D. José Valdeci Mendes, presidente da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora. Lembrando a missão da CPT na ação pastoral dos direitos humanos e dos direitos da natureza, ela acrescentou a violência alarmante contra os povos tradicionais e originários da terra e das águas, acompanhada anualmente pela Comissão, através dos relatórios de Conflitos no Campo publicados há 40 anos.

“Conclamamos a cada um e a cada uma o posicionamento e a defesa dos trabalhadores no campo, que sintam-se seguros, acolhidos e protegidos e na dignidade que é dada. Que o direito constitucional seja respeitado e que escutemos nosso querido Papa Francisco e a sua bonita memória, que dizia: ‘nenhuma família sem terra’”, acrescentou Alessandra.
Vestindo a camiseta do V Congresso Nacional da CPT e com seu inseparável boné do MST, o Pe. Severino Diniz, hoje atuando em comunidades da região noroeste paulista, falou representando inúmeros e inúmeras agentes de pastoral espalhados por todo o país. Ele narrou um pouco da sua trajetória de mais de 40 anos junto à Pastoral, desde que saiu do seminário e se somou junto ao povo nas lutas pela terra.
“Se eu tivesse que resumir aqui o que a gente fez na CPT, e o que a CPT simboliza para a minha vida e para milhares de pessoas nesses 40 e poucos anos de caminhada, é que transformou vidas. Eu vim da roça para a capital, como seminarista, e na capital eu me engajei na CPT. E nós criamos a primeira associação dos sem-terra da cidade de São Paulo, em 1990, no governo da Luísa Erundina, e conseguimos assentar 500 mil pessoas com suas casas ao lote urbanizado. Foi o maior programa de habitação que São Paulo já teve. Aí o Doutor Irineu falou: ‘ô, Severino, tu tá fazendo Pastoral da Terra na cidade? Vem fazer Pastoral da Terra na terra.’ Fomos na primeira Romaria da Terra do Estado de São Paulo em 1989, com 12 mil pessoas. Andamos a pé uns 15 km até o local onde hoje é o assentamento Reunidas, que é um dos maiores assentamentos do estado de São Paulo em terra privada, onde eu trabalho. De 2015 pra cá, quando participamos do encontro em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, nós saímos de lá com um compromisso de lutar por Terra, Teto e Trabalho digno, e fazemos isso 24 horas por dia. Até quando estamos dormindo, estamos sonhando, construindo núcleos de luta em todos os municípios da região”, declarou o padre Severino.

Ele acrescenta que, mesmo com uma quantidade pequena de agentes, o trabalho da CPT é gigantesco em São Paulo, fruto de articulações para fazer as políticas públicas do governo chegarem na base. “É uma bênção de Deus a CPT para nós todos, e principalmente para aqueles que, se hoje o Movimento Sem Terra tem quase 500 mil pessoas assentadas, é porque a CPT criou o Movimento Sem Terra. Não é pouca coisa. Se o Brasil tem mais de um milhão e meio de famílias assentadas, é porque essa bandeira da reforma agrária foi sustentada pelo braço dos agentes da CPT, desde o dia da sua criação.”
Conheça a história de vida do pe. Severino, contada pelo saudoso comunicador Antônio Canuto no livro: “Peregrino por Terra, Teto e Trabalho: Um padre além dos muros da Igreja”.

Ceres Hadich (MST): “A história da CPT não pode ser contada sem reconhecer o seu papel fundamental como uma catalisadora da organização popular. Foi nos encontros de base, nas comunidades eclesiais (as CEBs) e sob a proteção de seus agentes pastorais, que a semente da resistência germinou e floresceu. O MST é, em muitos sentidos, um filho legítimo dessa caminhada. Foi o trabalho paciente de articulação, formação e apoio da CPT que uniu forças despertas e deu origem, em 1984, ao que hoje é o maior movimento popular da América Latina. A CPT não apenas ajudou a formar o MST. Ela ofereceu amparo jurídico, apoio espiritual e solidariedade política nos nossos momentos mais difíceis. Mas não celebramos apenas o seu passado. Celebramos um presente de luta e reafirmamos nosso compromisso com o futuro. A luta pela reforma agrária, pela agroecologia, pelo fim do trabalho escravo e pela defesa dos nossos biomas continua mais urgente do que nunca. Que o legado da CPT nos inspire a seguir semeando esperança, cultivando justiça e colhendo um futuro onde a terra seja um bem de todos e não um privilégio de poucos. Parabéns à Comissão Pastoral da Terra, parabéns a todos os movimentos do campo que mantêm viva a chama da utopia.”

Dep. Airton Faleiro (PT-PA): “Eu sou agricultor familiar. Minha família saiu do Rio Grande do Sul para o Paraná, e de lá para o Pará, devido à concentração de terra. Vivi e convivi com a CPT num primeiro momento como ocupante de uma área que teve conflito durante cinco anos (conflito de Placas, na Transamazônica). Foi importante a voz da CPT, a voz do bispo a nosso favor naquele momento de ataque, porque até o Exército Brasileiro foi lá nos tirar daquela ocupação, não conseguiu. Eu vivi isso, e depois eu convivi como sindicalista numa região dos maiores conflitos do Brasil, no Sul e Sudeste do Pará, com muitos assassinatos, muita violência e confronto na disputa por terra e pelos territórios. E eu sei o papel que a CPT cumpriu na Amazônia, nestas regiões de fronteira, de colonização. Eu me respondo: quantas mortes evitadas? Mas também quantas vidas perdidas, não só de lideranças camponesas sem terra, mas de integrantes da CPT. Eu era amigo de dormir na casa da Dorothy, pra dar um exemplo. Mas também, quantas terras e territórios conquistados, na democratização da terra? Eu sou dos que acham que um dia o Brasil não vai precisar mais da CPT, do MST, mas estes organismos e movimentos só vão deixar de existir quanto tivermos uma efetiva reforma agrária, além da garantia da preservação da natureza nos territórios. Neste momento que vivemos, o Brasil ainda precisa muito da CPT.”

Frei Sérgio Görgen (MPA): “Eu comecei a participar da Pastoral da Terra em 1978, ainda estudante, ajudando o padre Arnildo, que morava em Ronda Alta, em Porto Alegre, acolhendo os acampados da Fazenda Macali, da Fazenda Brilhante, depois da Encruzilhada Natalino e, até hoje, como militante de base da Pastoral da Terra. A gente tem que lembrar a coragem de Dom Pedro Casaldáliga, a coragem de vários bispos, e alguns que ainda estão vivos, como Dom Orlando Dotti, que tomaram a iniciativa de criar esta pastoral, de dar a proteção da hierarquia católica para que essa pastoral pudesse se sustentar, porque isso também é importante, isso também é decisivo, e muitos bispos fizeram isso ao longo desse tempo. E também essa pastoral teve mártires, que morreram defendendo essa causa, como o padre Josimo, a irmã Dorothy e muitos leigos que foram assassinados também na defesa da terra, da justiça e da reforma agrária. Viva a CPT, mais 50 anos, testemunhando o Evangelho de Jesus na defesa das pessoas. Não um Evangelho desencarnado para alívio de consciência, mas um Evangelho que vive a busca da justiça, como Jesus viveu, como Nossa Senhora Maria viveu, como os apóstolos viveram.”
Link da transmissão da Sessão Solene no YouTube da Câmara dos Deputados.
Confira toda a cobertura da Sessão Solene neste link.
